15 outubro 2008

O Sono dos Cristãos

Os papas, os padres e muitos escritores religiosos chamam a atenção para o despertamento dos cristãos para a realidade espiritual, atribuindo-lhes um sono profundo. Para a maioria deles, aqueles que tiveram a oportunidade de entrar em contato com os ensinamentos de Jesus devem assumir um compromisso (com suas consciências) de acordar os outros cristãos que ainda dormem.

A citação básica para as suas admoestações é aquela narrada por Mateus, em que Jesus, próximo à sua morte, visita por três vezes os seus apóstolos e os encontra dormindo (Mateus 26, 39 a 46). Deste texto, surge o seguinte: 1) A observação de Jesus: “Por que dormis?” (“Quid dormitis?) — Lucas 22, 46; A Sua advertência: “Basta! Chegou a hora!” (“Sufficit! Venit hora!”) — Marcos 14, 41; A Sua ordem: “Despertai, vamos!” (“Surgite, eamus!”) — Mateus 26, 46.

De onde vem a letargia dos cristãos? A sociedade está organizada materialmente. Tudo o que fazemos, fazemos com o intuito de obtermos um retorno financeiro, ou seja, fundos que possam ajudar a nossa subsistência. As necessidades espirituais do ser humano ficam em segundo plano. Na vida pública, salvo raras exceções, o que impera é o jeitinho, a falcatrua, as injustiças sociais, de modo que aquele que quer viver honestamente é muitas vezes alijado da mesma.

O verdadeiro cristão deve preferir a meditação ao sono, pois este pode nos levar ao pesadelo. A meditação – ou autoconsciência – como já nos ensinava Sócrates na Antiguidade, nada mais é do que a tomada de consciência das verdades espirituais. Dizer a verdade e mostrar a uma pessoa que ela é injusta pode trazer muitos aborrecimentos para a pessoa que o disse. Pergunta-se: como plantar o Reino dos Céus no coração das pessoas, se não se chamar a atenção para os erros de interpretação das verdades eternas?

Acordar para a realidade espiritual é refletir, de modo tranqüilo e racional, sobre as advertências de Jesus, tentando captá-las na sua verdadeira pureza. Nesse sentido, o Espiritismo pode nos ajudar sobremaneira, porque os benfeitores espirituais estão sempre nos orientando e nos ensinando sobre o verdadeiro sentido dos ensinos trazidos por Cristo. O “não vim trazer a paz, mas a espada” é muito oportuno. Tem-se a impressão que Jesus veio fomentar a guerra, quando, na verdade, veio dizer que toda a ideia nova é factível de debates, de contrariedades.

Acordar é despertar o ânimo dos que estão desesperados. O Espiritismo vem cumprir muito bem essa tarefa. Diz-nos que a idiotia, as deficiências físicas e as doenças incuráveis têm sua explicação na lei de causa e efeito. Se as causas não puderem ser encontradas nesta existência, poderemos procurá-las em existências passadas, de modo que sempre teremos um consolo para a nossa alma enfermiça.

O Espiritismo está apto a acordar os que domem, porque o faz através da razão. Aprender a equilibrar razão e emoção é o imperativo básico para uma vivência plena e de muitas realizações.

Por que Dormis?

"E Disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação". - Lucas, 22, 46.

Nos ensinos fundamentais de Jesus, é imperioso evitar as situações acomodatícias, em detrimento das atividades do bem.

O Evangelho de Lucas, nesta passagem, conta que os discípulos “dormiam de tristeza”, enquanto o Mestre orava fervorosamente no Horto. Vê-se, pois, que o Senhor não justificou nem mesmo a inatividade oriunda do choque ante as grandes dores.

O aprendiz figurará o mundo como sendo o campo de trabalho do Reino, onde se esforçará, operoso e vigilante, compreendendo que o Cristo prossegue em serviço redentor para o resgate total das criaturas.

Recordando a prece em Getsêmani, somos obrigados a lembrar que inúmeras comunidades de alicerces cristãos permanecem dormindo nas convivências pessoais, nos mesquinhos interesses, nas vaidades efêmeras.Falam do Cristo, referem-se à sua imperecível exemplificação, como se fossem sonâmbulos, inconscientes do que dizem e do que fazem, para despertarem tão-só no instante da morte corporal, em soluços tardios.

Ouçamos a interrogação do Salvador e busquemos a edificação e o trabalho, onde não existem lugares vagos para o que seja inútil e ruinoso à consciência.

Quanto a ti, que ainda te encontras na carne, não durmas em espírito, desatendendo aos interesses do Redentor.

Levanta-te e esforça-te, porque é no sono da alma que se encontram as mais perigosas tentações, através de pesadelos ou fantasias.
XAVIER, F. C. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB. Cópia do capítulo 87.
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01 outubro 2008

A Semente

A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória.

A semente – do grego sperma – tem relação com o concreto e com o metafórico. Concretamente, joga-se uma semente na cova; depois, espera-se o tempo necessário para a sua germinação, até que dê os seus frutos. Metaforicamente, é a transferência que fazemos dela para o campo do espírito, da moral, da evolução do ser humano.

Deus, quando criou o Universo, fez também a Natureza, para que o ser humano pudesse produzir pelo seu próprio esforço. É jogando a semente ao solo que poderá produzir frutos e auxiliar a sua própria subsistência. Há, assim, uma relação perfeita entre o humano e o divino: estamos na Terra, mas o nosso pensamento voa ao Infinito. A busca de conhecimento não é para encher a memória, mas para ajudar a marcha ascensional do nosso Espírito imortal.

A semente deve retratar este vínculo perfeito entre o ser humano e o Ser Supremo. Devemos escolher bem o terreno em que ela será jogada, pois uma vez lançada é natural que produza os seus frutos. Da mesma forma que adubamos o solo e regamos a planta, o mesmo devemos fazer com relação ao nosso Espírito: arroteá-lo, limpá-lo e adubá-lo emocionalmente, no sentido de estar o mais preparado possível para receber os ensinamentos espirituais.

Há, assim, a "semente divina" e a "semente humana". A semente divina ou a palavra divina é sempre pura; a semente humana, a palavra humana, além de limitada, pode estar sujeita a muitos mal-entendidos. Nada disso, contudo, impede de a semente crescer, como no contexto em que o joio cresce junto com o trigo. No momento oportuno, haverá a separação. Se quisermos separá-lo antecipadamente, poderemos arrancar também o trigo.

Quando estamos nos reportando às coisas do Espírito, estamos nos referindo à palavra de Deus, ou mesmo à palavra de Jesus. Quando dizemos que o Senhor saiu a semear, devemos entender que está havendo a disseminação da boa-nova no seio da população. A palavra diz respeito ao Reino de Deus, à obtenção da vida eterna, à salvação da alma. A salvação, contudo, que a semente intui não é a salvação beatífica; refere-se à iluminação interior.

A semente, uma vez lançada, germinará com certeza. Tenhamos, pois, o cuidado de bem preparar o nosso terreno espiritual, a fim de que ela produza cento por um.
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Parábolas

Consultando o "Dicionário Bíblico", verificamos que os antropomorfismos do Velho Testamento são verdadeiras parábolas, pois como o ser humano tem dificuldade de explicar a origem do homem e do mundo, ele se vale dos mitos. Entre tais mitos, encontra-se aquele que está relatado na Bíblia: “Deus, do pó da terra, cria Adão; depois, sopra-lhe as narinas e lhe dá vida. Não satisfeito, retira-lhe uma das costelas e cria a Eva, que será a sua companheira no paraíso". Segundo a letra, este texto carece de sentido; há necessidade de uma interpretação metafórica.

As parábolas, no judaísmo tardio, eram formas de transmitir conhecimento. Os rabinos, ou melhor, os doutores israelenses, aqueles que explicavam a lei entre os hebreus, usavam-na intensivamente. Jesus, ao ensinar por parábolas, nada mais fazia do que aplicar o método de ensino utilizado pelos escribas. A parábola, por seu turno, é sempre comparação. Jesus segue o modelo: “A que irei comparar?” A fórmula usada é: “O reino de céus é semelhante...” Na Parábola do Semeador ele diz: “O Senhor saiu a semear...”.

A parábola contém o enigma, o símbolo e o apocalipse. São revelações de imagens que necessitam de uma explicação posterior. A parábola é um meio catequético e estilístico bem adaptado ao povo judeu. Não resta dúvida que era um método de ensino já enraizado na cultura daquele povo. Jesus, dando continuidade ao método, dizia: “Aquele que tem ouvidos de ouvir, ouça”; “Aquele que tem olhos de ver, veja”. Com isso, dava-nos a entender que as palavras estavam acima delas mesmas, isto é, precisavam de uma interpretação simbólica.

As parábolas aparecem como uma condição necessária para que a razão se abra à fé: quanto mais penetrarmos no seu enigma, no seu simbolismo, mais compreenderemos as coisas espirituais. O aspecto velador das parábolas é também providencial. Lembremo-nos de que depois de proferir publicamente um ensinamento, Jesus se reunia com os seus apóstolos para lhes dar uma explicação mais detalhada. Ainda assim, não lhes dizia tudo, porque estes não tinham capacidade de tudo absorver.

As parábolas são divididas em duas categorias: 1) com ênfase no conteúdo doutrinal; 2) com ênfase no aspecto moralizante. A Parábola do Semeador e a Parábola do Grão de Mostarda, por exemplo, são arroladas na ênfase doutrinal; a Parábola do Amigo Incômodo, do Juiz Injusto e do Bom Samaritano, na ênfase moralizante. Esta distinção não deve ser exagerada, porque tanto as do primeiro grupo quanto as do segundo grupo contêm aspectos doutrinários e morais.

A parábola é um aprendizado contínuo. Para desfrutarmos de todas as suas instruções, precisamos visitá-las periodicamente, pois a cada nova leitura um novo conhecimento pode ser absorvido.

Mais sobre a Parábola (julho de 2009)


Parábola – do grego parabolé, que vem de pará (=ao longo de, ao lado de, passando perto, junto de) e bolé (=o que foi jogado). Bolé vem do verbo grego bállo, que significa jogar, lançar. Para expressar o ato de lançar uma pedra, que passa de raspão, os gregos usam o verbo paraboleúomai. Parábola é arriscar-se, passar perto, raspar. Por isso, as várias interpretações acerca das parábolas contadas por Jesus. São ensinamentos que passam de lado, não atingindo diretamente as pessoas. Há necessidade de uma explicação, de uma análise mais aprofundada.

Jesus transmitia os seus ensinamentos através de histórias (parábolas), extraídas da vida cotidiana. A compreensão dessas passagens evangélicas não vem de mão beijada. É preciso o studium que, em latim, significa empenho, zelo, esforço. Nada se aprende brincando. Há necessidade de concentração, de aplicação cuidadosa de nossa mente na resolução de um problema, de uma dificuldade.

Um exemplo de esforço, de dedicação à causa evangélica, é a passagem relatada no livro I Fioretti, de São Francisco de Assis, em que manda Frei Bernardo a Bolonha, para ali fazer frutificar os ensinamentos cristãos. Frei Bernardo, munido da cruz do Cristo, para lá se dirige, sofrendo todo o tipo de opróbrio, tanto das crianças como das pessoas mais velhas. Um sábio juiz, observando a sua virtuosa constância, pensa: “É impossível que este não seja um santo homem”. Aproximando-se e conversando com Frei Bernardo, oferece-lhe um lugar para louvar o Senhor. Frei Bernardo, porém, retirou-se e voltou para São Francisco, dizendo: “O local está preparado na cidade de Bolonha. Manda, pois, pai, frades para que lá morem, porque para mim nessa cidade não há mais grande lucro; ao contrário, pela grande honra que lá me tributam, temo mais perder do que ganhar”.

Os discípulos do Senhor alegravam-se pelas injúrias e entristeciam-se com as honras. Iam pelo mundo como peregrinos e forasteiros, nada levando consigo, a não ser Cristo. Geralmente, temos olhos para não ver. Jesus, com as parábolas, abre-nos a visão, estimula-nos a pensar e a repensar, tentando encontrar uma explicação mais acurada para aquilo que parece nebuloso, sem nexo. Como, num mundo materializado, pode-se entender aquela alma que larga tudo por um ideal, levando consigo apenas o Cristo?


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