22 janeiro 2016

Notas Extraídas do Livro Memórias de um Suicida

MEMÓRIAS DE UM SUICIDA (Obra Mediúnica) YVONNE A. PEREIRA

INTRODUÇÃO

Na introdução do livro, agradece ao Espírito Léon Denis, o grande apóstolo do Espiritismo, a quem tem os melhores motivos para atribuir as intuições advindas para a compilação e redação da presente obra.

Para a médium, estas páginas não foram rigorosamente psicografadas, pois via e ouvia nitidamente as cenas aqui descritas: “observava as personagens, os locais, com clareza e certeza absolutas, como se os visitasse e a tudo estivesse presente e não como se apenas obtivesse notícias através de simples narrativas”.

“Não posso ajuizar quanto aos méritos desta obra. Proibi-me, durante muito tempo, levá-la ao conhecimento alheio, reconhecendo-me incapaz de analisá-la. Não me sinto sequer à altura de rejeitá-la, como não ouso também aceitá-la. Vós o fareis por mim. De uma coisa, porém, estou bem certa: - é que estas páginas foram elaboradas, do princípio ao fim, com o máximo respeito à Doutrina dos Espíritos e sob a invocação sincera do nome sacrossanto do Altíssimo”.

Rio de Janeiro, 18 de maio de 1954.

Prefácio da segunda edição

O Espírito Léon Denis diz que a revisão se impunha, no sentido de evitar “excessos de vocabulário, acúmulos de figuras representativas, os quais somente agora foram suprimidos. Nada se alterou, todavia, na feição doutrinária da obra, como no seu particular caráter revelatório”. 

LÉON DENIS

Belo Horizonte, 4 de abril de 1957.


PRIMEIRA PARTE - OS RÉPROBOS

CAPÍTULO I - O Vale dos Suicidas

Descrição do vale dos suicidas: “gargantas sinuosas e cavernas sinistras, no interior das quais uivavam, quais maltas de demônios enfurecidos, Espíritos que foram homens, dementados pela intensidade e estranheza, verdadeiramente inconcebíveis, dos sofrimentos que os martirizavam”.

“O solo, coberto de matérias enegrecidas e fétidas, lembrando a fuligem, era imundo, pastoso, escorregadio, repugnante! O ar pesadíssimo, asfixiante, gelado, enoitado por bulcões ameaçadores como se eternas tempestades rugissem em torno; e, ao respirarem-no, os Espíritos ali ergastulados sufocavam-se como se matérias pulverizadas, nocivas mais do que a cinza e a cal, lhes invadissem as vias respiratórias, martirizando-os com suplício inconcebível ao cérebro humano habituado às gloriosas claridades do Sol - dádiva celeste que diariamente abençoa a Terra - e às correntes vivificadoras dos ventos sadios que tonificam a organização física dos seus habitantes”.

Nota de Rodapé

(2) As impressões e sensações penosas, oriundas do corpo carnal, que acompanham o Espírito ainda materializado, chamaremos repercussões magnéticas, em virtude do magnetismo animal, existente em todos os seres vivos, e suas afinidades com o perispírito. Trata-se de fenômeno idêntico ao que faz a um homem que teve o braço ou a perna amputados sentir coceiras na palma da mão que já não existe com ele, ou na sola do pé, igualmente inexistente. Conhecemos em certo hospital um pobre operário que teve ambas as pernas amputadas senti-las tão vivamente consigo, assim como os pés, que, esquecido de que já não os possuía, procurou levantar-se, levando, porém, estrondosa queda e ferindo-se. Tais fenômenos são fáceis de observar.

Legião dos Servos de Maria 

Caravana de Espíritos - que estendiam a fraternidade ao extremo - percorria a área dos réprobos para analisar quem já estaria em condições de se deslocar para outro plano vibratório. 

CAPITULO II - Os réprobos

Em geral, os que se arrojam ao suicídio esperam livrar-se de sofrimentos e dissabores julgados insuportáveis, à revelia das leis do Bem e da Justiça. Também eu assim pensei, muito apesar da auréola de idealista que minha vaidade acreditava glorificando-me a fronte.

“Convém recordar que meu suicídio derivou-se da revolta por me encontrar cego, expiação que considerei superior às minhas forças. Injusta punição da natureza aos meus olhos necessitados de ver, para que me fosse dado obter, pelo trabalho, a subsistência honrada e ativa”.

Neste capítulo, há uma descrição dos vários aspectos do estado de alma em que se encontram os que cometem o suicídio. Contudo, não estavam a sós, pois a Legião dos Servos de Maria acompanhava os passos de cada um. 

CAPÍTULO III - No Hospital "Maria de Nazaré"

“Ao contrário das demais dependências hospitalares, como o Isolamento e o Manicômio, o Hospital Maria de Nazaré, ou "Hospital Matriz", não se rodeava de qualquer barreira. Apenas árvores frondosas, tabuleiros de açucenas e rosas teciam-lhe graciosas muralhas. Muitas vezes pensei, quando dos meus dias de convalescença, como seria arrebatadora a paisagem se a policromia natural rompesse o sudário níveo que tudo aquilo envolvia entristecendo o ambiente de incorrigível monotonia!”

Ao receber a visita de sua mãe, percebe que é imortal, uma grande descoberta para aqueles que creem que a vida termina com a morte do corpo físico. 

Confessa que teve medo e vergonha de ser cego. 

“Matei-me no intuito de encobrir da sociedade, dos homens, dos meus inimigos a incapacidade a que ficara reduzido”.

Tomou conhecimento de que o “corpo astral”, isto é, o perispírito – ou ainda o “físico-espiritual” – não é uma abstração, figura incorpórea, etérea, como supuseram. Ele é, ao contrário disso, organização viva, real, sede das sensações, na qual se imprimem e repercutem todos os acontecimentos que impressionem a mente e afetem o sistema nervoso, do qual é o dirigente.

"- Não, meu amigo! Não morreste! Não morrerás jamais!... porque a morte não existe na Lei que rege o Universo! O que se passou foi, simplesmente, um lamentável desastre com o teu corpo físico-terreno, aniquilado antes da ocasião oportuna por um ato mal orientado do teu raciocínio... A Vida, porém, não residia naquele teu corpo físico-terreno e sim neste que vês e contigo sentes no momento, o qual é o que realmente sofre, o que realmente vive e pensa e que traz a qualidade sublime de ser imortal, enquanto o outro, o de carne, que rejeitaste, aquele, apropriado somente para o uso durante a permanência nos proscênios da Terra, já desapareceu sob a sombria pedra de um túmulo, como vestimenta passageira que é este outro que aqui está... Acalma-te, porém... Melhor compreenderás à proporção que te fores restabelecendo..."

CAPÍTULO IV - Jerônimo de Araújo Silveira e família

Não lográvamos notícias de nossas famílias e tampouco dos amigos. No entanto, existia permissão para nos cientificarmos das visitas mentais e votos fraternos de paz e felicidade futuras. Quando alguém invocava a nossa alma, éramos imediatamente informados por luminosidade repentina. 

Só muito mais tarde nos foi outorgada a satisfação de receber as visitas dos entes caros que nos haviam precedido no túmulo. Mesmo assim, porém, deveríamos contentar-nos com aproximações rápidas, pois o suicida está para a vida espiritual como o sentenciado para a sociedade terrena: não tem regalias normais.

"- Caro irmão Teócrito, aqui está nosso pupilo Jerônimo de Araújo Silveira, que tanto nos vem preocupando... Deseja visitar a família no ambiente terreno, pois acredita estar além das suas possibilidades de conformação a obediência aos princípios de nossa instituição... E afirma preferir o acúmulo de pesares à espera de ocasião oportuna para o desejado desiderato..."

... Notícias da Terra jamais confortarão algum de nós, que pertencemos à Espiritualidade!

Neste capítulo, discutiu-se as relações entre os Espíritos que cometeram suicídio e os seus familiares e amigos. 

CAPÍTULO V - O Reconhecimento

O segundo acontecimento que, a par do que acabamos de narrar, impôs-se marcando etapa decisiva em nossos destinos, teve início no honroso convite que recebemos da diretoria do Hospital para assistirmos a uma reunião acadêmica, de estudos e experimentações psíquicas.

No dia imediato ao da nossa internação no magno Instituto do Astral, passamos a ser diariamente levados aos gabinetes clínico-psíquicos onde era ministrado tratamento magnético muito eficiente, pois dentro de alguns dias já nos podíamos reconhecer mais confortados e raciocinando com maior clareza, gradativamente fortalecidos como se tônicos revivificadores ingeríssemos através das aplicações a que nos submetiam.

Entre os esforços que nos sugeriam empreender, destacava-se o exercício da educação mental no tocante à necessidade de varrer das nossas impressões o dramático e apavorante hábito, tornado trejeito nervoso e alucinado, de nos socorrermos a nós próprios, na ânsia contumaz de nos aliviarmos do sofrimento físico que o gênero de morte provocara.

Das análises levadas a efeito resultava a certeza, cada vez mais esclarecida, da gravidade da situação em que nos encontrávamos. O fato de estarmos aliviados dos exuberantes incômodos passados não implicava diminuição de culpabilidade. Ao contrário, a possibilidade de raciocinar minudenciava a extensão do delito, o que muito nos decepcionava e entristecia. E, das instruções e experiências caridosamente ministradas ao nosso entendimento a título de base e incentivo para uma urgente autoreforma de que tínhamos imperiosa necessidade, visando ao inadiável progresso a ser realizado, destacaremos este esquema que enfeixaremos nestas singelas anotações de além-túmulo:

1 - É o homem um composto de tríplice natureza: - humana, astral e espiritual, isto é - matéria, fluido e essência. Esse composto poderá também ser traduzido em expressão mais concreta e popular, assimilável ao primeiro grau de observação: - corpo carnal, corpo fluídico ou perispírito, e alma ou Espírito, sendo que do último é que se irradiam Vida, Inteligência, Sentimento, etc., etc. - centelha onde se verifica a essência divina e que no homem assinala a hereditariedade celeste! Desses três corpos, o primeiro é temporário, obedecendo apenas à necessidade das circunstâncias inalienáveis que contornam o seu possuidor, fadado à desorganização total por sua própria natureza putrescível, oriunda do limo primitivo: - é o de carne. O segundo é imortal e tende a progredir, desenvolver-se, aperfeiçoar-se através dos trabalhos incessantes nas lutas dos milênios: - é o fluídico; ao passo que o Espírito, eterno como a Origem da qual provém, luz imperecível que tende a rebrilhar sempre mais aformoseada até retratar em grau
relativo o Fulgor Supremo que lhe forneceu a Vida, para glória do seu mesmo Criador - é a essência divina, imagem e semelhança - (que o será um dia) - do Todo-Poderoso Deus!

2 - Vivendo na Terra, esse ser inteligente, que deverá evolver pela Eternidade, denomina-se Homem! sendo, portanto, o homem um Espírito encarcerado num corpo de carne ou encarnado.

3 - Um Espírito volta várias vezes a tomar novo corpo carnal sobre a Terra, nasce várias vezes a fim de tornar a conviver nas sociedades terrenas, como Homem, exatamente como este é levado a trocar de roupa muitas vezes...

4 - O suicida é um Espírito criminoso, falido nos compromissos que tinha para com as Leis sábias, justas e imutáveis estabelecidas pelo Criador, e que se vê obrigado a repetir a experiência na Terra, tomando corpo novo, uma vez que destruiu aquele que a Lei lhe confiara para instrumento de auxílio na conquista do próprio aperfeiçoamento - depósito sagrado que ele antes deveria estimar e respeitar do que destruir, visto que lhe não assistiam direitos de faltar aos grandes compromissos da vida planetária, tomados antes do nascimento em presença da própria consciência e ante a Paternidade Divina, que lhe fornecera Vida e meios para tanto.

5 - O Espírito de um suicida voltará a novo corpo terreno em condições muito penosas de sofrimento, agravadas pelas resultantes do grande desequilíbrio que o desesperado gesto provocou no seu corpo astral, isto é, no perispírito.

6 - A volta de um suicida a um novo corpo carnal é a lei. É lei inevitável, irrevogável! É expiação irremediável, à qual terá de se submeter voluntariamente ou não, porque a seu próprio benefício outro recurso não haverá senão a repetição do programa terreno que deixou de executar.

7- Sucumbindo ao suicídio o homem rejeita e destrói ensejo sagrado; facultado por lei, para a conquista de situações honrosas e dignificantes para a própria consciência, pois os sofrimentos, quando heroicamente suportados, dominados pela vontade soberana de vencer, são como esponja mágica a expungir da consciência culposa a caligem infamante, muitas vezes, de um passado criminoso, em anteriores etapas terrenas. Mas, se, em vez do heroísmo salvador, preferir o homem a fuga às labutas promissoras, valendo-se de um auto-atentado que bem revelará a vasa de inferioridade que lhe infelicita o caráter, retardará o momento almejado para a satisfação dos mais caros desejos, visto que jamais se poderá destruir porque a fonte de sua Vida reside em seu Espírito e este é indestrutível e eterno como o Foco Sagrado de que descendeu!

8 - Na Espiritualidade raramente o suicida permanecerá durante muito tempo. Descerá à reencarnação prestamente, tal seja o acervo das danosas conseqüências acarretadas; ou adiará o cumprimento daquela inalienável necessidade caso as circunstâncias atenuantes forneçam capacidade para o ingresso em cursos de aprendizado edificante, que facilitarão as pelejas futuras a prol de sua mesma reabilitação.

9 - O suicida é como que um clandestino da Espiritualidade. As leis que regulam a harmonia do mundo invisível são contrariadas com sua presença em seus páramos antes da época determinada e legal; e tolerados são e amparados e convenientemente encaminhados porque a excelência das mesmas, derramada do seio amoroso do Pai Altíssimo, estabeleceu que a todos os pecadores sejam incessantemente renovadas as oportunidades de corrigenda e reabilitação!

10 - Renascendo em novo corpo carnal, remontará o suicida à programação de trabalhos e prélios diversos aos quais imaginou erradamente poder escapar pelos atalhos do suicídio; experimentará novamente tarefas, provações semelhantes ou absolutamente idênticas às que pretendera arredar; passará inevitavelmente pela tentação do mesmo suicídio, porque ele mesmo se colocou nessa difícil circunstância carreando para a reencarnação expiatória as amargas sequências do passado delituoso! A tal tentação, porém, poderá resistir, visto que na Espiritualidade foi devidamente esclarecido, preparado para essa resistência. Se contudo vier a falir por uma segunda vez - o que será improvável -, multiplicar-se-á sua responsabilidade, multiplicando-se, por isso mesmo, desastrosamente, as séries de sofrimentos e pelejas reabilitadoras, visto que é imortal!

11 - O estado indefinível, de angústia inconsolável, de inquietação aflitiva e tristeza e insatisfações permanentes; as situações anormais que se decalcam e sucedem na alma, na mente e na vida de um suicida reencarnado, indescritíveis à compreensão humana e só assimiláveis por ele mesmo, somente lhe permitirão o retorno à normalidade ao findar das causas que as provocaram, após existências expiatórias, testemunhos severos onde seus valores morais serão duramente comprovados, acompanhando-se de lágrimas ininterruptas, realizações nobilitantes, renúncias dolorosas de que se não poderá isentar... podendo tão dificultoso labor dele exigir a perseverança de um século de lutas, de dois séculos... talvez mais... tais sejam o grau dos próprios deméritos e as disposições para as refregas justas e inalienáveis!

Tais deduções não nos deixavam, absolutamente, ilusões acerca do futuro que nos aguardava. Cedo, portanto, compreendemos que, na espinhosa atualidade que vivíamos, um roteiro único apresentava-se como recurso a possíveis suavizações em porvir cuja distância não podíamos prever: - submetermo-nos aos imperativos das leis que havíamos infringido, observarmos conselhos e orientações fornecidos por nossos amorosos mentores, deixando-nos educar e guiar ao sabor do seu alto critério, como ovelhas submissas e desejosas de encontrar o consolo supremo de um aprisco...

CAPÍTULO VI - A comunhão do Alto

Não obstante a eficiência de métodos tão apreciáveis, mesmo no recinto do Hospital e, mais ainda, entre os asilados do Isolamento e do Manicômio, existiam aqueles que não haviam conseguido reconhecer ainda a própria situação com a confiança que era de esperar. Permaneciam atordoados, semi-inconscientes, imersos em lamentável estado de inércia mental, incapacitados para quaisquer aquisições facultativas de progresso. Urgia despertá-los. Urgia chocá-los com a revivescência de vibrações animalizadas a que estavam habituados, tornando-os capazes de algo entenderem através da ação e da palavra humanas! Que fazer, se não chegavam a compreender a palavra harmoniosa dos mentores espirituais, tampouco vê-los com o desembaraço preciso, aceitando-lhes as sugestões caridosas, muito embora se materializassem eles quanto possível, a fim de mais eficientes se tornarem as operações?

Os emissários expuseram ao que vinham, solicitando aos médiuns, cujos Espíritos para ali haviam sido conduzidos enquanto os corpos continuavam profundamente adormecidos, seu concurso piedoso para o esclarecimento de míseros suicidas incapacitados de se convencerem dos imperativos da vida espiritual apenas com o concurso astral. O estado lamentável a que se reduziram aqueles infelizes não foi omitido na longa exposição feita pelos solicitantes. Os médiuns deveriam contribuir com grandes parcelas de suas próprias energias para alívio dos desgraçados que lhes bateriam à porta. Esgotar-se-iam, provavelmente, no caridoso afã de lhes estancar as lágrimas. Seria até mesmo possível que, durante o tempo que estivessem em contacto com eles, impressões de indefiníveis amarguras, mal-estar inquietante, perda de apetite, insônia, diminuição até mesmo do peso natural do corpo físico viessem surpreendê-los e afligi-los. Todavia, a direção do Instituto Maria de Nazaré oferecia garantia: - suprimento das forças consumidas, quer orgânicas, mentais ou magnéticas, imediatamente após a cessação do compromisso, ao passo que a Legião dos Servos de Maria, a partir daquela data, jamais os deixaria sem a sua fraterna e agradecida observação.

CAPÍTULO VII - Nossos amigos - os discípulos de Allan Kardec 

Nos intervalos que se seguiam de uma reunião à outra não voltávamos ao nosso abrigo da Espiritualidade. Permanecíamos antes no próprio ambiente terrestre, em virtude de ser a viagem a empreender excessivamente dificultosa para grupo numeroso e pesado, tal como o nosso, poder repeti-la em trânsito diário. Assim foi que ficamos entre os homens cerca de dois meses, tempo necessário à consecução das reuniões íntimas de que carecíamos e de outras tantas de preparação iniciática, onde apenas os princípios e conceitos morais e filosóficos eram examinados, sem a prática dos mistérios.

Nossa qualidade de suicidas, cuja aura virulada por irradiações inferiores poderia levar a perturbação e o desgosto às pobres criaturas encarnadas das quais nos aproximássemos, ou delas receber influenciações prejudiciais ao delicado tratamento a que éramos submetidos, inibia-nos permanecer em quaisquer recintos habitados ou visitados por almas encarnadas.

Convém esclarecer que éramos entidades em vias de reeducação, e, por isso mesmo, submetidas a regras muito severas de conduta, o que impedia de vivermos ao léu entre os homens, influenciando molestamente a sociedade terrena... coisa que fatalmente sucederia se continuássemos rebelados, recalcitrantes no erro.


SEGUNDA PARTE - OS DEPARTAMENTOS

CAPÍTULO I - A torre de vigia

Irmão Teócrito enviara-nos mensageiro com honroso convite para uma assembléia na sala de audição do Hospital.

Em ali chegando percebemos que reduzido número de hospitalizados fora distinguido com idêntica solicitação, pois apenas integravam a assistência aqueles dentre os componentes de nossa falange que receberiam alta do tratamento a que se vinham submetendo.

Compreendestes, certamente, que isso quer dizer que, se reencarnardes já, solvereis apenas uma pequena parcela da dívida que adquiristes; se mais tarde, solvê-la-eis toda, porque estareis em condições favoráveis para a resistência aos embates que tão vultoso expurgo exigiria.

Como vedes, meus caros amigos, um século, dois séculos... talvez ainda mais!... e o suicida estará sorvendo o fel da conseqüência espantosa do seu ato de desrespeito à lei do Grande Criador de Todas as Coisas!"

Em tão anormal quão deplorável situação permanecerá o suicida, sem que nada possamos fazer a fim de socorrê-lo, apesar da nossa boa-vontade! (11-a) Isso, meus filhos, assim é que é, e vós, mais do que ninguém, o sabeis! É de lei, lei rigorosa, incorruptível, irremediável porque perfeita e sábia, a nós cumprindo procurar compreendê-la e respeitá-la, para não nos infelicitarmos pelo intento que tivermos de violá-la!

(11-a) A Excelsa Misericórdia encaminha, geralmente, tais casos, tidos como os mais graves, a reencarnações imediatas onde o delinqüente completará o tempo que lhe faltava para o término da existência que cortou. Conquanto muito dolorosas, mesmo anormais, tais reencarnações serão preferíveis às desesperações de além-túmulo, evitando, ao demais, grande perca de tempo ao paciente. Veremos então homens deformados, mudos, surdos, débeis mentais, idiotas ou retardos de nascença, etc. É um caso de vibrações, tão-somente. O perispírito não teve forças vibratórias para modelar a nova forma corpórea, a despeito do auxilio recebido dos técnicos do mundo Invisível. Assim concluirão o tempo que lhes faltava para o compromisso da existência prematuramente cortada, corrigirão os distúrbios vibratórios e, logicamente, sentir-se-ão aliviados. Trata-se de uma terapêutica, nada mais, recursos extremos exigidos pela calamidade da situação. E o único, aliás, para os casos em que a vida interrompida deverá ser longa. Ó vós que ledes estas páginas! Quando encontrardes pelas ruas um irmão vosso assim anormalizado, não pejeis de orar em presença dele: vossas vibrações harmoniosas serão também excelente terapêutica!

Somente um Espírito dotado de cândidas virtudes e experimentado saber poderia distinguir nos meandros do caráter complexo de um infrator, como o suicida, as verdadeiras predisposições para o arrependimento, ou se no seu invólucro físico-astral já não se refletem influências do princípio vital demasiadamente pesadas para, então, providenciar socorros que o encaminhem a local onde esteja seguro. Só um técnico, investido de extensos conhecimentos psíquicos, saberia extrair da memória profunda de um desses réus, martirizados pelos sofrimentos, o pretérito de suas existências, retrocedendo com ele pelas vias do passado, revendo-lhe a história vivida na Terra, para, daí, formando-lhe a biografia, estudar a causa que o impeliu ao fracasso, orientando destarte o programa reeducativo que no Instituto será aplicado, pois é com os apontamentos fornecidos pelos técnicos dos Departamentos da Vigilância e do Hospital que os padecentes admitidos na Colônia serão classificados e encaminhados para os vários postos de recuperação de que dispomos, os quais se estendem até mesmo às paragens terrenas, através dos serviços reencarnatórios.

CAPÍTULO II - Os arquivos da alma


Como tendes percebido, por esta pálida amostra, nosso labor é vultoso e intenso. Se as criaturas que atentam contra o sagrado patrimônio da existência corporal - pelo Todo-Poderoso concedido à alma culpada como ensejo bendito e nobilitante de reabilitação – conhecessem a extensão dos sofrimentos e dos sacrifícios que por elas arrostamos, é certo que se deteriam à beira do abismo, refletindo na grave responsabilidade que assumirão, quando não por amor ou compaixão de si mesmas, ao menos em consideração e respeito a nós outros, seus guias espirituais e amigos devotados, que tantos prélios exaustivos, tantos dissabores suportamos, tantas lágrimas arrancaremos do coração até que os possamos encaminhar para as consoladoras estâncias protegidas pela Esperança!"

CAPÍTULO III - O Manicômio

Como tão bem indiciava a sua denominação, o Manicômio recolhia as individualidades cujo estado mental excessivamente deprimido pelas repercussões originadas do efeito do suicídio lhes impossibilitasse a faculdade de raciocinar normalmente.

Era o diretor do Manicômio antigo psiquista natural da velha Índia - berço da sabedoria espiritual da Terra -, conhecedor profundo da ciência esotérica da alma humana, lúcido e experiente alienista, cujos cabelos nevados a escaparem em torno de alvo turbante afiguravam formosa coroa de louros comprovando-lhe os méritos adquiridos no trabalho e no devotamento a seus irmãos infelizes.

Através da higienização mental, no reajustamento dos sentimentos à prática do verdadeiro Bem, assim como no cumprimento do Dever; nas harmoniosas vibrações originadas da comunhão da mente com a Luz que do Alto irradia em tonos de beneficência para aqueles que a buscam, poderá a individualidade encarnada imunizar-se de tal contágio, assim como o homem se imuniza de males epidêmicos, próprios do físico-terrestre, com as substâncias profiláticas apropriadas à organização carnal, isto é, vacinas... Em se tratando de um vírus psíquico, é claro que o antídoto será análogo, harmonizado em energias opostas, também psíquicas... Por nossa vez, existindo, na Lei que orienta a Pátria Invisível, ordens perenes para que calamidades de tal vulto sejam evitadas o mais possível, todos os esforços empregamos a fim de bem cumpri-las, constituindo dever sagrado, para nós, o preservarmos os homens em geral, e a criança em particular, de acidentes dessa natureza. 

CAPÍTULO IV - Outra vez Jerônimo e família

A direção do Isolamento, assim como o tratamento fraternal dispensado aos penitentes, eram idênticos aos das demais filiais que visitáramos, inspirados na mais convincente justiça, na caridade amorosa e fraterna.

Encontravam-se, com efeito, asilados além daqueles muros imensos, onde nem mesmo faltava a interdição de uma ponte levadiça, pobres colegas nossos a quem as dores impostas pelo desânimo ou a revolta sobrepujavam às do arrependimento pelo mau ato praticado. Nestes corações desolados e inconsoláveis, o arrependimento limitava-se ao insuportável pesar de concluírem que o suicídio para nada mais aproveitara senão para lhes dilatar e prolongar os sofrimentos antes julgados insuportáveis, além de lhes apresentar, entre outras, a desalentadora decepção de se reconhecerem com vida, mas separados dos objetos de suas maiores predileções. Pode-se mesmo afirmar que o Isolamento era especializado nos casos sentimentais... pois é sabido que o sentimentalismo levado ao excesso constitui gravíssimo complexo, enfermidade moral capaz dos mais deploráveis resultados. E encontramos, com efeito, ali, os mais variados casos de suicídios sentimentais, em que o réprobo é agitado por vero sentimento extraído do coração, não resta dúvida, conquanto desequilibrado, desde o amante ofegante de paixão e ciúmes pela felicidade concedida ao rival feliz até o chefe de família desorientado por impasses dificultosos ou o pai subjugado pelo desalento ante o esquife do adorado entezinho que era a razão da sua felicidade.

Por mais incrível e incômodo que vos pareça, meus filhos, em antecedentes vidas planetárias, isto é, em mais de uma existência terrena, o Espírito que atualmente conheceis sob o nome de Margarida Silveira andou reencarnando em corpos masculinos! Existindo como homem - porque o Espírito não é subordinado aos imperativos do sexo, tal como na Terra se compreende – abusou da liberdade, das prerrogativas que a sociedade terrena concede aos varões em detrimento dos valores do Espírito, e conspurcou deveres sagrados! Como homem, levou a desonra a lares respeitáveis, aviltou donzelas confiantes, espalhou o fel da prostituição em torno dos seus passos, desgraçou e destruiu destinos que pareciam róseos, esperanças docemente acariciadas! . . . Mas... Veio um dia em que a Suprema Lei, que não quer a destruição do pecador, mas que ele viva e se arrependa - impediu-o de continuar o execrável atentado à Sua Soberania! Cassou-lhe a liberdade, impôs-lhe ensejos favoráveis pára se refazer da anomalia de tantas iniquidades, impelindo-o a renascer sob vestes carnais femininas, a fim de mais eficientemente provar o mesmo fel que fez a outrem sorver, e a si mesmo poupar tempo precioso na programação dos resgates, por sujeitar-se ao rigor de penalidades idênticas às outrora impostas pelo seu mal orientado livre-arbítrio! Reencarnou como mulher a fim de aprender, na desgraça de ser atraiçoada na sua castidade, desacreditada, vilipendiada, abandonada, a empolgante lição de que não é em vão que se infringe um só dos mandamentos assinalados no alto do Sinai como padrão de honra para a Humanidade, que antes se deveria educar com vistas à finalidade sublime do amor a Deus e ao próximo!"

CAPÍTULO V - Prelúdios da reencarnação

O Departamento de Reencarnação localizava-se no extremo da Colônia Correcional Maria de Nazaré, limitando com as regiões propriamente consideradas espirituais, ou zona educacional. E isso será facilmente compreendido ao raciocinarmos que, tanto da zona inferior como da regeneradora da Colônia, batiam à sua porta, freqüentemente, grupos de pretendentes aos grandes testemunhos do estágio na carne, isto é, da reencarnação planetária.

Compunha-se o importante núcleo de serviços das seguintes seções, todas exercendo funções destacadas, conquanto interdependentes:

1 - Recolhimento.
2 - Análise -- (Gabinete secreto, inacessível aos visitantes) .
3 - Programação das recapitulações.
4 - Pesquisas.
5 - Planejamento dos envoltórios físico-terrenos.
6 - Laboratório de restringimento - (Gabinete secreto, inacessível aos visitantes).

Resolvido o primeiro problema, acudirão os técnicos da seção de Análises, os quais deverão estudar, naqueles internos, as tendências características, fazendo-lhes pormenorizadamente a psicologia. Sua alma, seu ser, os refolhos mais remotos da sua consciência serão perscrutados por esses criteriosos operários do Senhor, os quais, invariavelmente, por serem iniciados superiores da falange brilhante, se encontram à altura da delicada incumbência. Para isso, servindo-se das faculdades magnéticas superiores que possuem, obrigam o paciente a desdobrar as páginas do livro imenso da Alma, nele recapitulando o pretérito, e assim se revelando tal como realmente é, pois, ficai sabendo - caso o ignoreis ainda - que todas as criaturas trazem a história de si mesmas impressa em caracteres indeléveis nos labirintos do ser, sendo capazes de, em determinadas circunstâncias, revivê-la em minúcias e dá-las a outrem para igualmente examinar, quer se encontrem presas aos laços carnais, quer estejam deles libertadas...

Uma vez aqui recolhidos, porém, não permanecerão inativos, à espera de quem lhes prepare a moradia terrena do futuro. Com seus instrutores trabalham nos preparativos para o renascimento próprio, colaboram no exaustivo labor das pesquisas para a escolha dos genitores que melhor convenham à espécie de testemunhos que deverão apresentar à frente das leis sacrossantas que infringiram, porquanto, geralmente, os suicidas não reencarnam, para a expiação, nos círculos de afetos que lhes são mais caros, e sim fora deles; estudam, sob orientação dos guias missionários, a programação de suas atividades na Terra, aprendendo, numa espécie de aula prática, fornecida através de quadros inteligentes e movimentados quais cenas teatrais ou cinematográficas, a desenvolvê-las, realizá-las, remediá-las, levá-las a finalidade heroica, agindo com acerto e prudência; viajam assiduamente à Terra, onde se demoram, sempre acompanhados de seus tutelares generosos, procurando orientar-se nos hábitos a que terão de se adaptar, conforme sejam os ambientes em que arrastarão a condenação vergonhosa que consigo levam, porquanto, a eles mesmos convém que se resignem à situação antes do ingresso no corpo carnal, para que não sintam demasiadamente ardente a mudança dos hábitos que a convivência conosco forneceu; e, depois das pesquisas ultimadas e escolhido o meio familiar em que ingressarão, demorar-se-ão ainda em torno dos futuros pais, procurando com eles se afinar, conhecê-los melhor, adaptarem-se aos seus modos, principalmente se couber como punição ou necessidade para o progresso a difícil situação de aceitarem para o renascimento um meio hostil, onde existirão apenas, rodeando-os no decorrer dos dias, inimigos de existências pretéritas, Espíritos estranhos, indiferentes portanto aos infortúnios que os sacudirão..."

"- Quer dizer, minha irmã, que essas pesquisas a que vos referis..." – perquiri eu, aproveitando pequena pausa da eloquente interlocutora.

"- . . . Movimentam-se em torno da procura de uma família, de um ambiente, de genitores principalmente, caridosos bastante para concordarem em receber em seu seio um rebento estranho, que lhes será motivo de constantes preocupações, pois que condenado aos dolorosos testemunhos que acompanham a reencarnação de um suicida! Existem mesmo casos penosos, difíceis de serem resolvidos, meus amigos! E é quando desgraçados, como aqueles que vistes no Manicômio, ficam aqui, detidos no

Recolhimento, esperando que se lhes consigam genitores, pois, como sabeis, eles, além de incapacitados para a colaboração com seus mentores em torno da causa própria, o estado que arrastam é de tal forma precário que, para o renascimento, só lhes permitirá a possibilidade de um invólucro material entorpecido por achaques insolúveis, inacessível ao estado normal da criatura encarnada, constituindo angustiosa provação para os pais que os receberem! 


CAPÍTULO VI - A cada um segundo as suas obras

A volta ao mundo das expiações, daqueles sofredores, em vista disso, sofria delongas, quando urgia proporcionar-lhes alívio por esse meio supremo. Então, a direção-geral do Instituto enviou-nos dados sobre as duas senhoras já mencionadas, capazes ambas de enfrentarem a espinhosa missão por devedoras de grandes reparações às Leis da Criação!... "

"- Suponhamos, Irmão Teócrito, que se recusem?..." - alvitrei, fiel ao azedo pessimismo que me não deixara ainda.

"- Não será provável, meu caro Camilo, uma vez que se trata de duas almas bastante arrependidas de um mau passado, e que, atualmente, humildes, ignoradas, só desejam a reabilitação pelo sacrifício e a abnegação! Estou incumbido de convencê-las a aceitarem de boamente a melindrosa e heróica tarefa. Todavia, se se recusarem, a Divina, Providência encarnada na Lei que rege o plano das Causas estará no direito de impor-lhes o mandato como provação nos serviços de reparação dos maus feitos passados, pois ambas são Espíritos que, em antecedentes existências planetárias, erraram como mães, furtando-se, criminosamente, às sublimes funções da Maternidade, sacrificando, nas próprias entranhas, os envoltórios carnais em preparo para Espíritos que delas deveriam renascer, alguns em missão brilhante, e descurando-se, lamentavelmente, dos cuidados e zelos aos filhos que a mesma Providência lhes confiara de outras vezes...

Após penoso silêncio, em que todos nós, raciocinando angustiosamente, nos perdíamos em conjecturas confusas, adveio ainda Belarmino, justificando o antigo renome de professor de dialética: 

"- Dizei, Irmão Teócrito : obriga-nos a Lei a reencarnarmos entre estranhos?... como filhos de pais cujos Espíritos nos sejam completamente desconhecidos?... Pensamos que semelhante corretivo será sumamente doloroso!..."

"- Sim, é doloroso, não resta a menor dúvida, meu amigo! Mas nem por isso deixará de ser justo e sábio o acontecimento! Geralmente, tal acontece não só a suicidas, como também àqueles que faliram no seio da família, levando, de qualquer forma, o desgosto aos corações que os amavam! O suicida, porém, desrespeitando o seio da própria família ao infligir-lhe o áspero desgosto do seu gesto, ultrajando, com o menosprezo de que deu prova, o santuário do Lar que o amava, ou incapacitando-se para a conquista de um novo lar afim, colocou-se, de qualquer forma, na penosa necessidade de reeditar a própria existência corpórea fora do círculo familiar que lhe era grato. Existem casos, não obstante, em que poderá voltar em ambiente afetuoso, se possuir afeições remotas que se encontrem novamente presentes às experiências terrestres, na época em que haja de reencarnar, se estas consentirem em recebê-lo para ajudá-lo na expiação... De qualquer forma, porém, renascerá em círculo favorável ao gênero de provação que deverá testemunhar.

Uma vez estudado aí o teor dos apontamentos provenientes do exterior, seguiam ordens para a seção de Modelagem, disposta na sala seguinte, no sentido de se esboçar o corpo futuro tal como as instruções determinavam, a saber: 

a) - mutilado desde o nascimento; 
b) - passível de o ser no decurso da existência, por enfermidade ou acidente; 
c) - passível de aquisição de doenças graves e incuráveis; 
d) - normais,

o que indicaria, portanto, fatos decisivos na programação do carreiro a ser vivido pelo paciente, harmonizados ao feitio das expiações e testemunhos a cada caso, pois convém não esquecermos que muitos daqueles míseros albergados, nossos cômpares, reencarnariam possivelmente em envoltórios físicos normais e até belos e sadios, por exigirem as suas novas experiências que assim fosse, avultando, em casos tais, lutas e sofrimentos irreparáveis, de ordem moral tão-somente.

Ora, no gabinete seguinte viam-se também os esboços dos corpos primitivos, isto é, dos que o suicídio havia malbaratado, destruído antes da época normal, habilmente classificados da seguinte forma, em local apropriado, de fácil acesso ao observador, porque em pedestal conveniente, pois estes esboços eram como estátuas móveis, grandemente belas, dadas a perfeição e naturalidade que apresentavam, sugerindo a presença real do próprio envoltório já destruído. 

a) - o envoltório primitivo, tal como existiu e foi aniquilado pelo suicídio;
b) - ao lado, numa placa fosforescente, a descrição do estado em que se encontrava o mesmo envoltório na ocasião do sinistro, a saber: - estado da saúde, volume das forças vitais, grau de vibrações, estado mental, grau de instrução social, ambiente em que viveu, data do nascimento, data da época normal que se deveria dar o trespasse e a extinção da força vital, data em que se verificou o suicídio, local do desastre, o gênero do mesmo, causas determinantes, nome do infrator;
c - o órgão atingido pelo atentado, e cuja alteração motivara a extinção das fontes de vida localizadas no envoltório, era assinalado, no esboço, com lesão idêntica à que sofrera o corpo material; 
d) - casos especiais: afogamentos, trituração por esmagamento, queda. Reprodução plástica dos restos do envoltório, tal como o suicídio o reduziu.

A impressionante perfeição desta última reprodução chocaria qualquer outro observador não esclarecido como aqueles mestres ou não dolorosamente experimentados como nós outros.

CAPÍTULO VII - Os primeiros ensaios

"- O desânimo é sempre mau conselheiro, cujas sugestões devemos fustigar com todas as nossas melhores forças! Reagi, meus amigos, voltando vossas vontades para a Força Suprema, de onde emanam as energias que alimentam o Universo... e logo sentireis que disposições regeneradoras reerguerão vossas capacidades para o prosseguimento da jornada...

Quando vos sentirdes pusilânimes e tristes diante do inevitável, trabalhai! Procurai na oportunidade, na ação enobrecedora e honesta o restaurador para as faculdades em crise! Nunca seremos tão insignificantes e destituídos de possibilidades, quer na Terra quando homens ou no Invisível como Espíritos desagregados da carne, que não nos permitamos servir ao nosso próximo, cooperando para seu alívio e bem-estar. Ao invés de vos aprisionardes neste Pavilhão, dando largueza de expansão a pensamentos cruciantes e improdutivos, que vos agravam os sofrimentos, vinde comigo, a visitar vossos irmãos que sofrem mais do que vós e se acham hospitalizados ainda, ergastulados no drama de trevas que sobre vós também já se estendeu... Voltemos ao Hospital a fim de rever os amigos, os colegas, os enfermeiros que bondosamente por vós zelaram, consolando vossos corações esmorecidos pela dor, os médicos que vos auxiliaram a expulsar da mente as impressões contumazes que vos amorteciam a coragem..."

CAPÍTULO VIII - Novos rumos

Havia cerca de dois meses que findara nosso estágio nas camadas terrenas. Regressáramos ao Instituto Maria de Nazaré e novamente nos instaláramos no pavilhão anexo ao Hospital, onde residíamos desde quando recebêramos alta. Não lográramos ainda, porém, avistar-nos com Irmão Teócrito a fim de conhecermos sua opinião relativamente ao modo pelo qual nos conduzíramos em liberdade.

O que mais nos preocupava era a opinião de Teócrito, as deliberações da direção-geral sobre nosso futuro.

Para onde iríamos?... Que seria de nós uma vez ausentados de Teócrito, de Roberto, de Carlos, de Joel, daquela elite acolhedora dos Departamentos Hospitalares ? .. . Reencarnaríamos imediatamente, no caso de não termos conseguido méritos para mais longo estágio no aprendizado espiritual?...

"- Por que não retardas um pouco mais a volta ao teatro dos infortúnios que te pungiram, amigo Silveira?!... Consta-me não ser obrigatório, em determinados casos, o constrangimento à volta... Quanto a mim dilatarei o mais possível a permanência aqui... a não ser que me demovam resoluções ulteriores..."

"- Absolutamente não convém aos meus interesses pessoais dilatar por mais tempo o cumprimento do dever... que digo eu?... da sentença por mim mesmo lavrada no dia em que comecei a desviar-me da Lei Soberana que rege o Universo! Fui grandemente preparado por Irmão Santarém e Irmão Ambrósio, meus dignos tutores, para esse serviço que se impõe às minhas críticas necessidades do momento.

"- Sede bem-vindos, amigos! - foi a resposta. - Amanhã mesmo podereis seguir vosso novo destino... Para que retardar mais?... Não continuareis, porém, sob minha dependência... A missão a mim confiada junto de vós foi culminada, uma vez que sereis encaminhados para a frente, sob os cuidados de novos mentores... Unir-nos-á, no entanto, para sempre, a doce afeição que se estabeleceu em nossos Espíritos durante o tempo que aqui passastes..."

TERCEIRA PARTE - A CIDADE UNIVERSITÁRIA

CAPÍTULO I - A mansão da Esperança

A primeira noite foi passada em ansiosa expectação. Nossos aposentos deitavam para o jardim e das ogivas que os rodeavam descortinávamos o vasto horizonte da metrópole, marchetado de pavilhões graciosos como construídos em madrepérola, e de cujos caramanchões, que os enfeitavam pitorescamente, evolavam-se fragrâncias delicadas de miríades de arbustos e flores viçosas, não mais insípidas, níveas, como no Departamento Hospitalar.

Tudo indicava que gravitáramos , segundo as nossas afinidades, para uma Cidade Universitária, onde ciclos novos de estudo e aprendizagem se franqueariam para nós, segundo nosso desejo.

Emocionados, detivemos-nos diante das Escolas que deveríamos cursar. Lá estavam, entestando-as, os letreiros descritivos dos ensinamentos que receberíamos - Moral, Filosofia, Ciência, Psicologia, Pedagogia, Cosmogonia, e até um idioma novo, que não seria apenas uma língua a mais, a ser usada na Terra como atavio de abastados, ornamento frívolo de quem tivesse recursos monetários suficientes para comprar o privilégio de aprendê-la. Não! O idioma cuja indicação ali nos surpreendia seria o Idioma definitivo, que havia de futuramente estreitar as relações entre os homens e os Espíritos, por lhes facilitar o entendimento, removendo igualmente as barreiras da incompreensão entre os humanos e contribuindo para a confraternização ideada por Jesus de Nazaré:

"Uma só Pátria, uma só bandeira, um só pastor!"

CAPÍTULO II - "Vinde a mim"

Aníbal entrou a comentar a urgência de cada um de nós, como da Humanidade inteira, quer do plano físico-terreno ou do Invisível inferior e intermediário, se reeducar sob a orientação das fecundas normas cristãs. Afirmou, em análise sucinta, contrariando idéias que muitos de nós abrigavam, não existir misticismo supersticioso nem fatos miraculosos e anormais na epopéia magnífica do Cristianismo, epopéia que não se limitava do presépio de Belém ao drama do Calvário, mas que se estendia das Esferas de Luz às sombras da Terra, perenemente, em lances patéticos, positivos, sublimes, a que só a cegueira da ignorância deixa de apreciar devidamente. Ao contrário disso, o Cristianismo, doutrina universal cuja origem se fixa nas próprias Leis Sempiternas, possuía bases práticas por excelência, trazendo por finalidade a recuperação moral do homem para si mesmo e a sociedade em que for chamado a viver no seu longo carreiro evolutivo, com vistas ao engrandecimento da Humanidade perante as Leis Sábias do Criador. Lembrou que os homens terrenos projetaram sombras sobre os ensinamentos do Mestre Excelso, envolvendo-os em complexos calamitosos, por empanar-lhes o brilho da essência primitiva com inovações e atavios próprios da inferioridade pessoal de cada um, desfigurando, destarte, a verdade de que são, os mesmos ensinamentos, o expoente máximo. Asseverou com veemência impressionante, da qual não julgaríamos capaz um adolescente, que só os magnos e altruísticos conhecimentos das doutrinas educativas expostas pelo Excelso Catedrático Jesus de Nazaré permitiriam a nós outros, como à Humanidade, ensejo à reabilitação imprescindível, preparando-nos para a aquisição de uma nova e elevada Moral, para a sanidade de ações capazes de levarem a alvorecer em nossos míseros corações horizontes vastíssimos, de ressurgimento pessoal e coletivo, de progresso legítimo, na escala de ascensão para a Vida abundante da Imortalidade! Que, doutos, sábios, gênios que fôssemos, de nada nos aproveitariam tão lustrosos cabedais se ignorantes continuássemos das normas da Moral do Cristo de Deus, em cuja aplicação reside a glória da felicidade eterna, uma vez que Sabedoria sem Amor e sem Fraternidade tem suas factícias glórias apenas no seio das sociedades terrenas...

CAPÍTULO III - "Homem, conhece-te a ti mesmo"

Outros cursos fazíamos, não menos importantes para a nossa reeducação, alternadamente com o da Moral estatuída pelo insigne Mestre Nazareno. Um deles prendia-se à Ciência Universal, cujos rudimentos nos deram, então, a conhecer – dois anos depois de iniciados no curso de Moral Cristã -, através de estudos profundos, análises tão penosas quão sublimes! E nestas mesmas análises entrava a necessidade de estudarmos a nós próprios, aprendendo a nos conhecermos intimamente! Exames pessoais melindrosos eram efetuados com minúcias aterrorizantes para o nosso orgulho e para a nossa vaidade, paixões daninhas que nos haviam ajudado na queda para o abismo, ao mesmo tempo que, sendo as aulas mistas, adquiríamos o duplo ensinamento de dissecar também o caráter, a consciência, a alma, enfim, de nossos pares, como de nossas irmãs de infortúnio, o que nos conferia valioso conhecimento da alma humana!

Havia, porém, um terceiro curso, o qual se resumia no ensaio da aplicação, na vida prática, dos valores adquiridos durante os estudos e observações dos cursos anteriormente mencionados. Em vez, porém, de nos instruírem para uma "prática profissional", como se diria em linguagem terrena, esse terceiro aprendizado, orientado para a prática da observância das Leis da Providência, que, havia séculos, infringíamos, tinha por mentor o lente Souria-Omar e desenvolvia-se, geralmente, fora do santuário, isto é, do recinto da Escola, de preferência na crosta da Terra e nos domínios inferiores do nosso Instituto.

... E assim surgiu, em lições sempre sequentes e habilmente parceladas, a idade do Homem, a divisão das raças, a suprema glória do planeta abrigando, finalmente, a parcela divina que, um dia, deverá refletir a imagem e a semelhança do seu Criador!

Convém enumerar as palpitantes matérias estudadas e auscultadas por nós outros até onde nos permitiram as forças mentais que possuíamos:

- Gênese planetária ou Cosmogonia - Pré-História

- A evolução do ser

- Imortalidade da alma

- A tríplice natureza humana

- As faculdades da alma

- A lei das vidas sucessivas em corpos carnais terrenos, ou reencarnação

- Medicina Psíquica

- Magnetismo - Noções de magnetismo transcendental

- Moral Cristã

- Psicologia - Civilizações terrenas

Alternados com as aulas de Evangelho, tais estudos apresentavam correlação íntima com aquelas, o que nos impelia a melhor compreender e venerar a sublime personalidade de Jesus Nazareno, ao qual passamos a distinguir, tal como faziam nossos instrutores, como o chefe supremo da Iniciação, pois, com efeito, em todos os compêndios que consultávamos, buscando elucidação na Ciência, deparávamos lições, claros ensinamentos, atos e exemplos daquele Grande Mestre, como padrão máximo de sabedoria e verdade, modelos irresistíveis, bússolas que nos convidavam a seguir para atingirmos a finalidade sem os desvios oriundos do engodo e das falsas interpretações.

CAPÍTULO IV - O "homem velho"

Voltamos à Terra muitas vezes, permanecendo em suas sociedades, com pequenos intervalos, desde os primórdios do ano de 1906. Múltiplos deveres ali nos chamavam. Era o campo vasto de nossas experimentações mais eficientes, porquanto, tendo de reviver ainda muitas vezes em suas arenas, tornava-se de grande utilidade o exercitarmos entre nossos irmãos de Humanidade os conhecimentos gradativamente adquiridos nos serviços da Espiritualidade. Assim foi que, sob os cuidados de Aníbal de

Silas, mas tendo por assistente prático a experiência secular de Souria-Omar, dilatamos as lides de beneficência iniciada sob a direção de Teócrito, multiplicando esforços para servir a corações sofredores sob as doces inspirações das lições messiânicas, quer os deparássemos ainda grilhetados nos planos da matéria, quer em lutas permanentes no Invisível. Servimos nos postos de emergência da Colônia a que pertencíamos, como no

Hospital Maria de Nazaré e suas filiais; integramos caravanas de socorros a infelizes suicidas perdidos nas solidões do Invisível inferior como nos abismos terrenos, acossados por falanges obsessoras; seguimos no rastro de nossos mestres da Vigilância, aprendendo com eles a caça a chefes temíveis de falanges mistificadoras, perseguidores de míseros mortais, aos quais induziam muitas vezes ao suicídio; visitávamos freqüentemente reuniões organizadas por discípulos de Allan Kardec, com eles colaborando tanto quanto eles próprios permitiam; acudimos a imperativos de muitos sofredores alheios às ideias espiríticas, mas verdadeiramente carecedores de socorro; devassamos prisões e hospitais; descobríamos desolados sertões brasileiros e africanos, cogitando de fortalecer o ânimo e prover socorro material a desgraçados prisioneiros de um mau passado espiritual, agora às voltas com testemunhos recuperadores, em envoltórios carnais desfigurados pela lepra, amesquinhados pela demência ou assinalados pela mutilação; e nos atrevíamos até pelos domicílios dos grandes da Terra, onde, também, possibilidades de dores intensas e de graves ocasiões para o pecado do suicídio enxameavam, não obstante as factícias glórias de que se cercavam! E por toda parte onde existissem lágrimas a enxugar, corações exaustos a reanimar, almas vacilantes e desfalecidas pelos infortúnios a aconselhar, Aníbal levava-nos a fim de nos guiar aos ensinamentos do Mestre Modelar, com os quais aprenderíamos a exercer, por nossa vez, o apostolado sublime da Fraternidade!

Delicadamente os adjuntos prepararam-me, tal como conviria ao réu que, frente a frente com o tribunal da Consciência, vai-se examinar, julgando a si próprio sem as atenuantes acomodatícias dos conceitos e subterfúgios humanos, porque o que ele vai ver é o que ele próprio deixou registrado nos arquivos vibratórios de sua afina através de cada uma das ações que andou praticando durante o existir de Espírito, encarnado ou não encarnado.

"- Oh! Jesus Nazareno! Meu Salvador e meu Mestre! Não fui eu, Senhor! Eu estava louco! Eu estava louco! Não me reconheço mais como inimigo Teu! Perdão! Perdão! Jesus!..."

Pranto rescaldante incendiou minha alma e recalcitrei, afastando a lembrança amargosa do pretérito. Mas, vigilante, bradou em seguida o catedrático ilustre, zeloso do progresso do seu pupilo:

"- Avante, ó Alma, criação divina! Prossegue sem esmorecimentos, que da leitura que ora fazes em ti mesma será preciso que saias convertida ao serviço desse Mestre que ontem apedrejaste!"

CAPÍTULO V - A causa de minha cegueira no século XIX

Transcorriam os primeiros decênios do século XVII quando renasci nos arredores de Toledo, a antiga e nobre capital dos Visigodos, que as águas amigas e marulhentas do velho Tejo margeiam qual incansável sentinela..

Narra seu amor não correspondido para com Maria Magda. Como pertencia à Companhia de Jesus, persegue e tortura marido da Maria Magda (um reformista).

Conservei-o desde então no segredo de masmorra infecta, onde o desgraçado passou a suportar longa série de martirizantes privações, de angústias e sofrimentos indescritíveis, por inconcebíveis à mentalidade do homem hodierno, educado sob os auspícios de democracias que, embora bastante imperfeitas ainda, não podem permitir compreensão exata da aplicação das leis férreas e absurdas do passado! Nele cevei a revolta que me estorcia o coração em me sentindo preterido pela mulher amada, em seu favor! Meu despeito inconsolável e o ciúme nefasto que me alucinara desde tantos anos inspiraram-me gêneros de torturas ferazes, as quais eu aplicava possuído de demoníaco prazer, recordando as faces rosadas de Maria Magda, que eu não beijara jamais; as tranças ondulantes cujo perfume não fora eu que aspirara; os braços cariciosos e lindos que a outro que não eu - que a ele! haviam ternamente prendido de encontro ao coração! Cobrei, infame e satanicamente, a Jacinto de Ornelas y Ruiz, na sala de torturas do tribunal da Inquisição, em Madrid, todos os beijos e carícias que me roubara daquela a quem eu amara até à loucura e ao desespero!

Fiz que lhe arrancassem as unhas e os dentes; que lhe fraturassem os dedos e deslocassem os pulsos; que lhe queimassem a sola dos pés até chagá-las, mas lentamente, pacientemente, com lâminas aquecidas sobre brasas; que lhe açoitassem as carnes, retalhando-as, e tudo a pretexto de salvá-lo do inferno por haver anatematizado, obrigando-o a confissões de supostas conspirações contra a Igreja, sob cujo nome me acobertei para a prática de vilezas.

Maria Magda pedira-me a vida e a liberdade do marido e comprometi-me a conceder-lhas. Esqueceu-se, porém, de fazer-me prometer restituí-lo intacto, sem mutilações! Então, fiz que lhe vazassem os olhos, perfurando-os com pontas de ferro incandescido, assim barbaramente desgraçando-o, para sempre lançando-o nas trevas de martírio inominável, sem me aperceber de que existia um Deus Todo-Poderoso a contemplar, do alto da Sua Justiça, o meu ato abominável, que eu arquivara nos refolhos de minha consciência como refletido num espelho, a fim de acusar-me e de mim exigir inapeláveis resgates através dos séculos!

CAPÍTULO VI - O elemento feminino

No fim de alguns dias, tornado à luz da realidade insofismável, completamente lúcido quanto à minha verdadeira personalidade, refleti maduramente e a uma conclusão única cheguei a fim de me poder, algum dia, sentir plenamente reabilitado à frente da consciência própria e da Lei Suprema que, havia tanto, eu vinha infringindo - Reencarnar! Sim, renascer ainda uma outra vez! Sofrer dignamente, serenamente, o testemunho da perda da visão material, no qual eu fracassara havia pouco, pois a ele me não submetera, preferindo o suicídio a avançar pela vida jungido à incapacidade de enxergar; realizar o contrário do que fizera para trás, isto é, amar compassiva e caridosamente os meus semelhantes, proteger, auxiliar, servir o próximo, utilizando todos meios lícitos ao meu alcance, lícitos e generosos; indo, se possível e necessário, à abnegação do sacrifício, sob as hecatombes morais do meu passado amarguroso, construindo almos aspectos do Bem Legítimo, os quais me ajudassem a ressarcir as trevas então semeadas!

CAPÍTULO VII - Últimos traços

Faz precisamente cinqüenta e dois anos que habito o mundo astral. Tendo-o atingido através da violência de um suicídio, ainda hoje não logrei alcançar a felicidade, bem como a paz íntima que é o beneplácito imortal dos justos e obedientes à Lei. Durante tão longo tempo tenho voluntariamente adiado o sagrado dever de renascer no plano físico-material envolvido na armadura de um novo corpo, o que já agora me vem amargurando sobremodo os dias, não obstante tê-lo feito desejoso de sorver ainda, junto dos nobres instrutores, o elemento educativo capaz de, uma vez mergulhado na carne, proteger-me bastante, o suficiente para me tornar vitorioso nas grandes lutas que enfrentarei rumo à reabilitação moral-espiritual.

Faltava-me, todavia, o idioma fraterno do futuro, aquele penhor inestimável da Humanidade, e que tenderá a envolvê-la no amplexo unificador das raças e dos povos confraternizados para a conquista do mesmo ideal: - o progresso, a harmonia, a civilização iluminada pelo Amor! Era estudo facultativo esse, como, aliás, todos os demais deveres que tenderíamos a abraçar, mas que os iniciados, particularmente, aconselhavam a fazermos, a ele emprestando grande importância, porquanto esse idioma, cujo nome simbólico é o mesmo de nossa Cidade Universitária, isto é, Esperança - (Esperanto) -, resolverá problemas até mesmo no além-túmulo, facultando aos Espíritos elevados o se comunicarem eficiente e brilhantemente, através de obras literárias e científicas, as quais o mundo terreno tende a receber do Invisível nos dias porvindouros - servindo-se de aparelhos mediúnicos que também se hajam habilitado com mais essa faculdade a fim de bem atenderem aos imperativos da missão que, em nome do Cristo e por amor da Verdade e da redenção do gênero humano, deverão exercer.

- Coragem, peregrino do pecado! Volta ao ponto de partida e reconstrói o teu destino e virtualiza o teu caráter aos embates remissores da Dor Educadora! Sofre e chora resignado, porque tuas lágrimas serão o manancial bendito onde se irá dessedentar tua consciência sequiosa de paz! Deixa que teus pés sangrem entre os cardos e as arestas dos infortúnios das reparações terrenas; que teu coração se despedace nas forjas da adversidade; que tuas horas se envolvam no negro manto das desilusões, calcadas de angústias e solidão! Mas tem paciência e sê humilde, lembrando-te de que tudo isso é passageiro, tende a se modificar com o teu reajustamento às sagradas leis que infringiste... e aprende, de uma vez para sempre, que és imortal e que não será pelos desvios temerários do suicídio que a criatura humana encontrará o porto da verdadeira felicidade...






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