29 junho 2008

Descondicionamento

Somos seis bilhões de mentes emitindo pensamentos e idéias de toda a sorte. Muitos, no meio dessas radiações mentais, acabam aceitando as sugestões dos outros, porque sem a devida crítica, ficam sem opção para determinar o seu próprio caminho na vida. Não resta dúvida que a lavagem cerebral, estimulada pelos meios de comunicação, é responsável por essa padronização do comportamento. O propósito deste artigo é refletir sobre a nossa aquiescência à sugestão alheia.

Nossa mente está condicionada pela sociedade em que vivemos, pelos livros que lemos, pelo nosso credo religioso, pelos nossos temores, pelas nossas ambições etc. Ao nos inserirmos no seio da sociedade, ela já tem uma estrutura organizada: bancos, comércio, escolas, fábricas etc. É, assim, justo que ela influencie o seu novo cidadão. Contudo, essa influência não pode matar a criatividade do seu membro, pois faltando-lhe o alimento renovador, ela deteriora-se por si mesma.

Para que uma mente seja livre ela tem que transcender o ambiente em que está inserida. Observe um indivíduo preso ao dogma religioso. Para ele tudo está certo, desde que atenda ao padrão estabelecido pela sua religião. Não lhe ocorre pensar de forma diferente, porque pensa de acordo com o sistema pré-estabelecido. Um exemplo: como posso negar que Pai, Filho e Espírito Santo são uma única pessoa, se é assim que o dogma da Santíssima Trindade me obriga a pensar?

O indivíduo, para que realmente possa ser denominado indivíduo, tem de construir o seu próprio pensamento. Nesse sentido, e a fim de tornar a sua mente criativa, é aconselhável despir-se das repetições dos pensamentos alheios, da autoridade de um chefe, do clamor da mídia televisiva, em fim, de toda a espécie de condicionamento. A criatividade nada mais é do que a perfeita sintonia com as forças superiores da natureza. Assim, o espírito criador tratará todos os problemas de maneira simples, evitará a ociosidade e procurará concentrar-se eficazmente em tudo o que estiver fazendo.

O descondicionamento pressupõe um requisito: o indivíduo deve acreditar que pode libertar-se dos condicionamentos. Se, pelo contrário, achar impossível, o problema já está resolvido. Mas, crendo na sua possibilidade, deve ponderar a sua busca. Mesmo assim, a ponderação requer uma mente aberta, a fim de que esta não caia em outro tipo de condicionamento. Somente quando se pensar livre e profundamente num problema é que a verdade se descobre por si mesma. O mais importante não é forçar a ruptura de um condicionamento, e sim ter a mente aberta para compreender as suas causas intrínsecas.

O descondicionamento é extremamente valioso para a nossa ascensão espiritual. Quanto mais nos afastarmos das idéias pré-concebidas, mais perto estaremos do pensamento criativo e renovador.

Fonte de Consulta


KRISHNAMURTI, J. Experimente Um Novo Caminho. Rio de Janeiro, ICK, 1966.
____. Fora da Violência. São Paulo, Cultrix, 1976.
____. Verdade Libertadora. Rio de Janeiro, ICK, 1963.

São Paulo, 01/04/1998

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