29 junho 2008

Dever e Mutilação da Liberdade

O dever, na sua origem, e segundo os estoicos, pertencia a uma ética fundada na norma do "viver segundo a natureza", isto é, conformar-se à ordem racional do todo. Os estoicos não se referiam à felicidade, ao prazer ou à conquista de virtudes; simplesmente alimentavam a crença que, havendo uma lei natural, a conduta humana nela seria alicerçada. Isso já era o suficiente para pautar o comportamento de cada ser humano.

Sócrates, Platão e Aristóteles, filósofos gregos da Grécia clássica, deram outro verniz ao dever: embora aceitassem a conformação com a ordem racional do todo, procuraram relacioná-lo com a felicidade e a prática das virtudes. Colocavam a busca da felicidade (eudaimonia) no centro da vida moral. Para eles, o homem feliz é aquele cujo daimon (divino) é virtuoso. Esta foi a concepção que permaneceu ao longo da história.

Durante a Idade Média, a filosofia ficou totalmente à mercê da Igreja. Esse período, denominado de escolástica, caracterizou-se pela construção de um saber alicerçado na lógica aristotélica. Para esses religiosos, o dever tinha íntima relação com os mandamentos, mandamentos esses alicerçados no Evangelho de Jesus. Porém, eles tomam a palavra mandamento, não no seu sentido grego de entolé (ensino, instrução), mas no de ordenação, ou seja, obediência à autoridade, que no caso específico referia-se ao Papa, aos vigários ou aos padres.

A ingerência da Igreja mutilou o pensamento inovador. O servo tem que obedecer, sob pena de cometer o pecado. Observe que na Boa Nova do Cristo não existe a palavra dever. O que consta nos seus ensinamentos é a palavra "feliz", que aparece 55 vezes no Novo Testamento. A palavra feliz dá a ideia de liberdade, de conformação à vontade de Deus, mas de forma espontânea e não como uma obrigação, um temor da divindade. Veja a irracionalidade do pecado original: uma mancha que todos nós herdamos ao vir a este mundo.

A pressão religiosa carrega-nos de medos, de pecados e de proibições. É como se Deus dissesse: "Não coma da árvore da ciência do bem e do mal, porque será enviado ao fogo do inferno". A aceitação passiva dessa ordenação rouba-nos energia vital, pois acabamos frustrando a nossa própria natureza em detrimento de uma proibição vinda dos altos mandatários da Igreja ou das religiões. O nosso livre-arbítrio se tolhe e parece que não temos força de decidir por nós mesmos.

Tenhamos a mente livre para uma atitude crítica. Somente assim vamos-nos libertando do mal e embalando-nos no bem, elemento fundamental da ampliação de nossa visão de mundo e de nós mesmos.

Fonte de Consulta


PLÉ, ALBERT. Por Dever ou por Prazer? Tradução de Jean Briant. São Paulo: Paulinas, 1984 (Pesquisa e Projeto, 3)

São Paulo, 23/04/2004

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