02 julho 2008

As Dificuldades de cada Dia

A vida espiritual, no presente, não é de gozo, mas de depressões, quedas e desânimo. No que se fundamenta esta dificuldade, este sofrimento? Os amigos espirituais nos orientam que essas crises são salutares, pois podem nos levar ao porto de salvação de nossa alma. Muitas vezes elas vêm porque damos muita importância ao nosso egoísmo, ao nosso bem-estar e à nossa comodidade. As facilidades da vida corroem a nossa liberdade e nós não o percebemos.

A obediência a Deus é condição necessária para andarmos em liberdade de espírito. Como, porém, sabermos o teor de suas ordens, se não O vemos? Imitando os exemplos de Jesus. Assim, ao seguirmos os passos de Jesus, colocamo-nos em sintonia com a vontade divina, muito mais substancial do que a vontade humana. Para a realização da vontade humana, basta simplesmente termos pulso firme, poder de decisão e autoridade. O atendimento ao chamamento divino é um pouco mais complicado, pois precisamos de nos fazer pequenos como as crianças e simples como as pombas.

Seguir a vontade de Deus implica em guerrearmos os pensamentos inúteis, os sonhos vãos e a imaginação improdutiva. Não é uma guerra violenta, em que há armas e muitos homens mortos, mas uma luta constante para mantermos o pensamento sóbrio. Sob esse mister, convém tomarmos consciência de que não estamos encarnados para gozar de Deus, mas para o trabalho, o sofrimento e a luta. Há, contudo, um consolo para este mal-estar: ele nos torna mais dóceis, mais cientes de nossa pequenez e nos aproxima constantemente da perfeição.

Os que sabem sofrer acabam por criar um tipo de confiança que excede todo o entendimento humano. Quando Jesus disse que não devíamos nos preocupar com o amanhã, pois a cada dia basta o seu mal, ele estava nos orientando a ter fé nos seus ensinamentos, porque o alimento material nos seria dado como acréscimo de misericórdia. Contudo, nos momentos mais críticos de nossa existência, falta-nos a confiança em Deus. Se está registrado no Evangelho, ele foi escrito para nós, seguidores do Mestre. Nada há a temer. Habituando-nos a desanuviar a nossa mente, cada manhã, vamos nos sentindo mais fortes para os revezes que nos aguardam.

Combater as más tendências, logo que elas surgirem, é uma boa técnica. A inteligência é sempre sugestionada pela vontade. Se introduzirmos em nossa inteligência uma ideia má, ela poderá corromper as boas e nos desanimar. Assim, quanto não se ganha renunciando a um desejo, não respondendo a uma ofensa e calando quando tínhamos vontade de falar. A história está repleta de exemplos em que a confiança no divino amigo suplantou o medo e os maus presságios sobre o futuro sombrio.

Convém, na vida espiritual, distinguirmos o que é nosso daquilo que pertence a Deus. Deus nos coloca num determinado lugar e numa determinada situação, que pode ser de pobreza ou de riqueza. A nossa tarefa consiste em obedecer-Lhe e não ficar reclamando do nosso sofrimento.

São Paulo, 10/9/2004.

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