02 julho 2008

Morrer

Suponha que Deus queira nos chamar esta noite. Do que precisamos para ir ao mais além? Papéis escritos? Livros? Cd Rom? Contas de água, luz, telefone? Então, por que guardamos essas coisas a sete chaves? Não seria um erro de julgamento? Nós sempre vamos precisar de algum tipo de memória: papel, disco rígido do computador e o nosso próprio cérebro físico. Contudo, todo excesso é sempre prejudicial. Pergunta-se: de tudo o que temos, o que realmente é útil para o nosso desencarne?

Um livro, uma carta, uma peça de roupa ou mesmo um chaveiro que nos foram dados de presente, por amigos ou parentes, representam o estoque de bens que julgamos sagrados e que não podem ser dispensados. Numa análise fria, o que realmente nos faria falta caso não tivéssemos mais esse bem? Para dar uma resposta satisfatória, imaginemo-nos perante o momento da morte: o que levaremos conosco? Nada disso. Apenas a paz ou a intranquilidade da consciência. Se cumprirmos todos os nossos deveres, a paz; se não, o remorso.

Santo Agostinho foi muito sábio quando nos orientava a repassar o dia, para vermos como nos portamos com os nossos pensamentos, palavras e atos. Esta deve ser a nossa atitude antes de adormecermos, pois cada noite é uma pequena preparação, um pequeno ensaio para a morte. Como, toda noite, morremos um pouco, o hábito de irmos ao seu encontro com a paz da consciência, possibilita-nos desencarnarmos tranquilamente. Esta reflexão noturna faz-nos pensar em nossos erros e acertos. Em vista do ocorrido, poderemos enfatizar os acertos e corrigir os erros. Se, por acaso, tivermos ofendido alguém, é o momento oportuno para lhe pedirmos perdão, silenciosamente.

Um velho problema: o juízo de valor ante o juízo de realidade. O fato de todos acharem que a Terra era o centro do universo, não a tornou o centro. Do mesmo modo, não é por acharmos que esta é a verdadeira vida, que ela o será. Há muitos outros objetos que achávamos verdadeiros e, depois de uma análise mais acurada, não o foram mais. O juízo de valor (interpretação, avaliação) nem sempre corresponde ao juízo de realidade (o que a coisa é objetivamente). A realidade é o que é. Cabe-nos projetar em nosso mundo interior uma imagem tão perfeita quanto seja do mundo exterior.

Uma vistoria de papéis, livros e roupas é muito saudável, pois podemos nos libertar de coisas que já não nos servem mais. Agindo assim, vamos liberando espaço em nosso guarda-roupa, em nossa biblioteca e em nossa mente. Cabe-nos ressaltar que o empilhamento maior está situado, primeiramente, em nossa mente. Uma mente livre quer se libertar de tudo. Desta forma, o apego ao passado impede o bom uso de nossa criatividade, a qual requer uma ligação estreita com as forças superiores do Espírito.

Pensar criativamente ajuda-nos a melhorar a nossa visão de mundo. Observe a crítica que Pietro Ubaldi fez ao pensamento de Maquiavel e de Nietzsche. Segundo Pietro Ubaldi, esses dois pensadores, embora tivessem realçado a verdade dos fatos, fizeram-no de forma negativa e superficial. O primeiro enalteceu as falcatruas do poder político; o segundo, a relevância do super-homem negativo. Eles não conseguiram, porém, descortinar um outro mundo, denotando que agir desta forma faz parte da lei natural. Eles precisavam dar uma visão para que o homem pudesse se libertar dessa situação de superfície. Era preciso apoiar-se nos ensinamentos trazidos por Jesus.

Como responder ao convite da morte? Estamos preparados para desencarnar no dia de hoje? Caso não estejamos hoje, será que o estaremos amanhã?

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