02 julho 2008

Os Misericordiosos

Misericórdia – Do latim miseria e cor-cordis (coração) significa compaixão afetiva a uma miséria de bens, sobretudo o respeito à virtude, que recai sobre um miserável. Podemos dizer que a misericórdia é uma atitude de compaixão para com os mais necessitados, para os desprovidos de fortuna. É um apelo do nosso coração a favor de pessoas mais necessitadas do que nós mesmos. É a aplicação da máxima do Cristo: "Fazermos aos outros o que gostaríamos que nos fosse feito, caso estivéssemos na mesma situação deles".

No Evangelho é anunciado como "bem-aventurados os misericordiosos, porque obterão misericórdia". Cristo anuncia uma certeza: a obtenção de misericórdia. Mas como? Há um condicionamento: antes de obtermos misericórdia, temos que ser misericordiosos. E por que é desta forma e não de outra? É que nada nos vem de mão beijada. Tudo depende de um esforço anterior. "Para que o náufrago se salve, ele tem que se despojar de seus pertences", diz o anexim. Em se tratando da misericórdia, temos que nos despojar do nosso eu, do nosso amor próprio, da nossa personalidade. Somente assim conseguiremos adentrar no reino de Deus.

Este texto evangélico traz também a hipérbole: "não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes". Como sabemos, esta foi a resposta dada por Cristo à indagação de Pedro: "quantas vezes devo perdoar o meu semelhante? Sete vezes?" A resposta de Jesus: "Não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes". Quer dizer, indefinidamente. Isso significa que Jesus não tolera limites além dos quais o amor próprio e a dureza reclamam os seus direitos. Quando não perdoamos, o nosso coração fica jungido ao ódio, o que dificulta a libertação do Espírito.

Diz-se muitas vezes que os misericordiosos enfraquecem a justiça. É falso tal pensamento. O perdão é um ato de força. E força não quer dizer dureza. Além do mais, o perdão do ofensor não nega a sua culpabilidade. Devemos perdoar não porque a pessoa o mereça, mas porque faz bem à nossa alma. Por isso, o fato de se perdoar é uma espécie de libertação, porque ficamos desagravados e os nossos pensamentos menos felizes a respeito de tal pessoa são substituídos por pensamentos criativos e altruístas, mais específicos para a construção de um mundo mais feliz e harmonioso.

Há ainda um fato a ser reconhecido: a maneira de triunfar da ofensa é recusarmos a considerar-nos ofendidos. Foi esta a razão pela qual Gandhi, quando questionado se já tinha perdoado alguém, ele simplesmente disse que nunca tinha perdoado ninguém, porque nunca se sentira ofendido. Se ele não se sentiu ofendido, não tinha o que perdoar. Mas para atingir esse estado de alma, há muita luta, muita mudança interior a ser realizada.

A misericórdia não deve ser aplicada em função deste ou daquele ser humano. Ela deve ser uma disposição da alma, um hábito concreto que procura identificar-se com os padrões morais estabelecidos pelo nosso mestre Jesus Cristo.


Nenhum comentário: