02 julho 2008

Prazer e Dor

Prazer e dor são logicamente indefiníveis. Prazer e dor são qualitativamente diferentes, embora se identifiquem na mesma raiz da sensibilidade. São conceitos de um estado psíquico sui generis, irredutível a qualquer outro, estado de que podemos, tão só, procurar as condições mentais ou fisiológicas.

Em cada um dos instantes da vida psicológica há prazer ou dor e, as vezes, prazer e dor. Um não se torna o outro, portanto, o outro; um atualiza e virtualiza o outro. Deve-se convir que a dor está sempre no prazer, e vice-versa. Quando atualizamos o prazer, a dor fica no estado de virtualidade; ao contrário, quando atualizamos a dor é o prazer que se virtualiza. Esta concepção dialética evita inúmeras polêmicas, principalmente entre os pessimistas e os otimistas.

O prazer não deve ser confundido com a alegria e a felicidade. A alegria apresenta sempre um caráter total, quer dizer, que se estende todos os conteúdos da consciência. Está em nós e por nós. A alegria distingue-se do simples prazer pela ideia, quer dizer, a plena consciência que a ela se acrescenta. Quanto à felicidade, distingue-se pelo fato da felicidade ser um estado de satisfação completa, que toma conta de toda a consciência, tanto em extensão, quanto em intensão e duração.

É o prazer uma forma de distração? A procura da distração causa prazer. Isso é um fato. Mas, a busca do prazer causa distração? A civilização industrial, na atualidade, criou uma fatalidade: sociedade de consumo. O homem do povo pouco tem a dizer com relação às fórmulas de uma técnica administrativa imposta como um fatalismo, que é necessário aceitar. Resta-lhe uma válvula de escape, ou seja, a busca do prazer como distração.

O prazer, porém, não livra o homem do estado de angústia, apenas o distrai. Há uma diferença fundamental entre as pessoas que se sacrificam por um ideal e as que meramente buscam o prazer. O prazer, nesse sentido, é como um atordoamento do espírito, uma fuga, e não a atualização de nossas potencialidades. Criatividade e liberdade ofuscam-se ante o brilho das inovações tecnológicas.

Não nos meçamos pelos outros. Estejamos inteiros naquilo que estivermos fazendo. Somente assim viveremos prazerosamente cada instante de nossa existência terrena.

Fonte de Consulta

MENDONÇA, E. P. de. Filosofia dos Erros: Um Olhar Sobre a Vida que Passa. Rio de Janeiro, Agir, 1977. 

São Paulo, 31/10/1997

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