02 julho 2008

Proibição, Confissão e Purificação

A manifestação religiosa, quanto mais primitiva é, menos crenças tem e mais práticas e instituições. No Totemismo, a mais antiga das religiões, o universo simbólico do sagrado é representado por vários elementos, entre os quais o "tabu", ou seja, uma espécie de proibição. Instituia-se uma lista daquilo que era considerado sagrado. Violando-se, fere-se a regra e necessita-se de confissão. A confissão é a penitência e tem por objetivo a libertação do crente.

O conteúdo das proibições, como vimos, vem das religiões primitivas. No Levítico há longas listas dos animais puros e impuros (ou "imundos"). Os animais puros são aqueles que podem ser oferecidos a Deus; os impuros, os que são proibidos. Em se tratando dos animais, observe a ênfase dada à serpente. No livro Gênesis é a tentadora de Eva. A simbologia da serpente é tão intensa que um psicanalista chegou a afirmar que ela encarna a psique inferior, o psiquismo obscuro do homem, ou seja, o que é raro, incompreensível, misterioso.

Desviando-nos da lei, cometemos o mal e devemos nos confessar. Na tradição bíblica, o que libera o pecador não é a lembrança dos atos bons, mas principalmente a confissão das faltas cometidas. A confissão cristã reteve os mesmos elementos do judaísmo: reconhecimento expresso de culpa, reparação, penitência e absolvição divina. Acrescenta-lhe, porém, a não reincidência na falta como condição do perdão obtido. O pecado é um laço, um nó espiritual. A confissão, entendida na sua plenitude, desata o laço. A confissão simboliza a vontade de se livrar da falta.

Na antiguidade, depois de confessar as faltas, o crente era submetido ao ritual de purificação, incluindo-se um cerimonial inesgotável. A noção de pureza moral, de pureza de consciência, de mancha da alma e arrependimento interior, só aparece na Grécia com o culto de Apolo, em Delfos. A partir daí, a consciência funciona como um aguilhão, orientando as ações humanas. Contudo, ela não se realiza senão no nível da razão, da liberdade e do dom de si.

Na atualidade, apesar de todo o desenvolvimento tecnológico, o universo simbólico das religiões é bastante saliente. Em sendo assim, convém notar que a purificação, a verdadeira purificação, a purificação interior deve emergir de dentro de cada ser. Estar submisso às forças hierarquizantes e dominantes das religiões, pode impedir-nos de realizar a nossa autêntica revolução interior.

Confessemo-nos uns aos outros, no sentido de desentranhar pesados fardos do nosso interior. Porém, não nos esqueçamos de que a potencialização do nosso ser espiritual depende exclusivamente de nós.

Fonte de Consulta

CHEVALIER, J. Dicionário de Símbolos, (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 6. Ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1992.

São Paulo, 08/01/1997.

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