03 julho 2008

Vocação e Vocação Religiosa

Vocação - do lat. vocatione significa escolha, chamamento, predestinação. Na Antiguidade, a palavra vocação referia-se à questão estritamente religiosa. Hoje, além da religião, podemos estudá-la no âmbito da psicologia e da filosofia. Nosso propósito é, pois, analisar o termo, enfocando esses vários aspectos.

No âmbito da psicologia aplicada, ou seja, da "psicotenia", estudam-se os aspectos científicos da vocação. A psicotenia, através dos testes psicológicos, procura ajustar a aptidão do indivíduo humano à função que ele pode desempenhar na vida. Para tanto, distingue a orientação profissional da seleção profissional. Na orientação profissional, parte-se de um indivíduo para buscar uma profissão que lhe convenha; na seleção profissional, parte-se de uma dada profissão para buscar o indivíduo que melhor, ou em grau suficiente, possa desempenhá-la.

A vocação, ao contrário da profissões, consiste na escuta interior de um apelo que dá sentido e valor à vida inteira. Enquanto as profissões costumam ser motivadas por razões utilitárias e práticas, a vocação representa o encontro do homem com o seu autêntico caminho, fazendo-o centrar-se e realizar-se na dimensão mais profunda de sua existência. A vocação relaciona-se, assim, com as "missões": ser homem ou mulher, constituir ou não uma família, desempenhar este ou aquele papel etc.

A expressão "vocação", no contexto da religião, tem sido utilizada exclusivamente para representar os que se dedicam à tarefa sacerdotal ou à vida religiosa em comunidade e renúncia. Hoje, observa-se que é uma limitação abusiva, visto cada ser humano ter a sua própria dimensão religiosa, sem contudo pertencer a uma igreja ou convento. Independentemente de se pertencer ou não à classe sacerdotal, a verdadeira vocação religiosa pressupõe uma "entrega" aos outros, renunciando a si mesmo, inclusive à própria personalidade, se as circunstâncias assim o exigirem. 

A vocação deve sempre se referir ao ser global. Quando estamos no exercício pleno e autêntico da nossa vocação, todo o nosso ser se modifica. Começamos a compreender melhor o nosso próximo, respeitando-o nos diversos matizes de suas dificuldades. Indelevelmente vamos alterando o nosso eixo de desejos, diminuindo os estritamente materiais e enfatizando os espirituais. Em fim, a aplicação correta da nossa vocação produz os frutos sazonados. Naqueles seres em que ela se faz sentir integralmente, há uma mudança tão radical, que eles começam a colocar cada ato dentro do conjunto da vida, por mais simples que estes possam parecer.

Perscrutemos o nosso "eu" interior. Não nos deixemos enganar pelo comodismo e consumismo da sociedade moderna. A perseverança nos deveres fáceis e enfadonhos é um capital que gera dividendos pelo resto de nossa vida.

Fonte de Consulta

IDÍGORAS, J , L. Vocabulário Teológico para a América Latina. São Paulo, Edições Paulinas, 1983

São Paulo, 30/11/1996

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