10 dezembro 2008

Vaidade: Algumas Notas

Vanitas vanitatum, et omnia vanitas. (Eclesiastes, 1, 2)

Em Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, Matias Aires não define o termo vaidade. Subentende-se paixão ou mais precisamente uma "concupiscência" que leva o homem a cuidar das aparências que das substâncias e a viver de mentiras e não de verdades. Para ele, a vaidade não é apenas uma força negativa. Sendo ela um efeito da corrupção, encontramo-la misturada a todos os nossos movimentos, tanto para o bem quanto para o mal. Ela não é uma paixão entre as demais, mas uma paixão sobre ou sob as demais. A vaidade leva à sociedade, à ciência, e até à virtude.

Prossegue dizendo que: "Destes menores delírios resulta e depende a sociedade; porque a vaidade de adquirir fama infunde aquele valor nos homens, que quase chega a transformá-los em muralhas para a defesa das cidades e dos reinos: a vaidade de serem atendidos os reduz à trabalhosa ocupação de indagarem os segredos da divindade, o giro dos astros, e os mistérios da natureza; a vaidade de serem amados os faz benignos; e finalmente a vaidade, ou amor da reputação os faz virtuosos". (Fragmento 30; cf. fragmentos 8, 36 e 75)

A vaidade, extraída dos dicionários e enciclopédias, é o desejo de atrair a admiração das outras pessoas. Uma pessoa vaidosa cria uma imagem pessoal para transmitir aos outros, com o objetivo de ser admirada. Mostra com extravagância seus pontos positivos e esconde seus pontos negativos. O vaidoso considera-se superior a todos, em relação aos seus dotes reais ou imaginários, e sente ofendido ou amesquinhado quando posto em confronto desfavorável com outros indivíduos. Chama-se a isto vaidade ferida, que é, muitas vezes, comportamentos anti-sociais. O indivíduo equilibrado em seus julgamentos tem consciência clara de seus dotes reais, não como motivo de orgulho, mas de responsabilidade em utilizá-los para fins morais elevados, e tem igualmente consciência de suas limitações, sem, todavia, deixar-se abater por este motivo.

Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, fala-nos sobre a fascinação, que é uma ilusão produzida pela ação direta do Espírito sobre o pensamento do médium e que paralisa de algum modo seu julgamento acerca das comunicações. O médium fascinado não se julga enganado. Os Espíritos menos felizes podem inspirar-lhe uma confiança cega, podem atiçar o seu amor-próprio, colocando-o como o centro das atenções de todos os colaboradores de um Centro Espírita. Pronto, está atiçada a vaidade do médium.

Tomás Kempis, em Imitação do Cristo, diz: "Vaidade é, pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas. Vaidade é também ambicionar honras e desejar posição elevada. Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar aquilo pelo que depois, serás gravemente castigado. Vaidade, desejar longa vida e entretanto, descuidar-se de que seja boa. Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura. Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso a felicidade que sempre dura".

Em termos religiosos, toda a situação que causa desprezo e humilhação é bom para o crescimento espiritual, porque evita a vanglória do crente e o coloca na sua verdadeira humildade. Quando somos elogiados, bem conceituados, não percebemos claramente os nossos defeitos. Vez ou outra, a Providência Divina permite que Espíritos menos felizes possam atingir o nosso amor-próprio, através de seus impropérios. Isso contudo, não pode nos desviar do rumo traçado.

Cristo sofreu desprezo e opróbrios. Por que temos que nos queixar dos outros? Lembremo-nos, sim, de desapegar o nosso coração do amor às coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis.

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