11 outubro 2009

Esquecimento de Si Mesmo

"É fácil desprezar a vida quando as dificuldades nos cercam; só prossegue corajosamente, aquele que sabe ser desgraçado". (Marcial - Epigramas, II, 9)

A vida é composta de mil nadas que são picadas de alfinete que acabam por nos ferir. Em qualquer época, e muito mais nos tempos presentes, nunca foi fácil manter o equilíbrio emocional e mental. Por isso, somos constantemente convocados ao exercício da paciência, com o seguinte recado: “Não despreze os deveres que a sua própria consciência colocou como objetivo em sua própria vida”. Aquele caminho sugerido, por mais desprezível que seja, pode ser o nosso porto de salvação, pois possivelmente não saberíamos escolher outro melhor.

Firmarmos-nos de tal modo em Jesus Cristo é uma excelente determinação. Há, no mundo, muitos convites, muitas sugestões e muitas portas largas onde estão os prazeres da carne e os vícios de todos os tipos. Apoiar-se cada qual em sua vocação é a melhor das determinações. A vocação religiosa, por exemplo, pode sugerir-nos, tal como aconteceu com Francisco de Assis, o voto de pobreza, a renúncia aos bens materiais, no sentido de nos dedicarmos inteiramente à vida espiritual.

Na família universal, a vocação de um serve de alimento para a vocação do outro. Cabe-nos, assim, potencializar todos os que Deus colocou em nosso caminho. Para o nosso próprio benefício, não deveríamos nos apegar a um posto, a um determinado lugar, mas estarmos sempre prontos a partir a um simples sinal do mestre. Buscar o desconhecido é um sacrifício que devemos fazer, pois renunciar ao que já sabemos exige grande fortaleza de ânimo. Lembremos da máxima evangélica: “Que deixado tudo, se deixa a si mesmo e saia totalmente de si, sem reservar amor-próprio algum, e, depois de feito tudo que soube fazer, reconheça que nada fez”. 

Muitas vezes, para progredirmos na vida espiritual é útil que os outros saibam os nossos defeitos e os apontem. Convém, mesmo estando sob o crivo da crítica, não nos desesperarmos. É nesse instante supremo de sofrimento que os Espíritos superiores instruem-nos para que esqueçamos de nós mesmos, renunciemos ao nosso “eu” e sirvamos mais intensamente ao mestre Jesus.

Para corroborar o nosso pensamento, escutemos o que Tomás A. Kempis, no livro segundo, capitulo 12, item 9, de Imitação do Cristo, diz: “Não é conforme à inclinação humana levar a cruz, amar a cruz, castigar o corpo e impor-lhe sujeição, fugir às honras, aceitar as injúrias, desprezar-se a si mesmo e desejar ser desprezado, suportar as aflições e desgraças e não almejar prosperidade alguma neste mundo. Se olhares somente a ti, reconheces que nada disso és capaz. Mas, se confiares em Deus, do céu te será concedida a fortaleza, e sujeitar-se-ão ao teu mando o mundo e a carne. Nem o infernal inimigo temerás, se andares escudado na fé e armado com a cruz de Cristo”.

Em todas as situações, consideremos os deveres que nos são impostos e as compensações a eles relacionadas, porque as bênçãos são muito mais numerosas do que as dores, quando olhamos o mundo do alto de uma montanha.

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