04 novembro 2009

Luz e Trevas em São João da Cruz

São João da Cruz (1542-1591), cognominado o “doutor místico”, consagrou-se à formação dos Carmelitas Descalços e à direção espiritual de religiosos seculares. Em 1577, os opositores ao seu propósito reformador prenderam-no, durante nove meses, no Convento de Toledo. No desterro e na solidão, pode compor os seus primeiros versos e vislumbrar a sua doutrina religiosa.

A sua teologia, onde Deus constitui o centro de toda a sua obra, resume-se numa fórmula bem simples: “união do homem com Deus”. Para ele, Deus Se revela em Cristo; ao mesmo tempo, enaltece a transcendência de Deus, supondo-O acima de todas as coisas terrenas. Acentua também a distinção entre o sentido e o espírito. O homem guia-se espontaneamente pelo sentido, mas por exigências naturais e cristãs deve ser espiritual e divino. Consequentemente, o ser humano deve participar de um processo de transformação radical, passando gradativamente do sentido ao espírito e do espírito a Deus.

São João da Cruz era reconhecido por suas “palavras duras”. No Evangelho de Jesus também as há. Lembremo-nos do “odiar pai e mãe”. Diz-se que ele costumava tratar os seus pares como se eles não estivessem ali. Esta atitude não era de desprezo pelos irmãos espirituais, mas como um método para alcançar a iluminação religiosa, pois muitas conversas e muitas amizades podem dificultar o processo de contemplação e meditação interior que tanto zelava.

A “noite” e as “trevas” tinham um significado especial para João da Cruz. Elas não eram consideradas antíteses da luz; faziam parte da mesma. Ele dizia: “penetra na noite e serás iluminado”. Em realidade, a “noite” é o “obscurecimento” de todos os nossos desejos naturais, nossa maneira natural de compreender as coisas. “Não somos iluminados por nossos próprios esforços, nosso próprio amor, nosso próprio sacrifício”. O que ele queria era apagar uma luz inferior para poder receber uma luz mais pura.

Ele procurava “obscurecer” mesmo as noções boas sobre Deus, caridade e oração, a fim de criar condições para o crente alçar um voo mais alto. As suas exigências tinham um objetivo mais profundo, ou seja, queria libertar-nos não apenas do cativeiro da paixão e do egoísmo, mas até da tirania mais sutil da ambição espiritual. Ele queria apagar a vela na luz do dia, pois tanto faz estar acesa ou apagada. O problema maior é não vermos a luz espiritual meridiana da presença de Deus em redor de nós.

Notamos, mais uma vez, que as ideias valem por si mesmas. Elas independem de religião, de filosofia. Importa mais o raciocínio lógico de uma alma aberta a qualquer tipo de conhecimento venha de onde vier.

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