18 maio 2019

Beleza e Espiritismo

Beleza. O que agrada universalmente. Tudo o que produz no homem um sentimento particular chamado emoção estéticaO conceito do belo, do verdadeiro e do bom não podem ser reduzidos um ao outro, nem a um terceiro. O belo é concernente ao sentimento; o verdadeiro, ao intelecto; o bom, à vontade. A beleza pertence à subjetividade do espírito, embora algumas pessoas queiram colocá-la no âmbito da objetividade.

Platão compara a beleza ao amor, o qual se caracteriza pela insuficiência, ou seja, amamos algo que desejamos e não o temos. Plotino afirma que a beleza é elevação da alma. Acha que a arte é o esplendor da inteligência, que transparece no sensível. Kant distingue o sensório do prazer estético propriamente dito. Schelling pensa que a arte é simultaneamente objeto concreto e produto do espírito. Nietzsche vê a criação artística como a polaridade do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco. O primeiro, baseado nas formas, exprime-se nas artes plásticas; o segundo, ilimitado, e que conduz o indivíduo à saída de si mesmo, só a música e o vinho podem dar. (Nicola, 2005)

Em religião, fala-se do "demônio da beleza". Tudo o que é humano se deforma. O “demônio da beleza” enfeitiça o ser humano. A beleza é uma espécie de adoração, reflexo da harmonia universal. A beleza feminina é tentação para desviar o homem de sua missão. Exemplos: Sansão é seduzido e traído pela esposa; Betsabeia arrasta David para o adultério e o crime; apesar de sua sabedoria, Salomão incorreu na idolatria, cativado pela beleza de mulheres estrangeiras.

A beleza no Espiritismo pode ser vista:

a) A modificação da forma. No que tange à forma do corpo, a beleza evoluiu sensivelmente. “A forma dos corpos se modificou em sentido determinado e segundo uma lei, à medida que o ser moral se desenvolveu, o ser físico também”. Assim sendo, à medida que os instintos materiais se depuram e dão lugar aos sentimentos morais, o envoltório material, que já não se destina à satisfação de necessidades grosseiras, toma forma cada vez menos pesada, mais delicada, de harmonia com a elevação e a delicadeza das ideias.

b) O Semblante é o espelho da alma. “O semblante é o espelho da alma. Esta verdade, que se tornou axioma, explica o fato vulgar de desaparecerem certas fealdades sob o reflexo das qualidades morais do Espírito e de, muito amiúde, preferir-se uma pessoa feia dotada de eminentes qualidades a outra que apenas possui a beleza plástica. É que semelhante fealdade consiste unicamente em irregularidades da forma, mas sem excluir a finura dos traços, necessária à expressão dos sentimentos delicados”.

c) A Superioridade Moral do Espírito. Conforme o ser vai se depurando moral e intelectualmente, suas formas vão se tornando mais belas e mais harmoniosas. Nesse sentido, Allan Kardec sintetiza este tema nos seguintes dizeres: 1) que o tipo da beleza consiste na forma mais própria à expressão das mais altas qualidades morais e intelectuais: 2) que, à medida que o homem se elevar moralmente, seu envoltório se irá avizinhando do ideal da beleza, que é a beleza angélica. (Kardec, 1975, Teoria da Beleza).

O Espiritismo mostra-nos o porvir sob uma luz nova e mais ao nosso alcance. Por ele, a felicidade está mais perto de nós, está ao nosso lado, nos Espíritos que nos cercam e que jamais deixaram de estar em relação conosco.

Bibliografia Consultada

KARDEC, A. Obras Póstumas. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1975.

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

25 abril 2019

No Momento da Morte

De acordo com Allan Kardec, no momento da morte, a alma volta a ser Espírito, ou seja, retorna ao mundo dos Espíritos, que ele havia deixado temporariamente. A separação da alma do corpo não é dolorosa como a maioria de nós supõe; normalmente, a alma sente mais durante a vida do que nesses instantes finais da vida na matéria. A separação também não é instantânea. Opera-se lentamente segundo as circunstâncias. (Consultar O Livro dos Espíritos, livro 2, capítulo 3)

Em se tratando da separação do Espírito do corpo físico, lembremo-nos de que quando a morte é natural, o desprendimento começa pelos pés, indo progressivamente até a cabeça, onde está situado o centro de força coronário, o último a desatar por causa de sua estreita ligação com o Espírito. A ordem é esta segundo o Espírito André Luiz, em Obreiros da Vida Eterna, capítulo 13, p. 210: o centro vegetativo, ligado ao ventre, sede das manifestações fisiológicas; o centro emocional, zona dos sentimentos e desejos, sediado no tórax, e o centro mental, situado no cérebro. 

Eis, a descrição: "Logo que Jerônimo concluiu a operação sobre a primeira região, uma certa porção de substância leitosa extravasou do umbigo, pairando em torno. Em seguida, depois de operar sobre a região do tórax, nova cota de substância desprendeu-se do corpo. E, na última etapa do processo, finda sua atuação sobre o cérebro de Dimas, uma brilhante chama violeta-dourada desligou-se da região craniana e absorveu, instantaneamente, a vasta porção de substância leitosa já exteriorizada das duas primeiras regiões".

O transe da morte é sempre crise, pois retrata a passagem do mundo da matéria para o mundo do Espírito. Quer dizer, deixamos este mundo e penetramos no mundo dos Espíritos. Léon Denis, em Crise da Morte (primeiro caso), diz-nos que há afirmações de que o indivíduo revê instantaneamente toda sua vida que acaba de deixar. Espírito Peckam disse: "No momento da morte, revi, como num panorama, os acontecimentos de toda a minha existência". Desprendendo do corpo, a alma segue o peso específico de seu perispírito, ou seja, irá para lugares felizes ou infelizes, conforme foi a sua atuação neste mundo. 

Falta ainda à humanidade o conhecimento da transitoriedade do corpo físico. No livro O Céu e o Inferno, Allan Kardec diz-nos que o temor da morte decorre da noção insuficiente da vida futura, embora denote também a necessidade de viver e o receio da destruição total. Segundo o seu ponto de vista, o espírita não teme a morte, porque a vida deixa de ser uma hipótese para ser realidade. Ou seja, continuamos individualizados e sujeitos ao progresso, mesmo na ausência da vestimenta física.

Tratemos naturalmente da passagem para o mundo espiritual. O importante é ter a consciência tranquila, que nos propiciará muita paz nesse momento crucial para todo o vivente.


19 março 2019

Formas-Pensamento

Ernesto Bozzano, em Pensamento e Vontade, diz que os filósofos alquimistas dos séculos XVI e XVII, Vanini, Agrippa, Van-Helmont, já atribuíam ao magnetismo emitido pela vontade o resultado de seus amuletos e encantamentos. Van-Helmont, por exemplo, chegou a formular a teoria das formas-pensamento, da ideoplastia, da força organizadora. Para ele, o desejo realiza-se na ideia. É a teoria sobre as ideias-forças, desenvolvida por Fouillée bem antes da vinda das obras espíritas, principalmente as do Espírito André Luiz.

Mas, o que são as formas-pensamento? Para a teosofia, formas-pensamento são criações mentais que utilizam a matéria fluídica ou matéria astral para compor as características de acordo com a natureza do pensamento. Podem ser criadas por encarnados ou desencarnados (com características positivas ou negativas). É o resultado da ação da mente sobre as energias mais sutis que nos circundam, criando formas correspondentes ao pensamento externado.

O Espírito André Luiz, em Os Mecanismos da Mediunidade, aborda extensivamente a questão dos fluxos mentais das criaturas. Em se tratando das formas-pensamento, diz que a telementação e reflexão comandam todos os fenômenos de associação. Dai, "Emitindo uma ideia, passamos a refletir as que se lhe assemelham, ideia essa que para logo se corporifica, com intensidade correspondente à nossa insistência em sustentá-la, mantendo-nos, assim, espontaneamente em comunicação com todos os que nos esposem o modo de sentir". 

Nesse mesmo livro, o Espírito André Luiz diz que pela ideoplastia, “o pensamento pode materializar-se, criando formas que muitas vezes se revestem de longa duração, conforme a persistência da onda em que se expressam”. Temos muita dificuldade de perceber o emaranhado de vibrações que envolvem o nosso pensamento. Há uma plêiade de Espíritos ao nosso lado e nem sempre são os melhores do universo. Como as suas influências são sutis, expressamo-las pela nossa boca, transparecendo que são nossas próprias ideias.

Qual o nosso principal trabalho? Criar formas-pensamento sadias. Assim, quanto mais estudarmos a Doutrina Espírita, colocando em prática os seus princípios diretores, mais seremos influenciados pelos Espíritos de luz. Perseveremos no bem. Nada de pusilanimidade. A vigilância e a oração devem ser constantes, pois são muitos os Espíritos infelizes que se aproximam de nós para atrapalhar a nossa ascensão espiritual. 

18 março 2019

Missão de Deus e Milagres

Muitos, ao longo do tempo, desempenharam funções religiosas, considerando-se missionários do Alto. Buda, depois do seu retiro nas planícies, fundou o budismo; Lao-Tsé resumiu o seu pensamento no Tao te Ching em apenas uma noite; Moisés recebeu os Dez Mandamentos aos pés do Monte Sinai; Maomé (fundador do islamismo) ouviu a voz do Anjo Gabriel enquanto meditava. No catolicismo, a escolha de alguns de seus representantes depende de estes terem realizado algum milagre.

Na Revista Espírita de 1862, um eclesiástico questiona: "Todos aqueles que tiveram missão de Deus de ensinar a verdade aos homens, provaram sua missão por milagres. Por quais milagres provais a verdade de vosso ensinamento?" Mas, o que é o milagre? O Espiritismo tem necessidade do milagre? Para ensinar a verdade, necessitamos realizar algum milagre?

O milagre, no entender das massas, é um fato extranatural. Em teologia, é uma derrogação das Leis Naturais, por meio do qual Deus manifesta o seu poder. No Espiritismo, é sempre coroamento, mas nunca derrogação das Leis Naturais, que funcionam igualmente para todos. É a designação de um fato natural ainda distante do entendimento fragmentário da criatura. Para uma boa compreensão do assunto, devemos analisar os fatos segundo a razão e com a ajuda dos benfeitores espirituais.

Para o Espiritismo, os milagres decorrem de uma falsa interpretação das Leis Naturais. Um estudo acurado dos fluidos esclarece-nos a questão. De acordo com Allan Kardec, há os fluidos emanados dos Espíritos (magnetismo espiritual), os fluidos do magnetizador (magnetismo humano) e uma interpenetração de ambos (magnetismo misto, semi-espiritual ou humano-espiritual). Com isso, explicamos o mecanismo das curas, das aparições e de tantos outros milagres que ocorreram ao longo do tempo.

Allan Kardec, em resposta à questão, tece alguns comentários. Eis um deles: "Se a verdade não fosse provada senão por milagres, poder-se-ia perguntar por que os sacerdotes do Egito, que estavam no erro, reproduziram diante do Faraó aquilo que Moisés fez? Por que Apolônio de Tiana, que era pagão, curava pelo toque, devolvia a visão aos cegos, a palavra aos mudos, predizia as coisas futuras e via o que se passava à distância? O próprio Cristo não disse: "Haverá falsos profetas que farão prodígios"?"

O Espiritismo não é um milagre por si mesmo? Continuando a análise de Allan Kardec, anotemos: "Nós cremos que a Doutrina Espírita é boa não só porque é nossa opinião, mas porque milhões de outros pensam como nós; porque ela conduz a crer aqueles que não creem; dá coragem nas misérias da vida. O milagre! é a rapidez de sua propagação, estranha nos fastos das doutrinas filosóficas; foi por ter, em alguns anos, feito a volta ao mundo, e estar implantada em todos os países e em todas as classes da sociedade; foi por ter progredido, apesar de tudo o que se fez para detê-la, de transtornar as barreiras que se lhe opôs; de encontrar um acréscimo de forças nas próprias barreiras..."

Se uma ideia é falsa, cai por si mesma. Com o Espiritismo, aconteceu o contrário, pois foi sempre ganhando mais apoiadores. Eis aí o verdadeiro milagre.


11 março 2019

Conduta e Tentação

"Não há ninguém tão perfeito que não tenha tentações."

"Tentação" é o impulso para a prática de alguma coisa censurável ou não recomendável. Desejo veemente e violento. Este termo está mais associado à religião, principalmente quando o demônio tentou Jesus Cristo. Pode ser usado, também, em relação à guloseima, ao sexo, à infidelidade etc. Aqui, trataremos da tentação como uma espécie de desequilíbrio à conduta saudável.

Enquanto vivermos neste mundo não estaremos livres das "tentações". Essas tentações podem nos levar a uma queda vibracional. Pensando positivamente, ela pode ser entendida como um aviso, uma advertência referente ao nosso crescimento espiritual. A queda é útil, pois deixa-nos mais humildes, mais receptivos à dor alheia. Observe: muitas vezes o conhecimento adquirido pode nos criar um ar de superioridade, tal como, eu nunca cairei. Mas há um enorme hiato entre conhecer e a prática daquilo que foi conhecido.

Depois de um desequilíbrio emocional, saibamos refletir e tornar consciência de nossa fraqueza. A fuga das adversidades não nos ajuda muito. É pela paciência e humildade que vamos vencendo os nossos inimigos interiores, pois o problema está dentro de nós. O outro pode nos atrapalhar, desde que o consintamos. Nos momentos mais atrozes desse desequilíbrio, lembremo-nos da vigilância e da prece. O que seríamos sem o amparo dos benfeitores espirituais?

Cada um julga pela sua própria cabeça. O que para nós parece correto, nem sempre o é para o outro. Quando eu prejudico o próximo, imediatamente quero refazer a prejuízo. O outro pode até achar que tem de refazer, mas insiste em não o fazer. Daí, longas brigas no trânsito, entre vizinhos, e assim por diante. Tomás Kempis, em Imitação de Cristo, alerta-nos. Ele dizia: "Se com uma ou duas repreensões o próximo não se emendar, deixe tudo por conta de Deus".

O desvio de conduta situa-se entre o conhecimento adquirido e o comportamento interior. Podemos obter conhecimento nos livros, nas palestras, na internet. Podemos obter tantas informações que nos tornam um ser enciclopédico, e nada disso ser incorporado ao nosso ser, ao nosso comportamento. Por que um orador famoso faz coisas diametralmente contrárias à exortação pública?

Cristo dizia: "Não julgueis para não serdes julgados". Evitemos pensar mal do outro, pois os pensamentos criam formas, e elas podem perdurar ao nosso derredor. O exercício de domínio próprio é uma obra de grande duração; começa, mas nunca termina.


05 março 2019

Ação e Eficácia da Prece

Prece. É o ato de comunicação do ser humano com o sagrado, que pode ser Deus, os deuses, a realidade transcendental ou o poder sobrenatural. A prece é um estímulo que enviamos ao Alto. O Alto, por sua vez, responde-nos por meio do alívio e amenização de nossas dores e sofrimentos. Não há muito segredo para se orar. Basta entrar no quarto, fechar a porta, e elevar o pensamento a Deus (pedido, agradecimento ou louvor).

A crença em algo superior não é somente dos tempos presentes. No Totemismo, a mais antiga das religiões, a crença referia-se à espécie de seres ou coisas que todos os membros de um clã julgassem sagrados, tais como, pedras, animais, vegetais, entre outros. Na Idade Média, muitas bruxas foram queimadas por terem um suposto pacto com o diabo. A fé sempre foi mais cega do que raciocinada. Allan Kardec descortina-nos um novo marco, ou seja, a fé tem que ser raciocinada, pois quanto mais se raciocina mais se crê com compreensão.

Ação é a manifestação de uma força, de uma energia. Disposição para realizar algo. Distinguir os meios dos fins de uma ação é muito útil. Lembremo-nos de que toda ação tem a sua reação. A ação provém dos pensamentos. O Espírito André Luiz, em Os Mecanismos da Mediunidade, aborda intensamente a questão dos fluxos mentais. Emitindo um pensamento, entramos em contato com todos os pensamentos que se lhes assemelham. Nesse caso, evitemos a queixa, as críticas e os julgamentos precipitados.

A eficácia está sempre relacionada com a eficiência. A eficiência seria o ato de "fazer certo as coisas", enquanto a eficácia consiste em "fazer as coisa certas". Há um exemplo clássico sobre a distinção entre eficiência e eficácia. Um homem que cava um poço com perfeição realiza um trabalho com eficiência; um homem que sabe o local correto para cavar o poço e achar água executa um trabalho com eficácia.

Somos o resultado de nossas ações, presentes e passadas. A isto chamamos de lei do carma, causa e efeito, ação e reação etc. Observe a questão 663 de O Livro dos Espíritos. As preces que fazemos por nós mesmos podem modificar a natureza das nossas provas e desviar-lhes o curso? Não. Mas Deus leva em conta a nossa resignação. A prece tem o condão de atrair os bons Espíritos, que poderão nos dar força para suportá-las com coragem.

Jesus, quando esteve entre nós, curou muitos enfermos. Essas curas eram chamadas de milagres. Contudo, nunca derrogou as leis naturais. Muitas vezes somos aquinhoados por uma cura, não porque houve um milagre, mas porque houve um merecimento, merecimento pelo tempo decorrido, pelas nossas ações no bem, entre outras.

No capítulo XXVII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec dá-nos um exemplo simples sobre a ação e eficácia da prece. Um homem, perdido no deserto, sofre tremenda sede e deixa-se cair ao chão. Roga ao Alto, mas não vê nenhum anjo lhe trazer água. Um bom Espírito lhe sugere seguir uma determinada vereda. Chega a uma elevação e descobre um riacho. Se tem fé, agradecerá a inspiração dos bons Espíritos. Se não tem fé, dirá: "Que pensamento bom eu tive!".

Saibamos orar. Não há necessidade de um discurso longo, pois a intenção pesa mais do que as muitas palavras.


02 março 2019

Quando se Raciocina, não se Crê Mais?

Na Revista Espírita de 1867, um jornalista comenta a obra "As Três Filhas da Bíblia", de Hippolyte Rodrigues, que prevê a fusão das três grandes religiões descendentes da Bíblia: a judia, a católica e a maometana. Registremos a seguinte a parte: "Quero fazer aceitar a crença nova pelo raciocínio. Até este dia, não há senão a fé que tenha fundado e mantido as religiões, por esta razão suprema de que, quando se raciocina, não se crê mais, e quando um povo, uma época, deixou de crer, vemos logo ruir a religião existente, não se vê levantar a religião nova."

Allan Kardec não quer criticar o autor, mas fazer uma análise serena de "quando se raciocina não se crê mais". Kardec pensa que quando o indivíduo raciocina a sua crença, ele naturalmente crê mais firmemente, porque compreende melhor a sua crença. Diz, ainda, que foi em virtude deste princípio que forjou a sua célebre frase: "Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade".

Erro 1: tratar o particular pelo todo. A maioria das religiões comete o erro de, por meio da fé cega, edificar todo o arcabouço do dogma absoluto. Nesse caso, as pessoas são obrigadas a aceitar por muito tempo uma determinada crença, não se importando com as pesquisas científicas que vieram contradizer tais dogmas. "Disto resultou, num grande número de pessoas, essa prevenção de que toda crença religiosa não pode suportar o livre exame, confundindo, numa reprovação geral, o que não eram senão casos particulares".

Erro 2: "Quando um povo, uma época deixou de crer, vê-se logo ruir a religião existente, não se vê levantar a religião nova." Dificilmente um povo fica sem religião. A maioria delas surgiu em tempos passados –  fundadas no princípio da imutabilidade , quando a ciência engatinhava os seus passos, ou seja, erigiram em crenças errôneas, que só o tempo poderia reparar. Elas caem pela força das coisas, como acontece com tudo o mais; no entanto, não se aniquilam: elas transformam-se.

"A transição não se opera jamais de maneira brusca, mas pela mistura temporária das ideias antigas e das ideias novas; é de início uma fé mista que participa de umas e das outras; pouco a pouco a velha crença se extingue, a nova cresce, até que a substituição seja completa. Por vezes, a transformação não é senão parcial; são então as seitas que se separam da religião mãe modificando alguns pontos de detalhe. Foi assim que o Cristianismo sucedeu ao paganismo, que o Islamismo sucedeu ao fetichismo árabe, que o Protestantismo, a religião grega, se separaram do Catolicismo. Por toda a parte veem-se os povos não deixar a crença senão para tomar uma apropriada ao seu estado de adiantamento moral e intelectual; mas em nenhuma parte há solução de continuidade".

"Em nossos dias se vê, é verdade, a incredulidade absoluta erigida em doutrina e professada por algumas seitas filosóficas; mas seus representantes, que constituem uma ínfima minoria na população inteligente, têm o erro de se crerem todo um povo, toda uma época, e porque não querem mais religião, pensam que sua opinião pessoal é o encerramento dos tempos religiosos, ao passo que não é senão uma transição parcial para uma outra ordem de ideias".

01 março 2019

Entre Deus e o Pecado (Filme de 1960)

"Entre Deus e o Pecado", de 1960, com duração de 146 minutos, teve a direção de Richard Brooks e as participações magistrais de Burt Lancaster e Jean Simmons. O filme mostra o poder da fé entremeado com a fraqueza da natureza humana.De um modo geral, é a luta clássica dos religiosos. 

Resumo: um vendedor beberrão e desonesto (Burt Lancaster) se junta a uma religiosa, a irmã Sharon Falconer (Jean Simmons), para pregar o evangelho nos Estados Unidos durante os anos 20. Graças a sermões empolgantes, ambos prosperam, porém, têm seus próprios pecados para atormentá-los. 

Logo no início, há uma advertência quanto aos aspectos polêmicos do filme, em que a conduta de certos pregadores zomba da credulidade das pessoas. A religião deve ser tratada como algo sagrado e os seus propagadores não têm permissão para abusar da fé dos seus adeptos. 

Burt Lancaster, o vendedor beberrão e desonesto, procura a irmã Sharon Falconer e faz-lhe uma proposta para auxiliá-la na pregação em sua Igreja. Convence-a pelo seu modo astuto de mexer com os sentimentos alheios. "Posso dizer aos pecadores que sou um vendedor e só. Eu entro em um daqueles quartos miseráveis. Estou abatido. Não tenho vendas para registrar, nada para ler. Estou só. Morro de vontade de beber. Alguns vendedores bebem por qualquer negócio. Coloco a mão em uma gaveta. O que eu encontro? Uma Bíblia!..."

Depois, em uma de suas pregações, diz: "Estava tão desesperado que poderia estar no Inferno! Eu estava no Inferno! Conhecia todos os truques de vendas. Por que não era rico? Por que não tinha sucesso? Abri a Bíblia e li salmo 18: "Deus é o meu rochedo, e o meu lugar forte. Deus é a minha força!"...No dia seguinte, entrei numa loja. Fiz uma venda, mas não fui eu que fiz e sim Jesus. Quando disse aos amigos que me dedicaria a Jesus, eles riram. Mas a irmã Falconer não riu. Ela disse: "Mostre-lhes o Inferno!"... O que é religião? Religião é amor! E o amor é a estrela da manhã e da noite! O amor eterno é um glorioso compositor! Não é o amor carnal, mas o amor divino. E de onde vem esse amor? Vem direto de Deus. ... Admito que não sou esperto como professores, escritores e agitadores. Não sei nada sobre Teologia, Filosofia, Psicologia, ideologia, nem qualquer outra "logia".  Uma coisa eu sei. Com Cristo você está salvo. Sem ele, você está perdido. Como sei que há um Deus misericordioso? Porque já vi o Diabo várias vezes... O capitão do time é o próprio Cristo!"

Este filme serve como uma advertência à nossa conduta, tanto religiosa quanto mediúnica. Se não prestarmos atenção, poderemos ser corroídos pelo orgulho e pela vaidade. Por isso, deveríamos, todas as noites, pedir aos bons Espíritos que nos auxiliem em nossa caminhada rumo à perfeição.

28 fevereiro 2019

Espiritismo: Ideia Nova

O Espiritismo é uma doutrina dos Espíritos e não de Allan Kardec. Allan Kardec apenas codificou, ou seja, reuniu o material ditado pelos Espíritos, material este colhido das diversas comunicações mediúnicas ao redor do mundo. A Doutrina Espírita fundamenta-se nas obras básicas, que são O Livro dos Espíritos, (1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868), e nas obras complementares, principalmente as doze coleções da Revista Espírita (1858-1869).

Ideia nova é uma ideia que vai de encontro com o status quo da concepção comum. É como um despertar para novas realidades. As mentes fechadas preferem ficar resistentes, empedradas no velho, no cotidiano. Mas a espiritualidade sempre manda os seus mensageiros para nos despertar do sono e acordarmos para uma nova vida, uma vida de mais conhecimentos, de mais esperança e de mais fé no futuro. 


Toda ideia nova tem os seus contraditores; o Espiritismo não fugiu à regra. No âmbito dos ensinamentos espíritas, Allan Kardec observa que a maior parte das objeções que se faz à doutrina provém de uma observação incompleta dos fatos e de um julgamento precipitado. Num dos seus diálogos com o crítico, em O Que É o Espiritismo, diz:  "Se o Espiritismo é uma falsidade ele cairá por si mesmo; se, porém, é uma verdade, não há diatribe que possa fazer dele uma mentira".


Na Revista Espírita de 1865, há dois assuntos pertinentes à ideia nova.

1) Um Sermão sobre o Progresso 
Escrevem-nos de Montauban:

Um pregador protestante, Sr. Rewile, capelão do rei da Holanda, em um discurso pronunciado diante de duas mil pessoas, se afirmou decididamente como partidário das ideias novas.

Ao comentar a frase "Eu não vim destruir a lei e os profetas, mas cumpri-la. Amai-vos de todo vosso coração, de toda vossa alma, de todo vosso pensamento, e vosso próximo como a vós mesmos", diz que a missão do Cristo entre os homens foi uma missão de caridade e de espiritualidade; sua doutrina, parecia, pois, que estava em oposição com a dos Judeus, cujo princípio era: "a observação estrita da letra," princípio que engendrava o egoísmo...

De posse do texto completo, Allan Kardec fez a seguinte observação:

"Os Espíritos disseram bem que o Espiritismo iria encontrar defensores nas próprias fileiras de seus adversários. Um tal discurso na boca de um ministro da religião, e pronunciado do alto do púlpito, é um acontecimento sério. Esperemos ver outros deles, porque o exemplo da coragem de opinião é contagioso. As ideias novas não tardarão, não mais, a encontrar combatentes devotados na alta ciência, na literatura e na imprensa; elas ali já têm mais simpatias do que se crê; isso não custa senão o primeiro passo. Até este dia pode-se dizer que, à exceção dos órgãos especiais do Espiritismo, que não se dirigem à massa do público indiferente, só nossos adversários tiveram a palavra, e Deus sabe se dela usaram! Agora a luta se inicia; que dirão quando virem nomes justamente honrados e estimados sair de suas fileiras, tomar abertamente à mão a bandeira da Doutrina? Está dito que tudo deve se cumprir."

2) Imigração dos Espíritos Superiores para a Terra.

(Sociedade Espírita de Paris, 7 de outubro de 1864. - Médium, Sr. Delanne

"Sim, grandes mensageiros estão entre vós; são aqueles que se tornarão os sustentáculos da geração futura. À medida que o Espiritismo vai crescer e se desenvolver, Espíritos de uma ordem cada vez mais elevada virão sustentar a obra, em razão das necessidades da causa. Por toda a parte Deus distribui sustentáculos para a Doutrina; eles surgirão em tempo e lugar. Assim, sabei esperar com firmeza e confiança; tudo o que foi predito acontecerá, como o disse o santo livro, até um iota".

Ainda: "Eis porque dizia há pouco que a imigração de Espíritos superiores se operaria sobre a vossa Terra para ativar a marcha ascendente de vossa Humanidade. Redobrai, pois, de coragem, de zelo, de fervor pela causa sagrada. Sabei-o, nada deterá a marcha progressiva do Espiritismo, porque poderosos protetores continuarão vossa obra". (Mesmer).



15 fevereiro 2019

Homem sem Palavra

O que acontece quando alguém se habitua a prometer coisas sem as cumprir? Isso prejudica a sua evolução espiritual? Em que sentido? Que subsídios o Espiritismo nos oferece para iluminar tal questão?

Por que compramos um produto no mercado? Porque confiamos nele, ou seja, que não esteja adulterado. E se tiver? Quebra a confiança no sistema econômico como um todo. Vejamos a questão da autenticidade da palavra. Quando não falamos a verdade, prejudicamos a confiança no sistema ao qual estamos inseridos. Consequentemente, um fica sempre desconfiando do outro.

Por imprudência o vizinho quebra o nosso telhado. Ele vem, dá uma olhada, e diz: amanhã irei consertar. Passa-se uma semana, vamos lá, e ele diz novamente: amanhã irei consertar. E nunca mais aparece para refazer o estrago. Suponhamos que essa prática seja constante na vida dessa pessoa. Como os outros o avaliam? Dizem simplesmente que é um "homem sem palavra".

O Espiritismo nos informa a respeito da lei natural, que está escrita em nossa consciência. Jesus a expressou por meio de seus ensinamentos e das suas parábolas. Esses ensinamentos não são compulsórios, mas servem como um modelo norteador de nossa conduta. Agindo de conformidade com essas instruções, seremos felizes, pois construiremos um futuro livre de amarras, amarras que nos prendem ao passado de erros.

O Espírito Emmanuel, no capítulo 38 "Se Soubéssemos", de Fonte Viva, esclarece-nos que: se o homicida, o glutão, o caluniador e o egoísta  soubessem de antemão o que a vida lhes espera além-túmulo, prefeririam não ter forças para desferir qualquer golpe. Não cumprindo a palavra dita, geramos consequências para nossas ações futuras. Contudo, o mais grave é o tipo de exemplo que passamos aos outros. Por isso, diz-se que é muito fácil escrever um livro de mais de mil preceitos morais e muito difícil de colocar em prática apenas um deles.

Jesus é o nosso mestre, o exemplo a ser seguido. Condenado injustamente, carregou a cruz e foi crucificado para nos dar o exemplo de submissão ao Pai. E nós, o que fazemos? Queremos arranjos, subterfúgios e auxílios escusos, tudo para encobrirmos a falta que cometemos, o nosso crime. Ainda que não sejamos punidos pela justiça humana, a nossa consciência não nos deixa livres. Mais cedo ou mais tarde teremos que enfrentar o problema.

Observemos os erros dos outros e reflitamos se não os cometemos também. Caso aconteça, façamos os esforços para superar tal anomalia de nossa personalidade.