11 agosto 2020

Mateus ou Marcos?

Por que o Evangelho segundo Mateus aparece primeiro no Novo Testamento?

Há muita controvérsia sobre quem escreveu primeiro o Evangelho. A posição usual é que Marcos escreveu o primeiro Evangelho. Posteriormente, Mateus e Lucas utilizaram Marcos e outra fonte que consistia em frases atribuídas a Jesus, conhecida com Q. Isso ajudou os historiadores. Mas, de onde Marcos retirou o seu material? Marcos devia dispor de tradições orais, que reuniu e colocou em determinada ordem.

Bruno da Silva Moreira, no Projeto Missionário de Deus em Marcos 6,7-13: Fundamentos Bíblicos Marcanos de uma Teologia da Missão, apresentado à Faculdade de São Bento para obtenção do título de Bacharelado em Teologia, joga uma luz sobre o impasse: quem foi o primeiro evangelista: Mateus ou Marcos?

Eis um trecho do referido trabalho:

"Recordando uma antiga tradição cristã, alguém poderá perguntar se o primeiro evangelista não foi Mateus. A tradição diz, ainda, que ele foi o primeiro a escrever um evangelho, e o fez em hebraico (ou aramaico). Mas não temos, hoje, nenhum evangelho aramaico ou hebraico, todos os quatro evangelhos que possuímos foram escritos em língua grega. Eis aí a primeira dúvida a respeito do texto de Marcos. Além disso, o evangelho de Mateus tem as características de ter sido elaborado com base em Marcos. Logo, parece altamente provável que Marcos seja o mais antigo e simples dos quatro; no entanto, é tão importante e profundo quanto os outros. Ainda, destaca-se que Marcos serviu de base para a redação de Mateus e Lucas.

Com a afirmação de que Marcos foi o primeiro evangelho, levanta-se outro problema: Será que Marcos foi o criador do gênero literário evangelho, ou, pelo contrário, tal gênero, nos escritos judaicos, gregos e romanos, já é dependente de literaturas paralelas? Para Bultmann, foi Marcos que criou esse novo tipo de literatura. Dentre os evangelistas, Marcos é o único que vai se referir ao evangelho como “Boa Notícia”. Portanto, será com ele que iremos saber o significado de Evangelho, isto é, qual é essa boa notícia.

Como já mencionado anteriormente, Marcos inaugurou no cristianismo o gênero literário denominado evangelho. Seu anúncio vivo e autêntico torna Jesus Cristo atualmente presente, pois o Evangelho é Jesus Cristo presente no anúncio da Palavra. “Nesse sentido, Marcos é original e inovador, ele próprio decidiu ser o portador de uma Boa Notícia escrita, e o conteúdo disso seria a pessoa de Jesus, suas palavras e ações. Assim, com Marcos surge esse gênero literário, ou seja, um modo de transmitir uma boa notícia”.

Ao contrário de Mateus e Lucas que tiveram durante séculos posição privilegiada, Marcos não teve o mesmo destino, ficando, assim, relegado a segundo plano pela Igreja. “Alguns escritores antigos, como Santo Agostinho, o classificaram como resumo de Mateus”. Devido a esse tipo de comentário pouco se prestou atenção a sua obra na Antiguidade e Idade Média. “Foi por volta de 1900 que os historiadores começaram a dispensar-lhe mais atenção, pensando que ele era mais merecedor de fé do que os outros evangelhos e mais próximo da história de Jesus”. Desde então o evangelho de Marcos passou a ser destaque para os estudiosos, uma fonte preferida.

Dentre os evangelhos sinóticos Marcos é o mais breve, porém isso em nada diminui o valor qualitativo de sua mensagem, o valor literário, seu anúncio e sua intenção teológica. Marcos apresenta não uma biografia de Jesus, mas uma narrativa de Cristo como evangelho (Boa Nova), isto é, uma mensagem de fé a partir da vida histórica de Jesus, à luz do desígnio de Deus."

Para mais informações, acesse http://faculdadedesaobento.com.br/files/pesquisas_43715416-03310777-8663-132018.pdf

28 julho 2020

Telecinesia

Telecinesia. De tele, distância, e cinesia, movimento, significa o movimento de objetos sem o emprego de qualquer força mecânica.  Psicocinesia, telecinesia e psi-kappa têm grande semelhança, pois traduzem a força do pensamento, e descrevem a capacidade de uma pessoa movimentar, manipular ou exercer força sobre um sistema físico sem interação física, mas usando apenas a mente. 

O termo "psicocinese" foi criado por Henry Holt (autor estadunidense, em 1914). J. B. Rhine (parapsicólogo) popularizou-o nos anos 30. O termo "telecinesia" foi criado por Alexandre Aksakof (parapsicólogo) em 1890. No Espiritismo, podemos traduzi-la como os fenômenos de efeitos físicos, notadamente levitação e transporte.

Por causa da falta de controle e de repetição dos experimentos, a comunidade científica classifica a telecinesia como pseudociência. Esquecem-se de que os fenômenos mediúnicos não seguem uma ordem dada pelo ente encarnado. Esta é razão pela qual muitos cientistas que foram combater o fenômeno acabaram se rendendo a ele. Eis alguns sábios ilustres que se dedicaram ao seu estudo: William Crookes, Gully, Lodge, Lombroso, Zöellner, Charles Richet, Aksacof, Rochas e muitos outros.

Para ilustrar este assunto, há um tópico interessante no livro O Fenômeno Espírita, de Gabriel Delanne, que se intitula "Medição da Força Psíquica". Essa força, relatada por inúmeros testemunhos, foi alvo de medições. Roberto Hare, na América do Norte, e William Crookes, na Inglaterra, submeteram-na a um exame rigorosamente científico. 

Eis o processo de Hare: "A longa extremidade de uma prancha presa a uma balança de espiral, com um indicador fixo para marcar o peso. A mão do médium foi colocada sobre a outra extremidade da prancha, de modo que, qualquer pressão que houvesse, não pudesse ser exercida para baixo; mas, pelo contrário, produzisse o efeito oposto, isto é, suspendesse a outra extremidade. Com grande surpresa sua, esta extremidade desceu, aumentando assim o peso de algumas libras na balança". 

Efeitos físicos, raps, materialização, ectoplasmia, transporte, levitação etc. são outros tantos assuntos ligados a este tema. Dediquemo-nos ao seu estudo e ampliemos o nosso conhecimento sobre a Doutrina Espírita. 

27 julho 2020

Pragmatismo e Espiritismo

Pragmatismo. É um pensamento filosófico criado, no fim do século XIX, pelo filósofo americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), pelo psicólogo William James (1844-1910) e pelo jurista Oliver Wendell Holmes Jr (1841-1935). Valoriza mais a prática do que a teoria. Seus idealizadores defendem o empirismo no campo da teoria do conhecimento e o utilitarismo no campo da moral. O critério da verdade deve ser encontrado nos efeitos e consequências de uma ideia, ou seja, em seu êxito.

O pragmático age em função da lógica, tendo sempre um objetivo definido. Quer dizer, as ideias e os atos só são verdadeiros se servirem para a solução imediata de seus problemas. Vejamos dois exemplos: 1) o bem é aquilo que tem êxito; 2) o verdadeiro é aquilo que é útil, eficaz, coisa que funciona. Ele adota o postulado básico do pragmatismo, ou seja, o significado de uma doutrina é idêntico aos efeitos práticos que resultam de sua adoção. 

Em se tratando do Espiritismo, a relação entre teoria e prática tem grande relevância, pois o verdadeiro espírita deve nortear suas ações em função dos princípios básicos codificados por Allan Kardec, a partir de 1857. Seus livros preferidos devem ser: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. Acrescentemos, também, os livros complementares e as obras mediúnicas da atualidade. 

Primeiro o estudo, depois a prática. Nesse caso, o pragmatismo espírita não deve ser analisado em virtude de uma solução imediata das dificuldades encontradas. Há muitos problemas envoltos em diversas encarnações. É o caso, por exemplo, de se querer eliminar um obsessor de uma vez por todas. Pode ser uma associação que vem de muitas encarnações passadas. Por isso, todo cuidado é pouco, no sentido de que problema seja resolvido em sua essência, na sua causa e não somente nos efeitos presentes.

Comparemos o Espiritismo prático e o Espiritismo praticado. O Espiritismo prático refere-se, geralmente, aos trabalhos de intercâmbio com o mundo espiritual, principalmente nas seções mediúnicas de desobsessão, em que o doutrinador tem a oportunidade de auxiliar os Espíritos menos felizes. O Espiritismo praticado tem um alcance maior: há necessidade da mudança de comportamento, pois o espírita sincero deve ser espírita tanto dentro de um Centro Espírita quanto no seu convívio com próximo, independentemente das circunstâncias. Nesse caso, pode haver discrepância entre o Espiritismo prático e o Espiritismo praticado. 

Estudemos o Espiritismo, reflitamos sobre os seus postulados básicos e, sempre que possível, acionemos a nossa força interior para por em prática esses ensinamentos.




25 julho 2020

Trabalhos à Distância

Nos trabalhos à distância, o assistido deve estar ligado, em pensamento, com os médiuns que lhe irão irradiar o fluido magnético.

Devido à pandemia do Novo Coronavírus (Covid-19), muitas casas de oração resolveram fazer seus trabalhos pela internet. Há, assim, cultos cristãos, cultos evangélicos e muitas palestras espíritas, todos procurando se adaptar à quarentena imposta pelos nossos representantes governamentais. Com isso, o trabalho à distância aumentou sobremaneira nesse período de isolamento social.  


Os trabalhos à distância já são praticados na maioria das Casas Espíritas. Um grupo de médiuns se reúne em uma determinada sala, o dirigente faz o preparo de ambiente, há a leitura de uma mensagem evangélica e, em seguida, a emissão de irradiações mentais para alguma pessoa necessitada. Neste momento de pandemia, os Centros Espíritas estão fechados, e esse trabalho está sendo feito com os médiuns em suas residências.  


Pergunta-se: o trabalho virtual tem a mesma eficácia do que o trabalho presencial? Não resta dúvida que a presença da pessoa, numa Casa Espírita, têm mais relevância, pois nela há todo um preparo de ambiente, higienização, passes de limpeza, entre outros. Em nossa residência, nem sempre temos o mesmo preparo. Não há um lugar totalmente tranquilo como numa câmera de passes em que o ambiente é preparado com horas de antecedência, como nos informam os nossos amigos espirituais. O mais importante de tudo é o teor dos pensamentos, pois a mente está na base de qualquer evento mediúnico.


Sobre o pensamento e a irradiação mental, há muitos livros. Entre eles, podemos consultar Os Mecanismos da Mediunidade, pelo Espírito André Luiz que, em seus 26 capítulos, informa-nos sobre ondas, percepções, fluido cósmico, circuito elétrico, reflexos, reflexo condicionado, hipnotismo, efeitos físicos, efeitos intelectuais, ideoplastia, psicometria, desdobramento...

Frase de destaque: "Emitindo um pensamento, entramos em contato com todos os pensamentos que se lhes assemelham". Mais especificamente, a telementação e reflexão comandam todos os fenômenos de associação. "Emitindo uma ideia, passamos a refletir as que se lhe assemelham, ideia essa que para logo se corporifica, com intensidade correspondente à nossa insistência em sustentá-la, mantendo-nos, assim, espontaneamente em comunicação com todos os que nos esposem o modo de sentir".


O assistente Áulus, no capítulo 25 "Em torno da Fixação Mental", de Nos Domínios da Mediunidade, esclarece-nos o caso de um indivíduo que ficou séculos imobilizado nas ideias de vingança. Isso acontece porque, depois da morte do corpo físico, continuamos desenvolvendo os pensamentos que cultivávamos na experiência da carne.


Então, qualquer esforço que façamos para mudar uma atitude, um pensamento, uma fixação mental, tem um peso muito grande no equilíbrio mental dos habitantes do planeta.



24 julho 2020

Mediunidade e Oração

"Mediunidade e Oração" é o título do capítulo 20 do livro "Nos Domínios da Mediunidade", pelo Espírito André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier. Faremos, a seguir, um pequeno resumo.

O início do capítulo se dá da seguinte forma: Elisa, de aproximadamente 70 anos, está para desencarnar e o seu infortunado filho, assassinado numa noite de extravagância, apresenta-se ao seu lado. A genitora recorda-se dele como a um herói, e, a evocá-lo incessantemente, retém o infeliz ao pé do próprio leito.

Em face da tristeza de seus parentes, houve necessidade da prece. "À medida que orava (a dona da casa), funda modificação se lhe Imprimia ao mundo interior. Os dardos de tristeza, que lhe dilaceravam a alma, desapareceram ante os raios de branda luz a se lhe exteriorizarem do coração". Foi como acender uma lâmpada na escuridão: "vários desencarnados sofredores penetraram o quarto, abeirando-se dela, à maneira de doentes, solicitando medicação".

Parecer do instrutor Áulus: "São companheiros que trazem ainda a mente em teor vibratório idêntico ao da existência na carne. Na fase em que estagiam, mais depressa se ajustam com o auxílio dos encarnados, em cuja faixa de impressões ainda respiram".

Tema sugerido pelos instrutores do espaço para meditação: "necessidade do trabalho e perdão". Anésia, a esposa de Jovino, recebendo a influenciação dos mentores espirituais falou sabiamente sobre os impositivos do serviço e da tolerância construtiva, em favor da edificação justa do bem. Começa dizendo que estão sozinhas, mas com o passar do tempo, percebem a presença de muitos irmãos desencarnados que acompanham o culto da oração.

Anésia pede socorro aos amigos espirituais. Estes a levam, em sonho, até o marido que está num clube de dança. Teve um choque. O assistente Áulus, no entanto, disse: "Minha irmã, recomponha-se. Você orou, pedindo assistência espiritual, e aqui estamos, trazendo-lhe solidariedade. Reanime-se! Não perca a esperança!"

Sobre o casamento, Áulus nos esclarece: 1) "o casamento não é uma simples excursão no jardim da carne. O lar é uma escola em que as almas se reaproximam para o serviço da sua própria regeneração, com vistas ao aprimoramento que nos cabe apresentar de futuro"; 2) o casamento é como uma luz que brilha mais alto, inspirando a coragem da renúncia e do perdão incondicionais, em favor do ser e dos seres que nós amamos".

Os méritos da oração: "Em todos os processos de nosso intercâmbio com os encarnados, desde a mediunidade torturada à mediunidade gloriosa, a prece é abençoada luz, assimilando correntes superiores de força mental que nos auxiliam no resgate ou na ascensão".

Por fim, o precioso ensinamento sobre a oração. "Anésia, mobilizando-a, não conseguiu modificar os fatos em si, mas logrou modificar a si mesma. As dificuldades presentes não se alteraram. Jovino continua em perigo, a casa prossegue ameaçada em seus alicerces morais, a velhinha doente aproxima-se da morte, entretanto, nossa irmã recolheu expressivo coeficiente de energias para aceitar as provações que lhe cabem, vencendo-as com paciência e valor. E um espírito transformado, naturalmente transforma as situações".
XAVIER, F. C. Nos Domínios da Mediunidade, pelo Espírito André Luiz. 10. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1979.

22 julho 2020

Sinóticos: Evangelho segundo Mateus

Mateus (ou Levi), segundo a tradição, seria um "publicano", isto é, um coletor de impostos convertido por Jesus e tornado um de seus apóstolos.

Evangelho - do grego euangellion, pelo latim evangelho significa originalmente "boa notícia". Para os cristãos, a "boa nova" de Jesus Cristo. Os Evangelhos podem ser dispostos da seguinte forma: 1) O Evangelho de Jesus; 2) O Evangelho dos Apóstolos; 3) Os Quatro Evangelhos (Lucas, Mateus, Marcos e João"); 4) O Quinto Evangelho (Os Atos dos Apóstolos e as Cartas Apostólicas); 5) Evangelhos Apócrifos. (1)

SinóticosDo grego synóptikos "percebido com uma só olhada". São os Evangelhos segundo Marcos, Mateus e Lucas. Os três seguem uma mesma linha de raciocínio. Contudo, há diversidade entre eles. Cada evangelista tem um material próprio não transmitido por outros. Mateus tem cerca de 330 versículos exclusivamente seus; Marcos, 30; Lucas, 548. Algumas vezes não seguem a mesma ordem na disposição cronológica dos fatos.

Cada evangelista tem sua visão de Jesus. Mateus apresenta Jesus como o Messias prometido por Deus no Antigo Testamento; Marcos entende Jesus como o servo de Deus que veio para a terra a fim de cumprir as ordens do seu Pai; Lucas anuncia Jesus como o Filho do Homem, como forma de mostrar o lado humano de Cristo; João enaltece o lado divino de Jesus, chamando-o de Filho de Deus. (2)

O problema das semelhanças e divergências doutrinárias. Nos Sinóticos, a carreira missionária de Jesus é de apenas um ano; é de três no Evangelho segundo João. Nos Sinóticos, a atividade de Jesus se desenvolve sobretudo na Galileia; no Evangelho segundo João, na Judeia. O nascimento milagroso de Jesus não figura em Marcos e muito menos em João. Em Mateus, Jesus teria nascido no ano IV antes da era cristã; segundo Lucas, no ano VI depois da era cristã. (3)

Quanto ao material utilizado. Admite-se a anterioridade de Marcos ou de um Proto-Marcos que teria sido utilizado Mateus e por Lucas. 90% da narração de Marcos são encontradas em Mateus, sob forma quase sempre abreviada. Como aferir a cópia feita por Mateus? Basta analisar os relatos que mostram uma notável concordância verbal, mais fácil de explicar se dois dos três relatos tiverem sido copiados do terceiro. Compare, por exemplo, Mateus 9, 9-13 com marcos 2, 1-17 e Lucas 5, 27-32. (4)

(1) BATTAGLIA, 0. Introdução aos Evangelhos — Um Estudo Histórico-crítico. Rio de Janeiro: Vozes, 1984.

(2) https://www.significados.com.br/novo-testamento/

(3) CHALLAYE, F. As Grandes Religiões. São Paulo: Ibrasa, 1981.

(4) RICHES, John. Bíblia: Uma Breve Introdução. Tradução de Denise Bottmann. Porto Alegre, RS: L&PM, 2016.



21 julho 2020

Evangelho e Pregação

O Evangelho vem do grego euangelion (eu, bom, -angelion, mensagem). Toma a forma latina "evangelho" e significa, na sua origem, "boa notícia".  Entende-se, também, como a Doutrina de Cristo ou cada um dos quatro livros principais do Novo Testamento. 

A iluminação súbita de uma alma traz como consequência o desejo de convencer os outros a pensar de forma semelhante. Paulo de Tarso é um exemplo clássico. Certa feita, o perseguidor dos cristãos, estando a caminho de Damasco, vislumbra a presença de Jesus e fica cego. Dias depois, recupera a sua visão, entra em contato com os textos evangélicos e quer transmitir a "boa nova" aos demais. Teve  uma grande decepção.

A pregação evangélica exige esforços de compreensão do "eu espiritual". Os homens de vida pura e reta estão sempre prontos a plantar o bem e a justiça, enquanto os culpados têm que testemunhar no sofrimento próprio para ensinar com êxito. Além disso, tudo o que é de Deus reclama paz e reflexão profunda. Jesus ficara 30 anos na escuridão, para conviver apenas três anos conosco; João Batista meditou longo tempo no deserto, para desbravar as estradas do Salvador.

A precipitação é o grande entrave no processo de pregação dos ensinos de Cristo. A divulgação dos preceitos evangélicos assemelha-se aos mesmos cuidados que devemos ter para com uma planta pequenina. Se lhe dermos água em demasia, morre; se, insuficiente, também. Faltando-nos a preparação adequada, poderemos estar criando, na mente daqueles que nos ouvem, uma imagem deturpada das verdades cristãs. Cedo ou tarde teremos que responder por isso.

A perseverança, a paciência e a calma são as virtudes que devemos exercitar, caso não tenhamos ainda a oportunidade de difundir as verdades espirituais. É possível que não estejamos "aptos" para a missão apostólica a nós reservada. Lembremo-nos de que na casa do Pai há muitas moradas e que quando o servidor estiver pronto o trabalho aparecerá.

Esperemos, confiantemente, as determinações do Alto a nosso respeito, mantendo-nos em estudo, a fim de adquirirmos as condições necessárias para o cumprimento de nossos deveres junto à sociedade em que vivemos.




10 julho 2020

Doutrinação de Espíritos

Doutrinação. É uma terapia de amor em que o doutrinador procura esclarecer os Espíritos maus e sofredores a trilharem o caminho do bem, da evolução espiritual. Doutrinador. É a pessoa que se incumbe de dialogar com os Espíritos desencarnados, necessitados de ajuda e esclarecimento. Espíritos. Seres inteligentes da criação que povoam o Universo, fora do mundo material.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, diz-nos que há diferentes ordens de Espíritos, desde os mais evoluídos aos mais atrasados. Muitos deles apresentam imperfeições de que ainda não se livraram. Espíritos há que já desencarnaram e não o sabem. Por isso, acabam influenciando os seus entes queridos e amigos mais próximos. Em muitos casos, a afinidade é bastante intensa. Daí, trabalho de doutrinação dos Espíritos, chamados corriqueiramente de "Espíritos obsessores". 

O objetivo da doutrinação se resume em esclarecer os Espíritos ignorantes, estimular os Espíritos fracos e confortar os Espíritos sofredores. Há que se ter em mente que os Espíritos não se tornam santos simplesmente porque deixaram a vestimenta física. Continuam a agir da mesma forma só que sem o corpo físico. Ao dirigente-esclarecedor cabe dialogar com esses Espíritos de uma forma respeitosa no sentido de abrir-lhes a mente para o futuro que os aguarda. Para tanto, necessita de uma sólida formação doutrinária, familiaridade com o Evangelho de Jesus e autoridade moral.

Espíritos encontram-se em diversos graus de evolução. Eis alguns exemplos, extraídos do livro Diálogo com as Sombras, de Hermínio C. Miranda: 1) Espíritos sofredores. Procurar convencê-los de que os sintomas apresentados são reflexos do corpo físico; 2) Espíritos maldosos. Mostrar-lhes as recompensas pela prática do bem, alertando-os para se afastarem do mal; 3) Espíritos recalcitrantes. Respeitar o livre-arbítrio do Espírito manifestante. Caso não se obtenha o êxito esperado, convidá-lo para voltar outro dia.

Allan Kardec,  na página 153 da "Revista Espírita", dá algumas instruções no trato com os Espíritos. Ele diz que tanto com Espíritos benevolentes como com Espíritos sofredores ou maus, é preciso gravidade, posto que temperada de benevolência. "É o melhor meio de lhes impor e os manter à distância, obrigando-os ao respeito. Se descerdes até a familiaridade com os que vos são inferiores, do ponto de vista moral e intelectual, não tardareis a dar entrada à sua influência perversa. Ficar de guarda. Variar vossa linguagem conforme a dos Espíritos que se comunicam". 

Os Espíritos menos felizes pululam ao redor dos seres humanos. Muitos deles nem suspeitam do mal que fazem aos encarnados. Nesse caso, a tarefa do doutrinador é sumamente nobre, pois tem a oportunidade de alertá-los e convidá-los para uma tomada de consciência à luz da moral do Cristo.

Referência Bibliográfica

KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1865.

MIRANDA, H. C. Diálogo com as Sombras (Teoria e Prática da Doutrinação). 3. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1982.

25 junho 2020

Bem-Aventurados os Aflitos

Aflição Agonia, atribulação, angústia, sofrimento. Na essência, é o reflexo intangível do mal forjado pela criatura que o experimenta. Frequentemente, aflição é a nossa própria ansiedade, respeitável mas inútil, projetada no futuro, mentalizando ocorrências menos felizes que, em muitos casos, não se verificam como supomos e, por vezes, nem chegam a surgir. (Equipe FEB, 1997)

As causas das aflições devem ser procuradas tanto no presente (atual encarnação) como numa existência passada. Devemos partir do princípio de que elas são justas. Se assim não pensarmos, poderemos cair no erro de jogar a culpa nos outros ou em Deus. Quer dizer, tudo o que se nos acontece tem um motivo, embora nem sempre o saibamos explicar com clareza. Assim, diante de um sofrimento, consultemos friamente a nossa consciência: Se eu tivesse, ou não tivesse, feito tal coisa eu não estaria em tal situação".

Suicídio, mortes prematuras, doenças prolongadas, tuberculose, Aids etc. são alguns exemplos de dor e sofrimento. Ao morrer um jovem e não um velho, dizemos que Deus é injusto, e nos revoltamos contra Ele. Esquecemo-nos de que a morte é preferível aos desregramentos vergonhosos que desolam as família honradas, partem o coração da mãe, e fazem, antes do tempo, branquear os cabelos dos pais. (Kardec, 1984, cap. 5, it. p. 85 a 87)

Melancolia, Infelicidade, remorso, tormentos e apatia são alguns dos estados de nossa alma. Em se tratando da melancolia, podemos sentir uma vaga tristeza que se apodera de nossos corações e achamos a vida tão amarga. É que o nosso Espírito aspira à felicidade e à liberdade e que, preso ao corpo que lhe serve de prisão, se extenua em vão esforços para dele sair. Mas vendo que são inúteis, cai no desencorajamento  e na languidez. (Kardec, 1984, cap. 5, it. 25, p. 90)

A dor não é castigo: é contingência inerente à vida, cuja atuação visa a restauração e o progresso. A dor-expiação é cármica, de restauração, é libertação de carga que nos entrava a caminhada; é reajuste perante a vida, reposição da alma no roteiro certo. Passageira, nunca perene. A dor-evolução, tem existência permanente, embora variável segundo as experiências vividas pelo espírito.  Ela acompanha o desenvolvimento, é sua indicação, é sinal de dinamização, inevitável manifestação de crescimento. 

"Saibamos sofrer e sofreremos menos". Eis o dístico que devemos nos lembrar em todos os estados depressivos de nossa alma, a fim de nos fortalecermos para o futuro. 

Bibliografia Consultada 

CURTI, R. Bem-Aventuranças e Parábolas. São Paulo, FEESP, 1982.
EQUIPE DA FEB. O Espiritismo de A a Z. Rio de Janeiro, FEB, 1995.
IDÍGORAS, J. L. Vocabulário Teológico para a América Latina. São Paulo, Edições Paulinas, 1983.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo, IDE, 1984.
XAVIER, F. C. Ação e Reação, pelo Espírito André Luiz. 5. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.

02 junho 2020

Via-Crúcis

Via-Crúcis, também conhecida por Via-Sacra, Via Dolorosa, na tradição cristã, representa o trajeto que Jesus seguiu em Jerusalém, carregando a cruz, desde o pretório ou tribunal de Pilatos até o Calvário. Há, porém, uma pequena diferença, ou seja, a Via-Crúcis e a Via Dolorosa dizem respeito ao caminho percorrido por Cristo; a Via-Sacra, ao exercício de piedade que consiste na meditação sobre cada um desses episódios.

O sentido figurado da Via Dolorosa: conjunto das orações que se dizem diante desses quadros; sacrifício; padecimento. Não se sabe a data original dessa devoção, mas houve grande incremento na época das Cruzadas, quando os fiéis regressavam de Jerusalém.

Os quadros (estações ou passos) surgiram paulatinamente e representam as cenas da Paixão de Cristo a serem meditadas pelos Seus seguidores e devotos:

Estação 1: Jesus é condenado à morte;
Estação 2: Jesus carrega a cruz às costas;
Estação 3: Jesus cai pela primeira vez;
Estação 4: Jesus encontra a Sua Mãe;
Estação 5: Simão de Cirene ajuda Jesus;
Estação 6: Verônica limpa a face de Jesus;
Estação 7: Jesus cai pela segunda vez;
Estação 8: Jesus encontra as mulheres de Jerusalém;
Estação 9: Jesus cai pela terceira vez;
Estação 10: Jesus é despojado de Suas vestes;
Estação 11: Jesus é pregado na cruz;
Estação 12 : Jesus morre na cruz;
Estação 13: Jesus é descido da cruz;
Estação 14: Jesus é sepultado.

Estacões ou passos, que assim se foram divulgando, não tinham número fixo. Foi somente no século XVIII que a Igreja fixou em 14 o número de estações e definiu o seu objeto a partir das narrações evangélicas e de alguns episódios apócrifos mais do gosto popular, como o encontro com a Verônica.

Bibliografia Consultada

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO ILUSTRADO VEJA LAROUSSE. São Paulo: Abril, 2006.
ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]
GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.].

24 abril 2020

Compilação de Temas Diversos

Fomos, ao longo do tempo, discutindo diversos temas sob a ótica espírita, no grupo de estudo denominado de "Aprofundamento Doutrinário", do Centro Espírita Ismael, situado à Av. Henri Janor, 141, São Paulo, Capital. Em alguns desses temas, fizemos uma compilação de postagens do nosso site, do nosso blog, da internet, de livros e de algumas mensagens espíritas.

Esses documentos foram postados no Google Sites e no OneDrive, Conforme:

Alguns Temas

Agêneres
Aparições, Fantasmas e Assombrações
Bíblia
Clichês Mentais
Conservadorismo e Liberalismo
Cruzadas
Destino Manifesto
Emmanuel, Espírito
Evangelhos Apócrifos
História do Espiritismo
Judas Iscariotes
Mente Rígida e Autocrítica
Mentira
Salvação
Taoísmo

Demais Temas

Acessar a Página Inicial do Google Sites

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21 abril 2020

Tiradentes

"Tiradentes" era o apelido atribuído a Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), um dos líderes da Inconfidência Mineira, e o único a receber a pena capital (morte pela forca). Considerado um herói nacional por ter lutado pela independência do Brasil, num período em que o Brasil sofria o domínio e exploração portuguesa.

O Espírito Irmão X, no capítulo XIV "A Inconfidência Mineira", do livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, esclarece-nos a respeito desse episódio da história econômica e política brasileira.

Por esse tempo, o Brasil sofria o máximo de vexames... "Os padres queriam todo o ouro das minas, para a edificação das suas igrejas suntuosas; os membros da magistratura consideravam de necessidade enriquecer-se, antes de regressarem a Portugal, com opulentas aquisições; os agentes do fisco executavam as determinações da corte de Lisboa, árvore farta e maravilhosa, onde todos os parasitas da nobreza iam sugar 84 a seiva de pensões extraordinárias e fabulosas".

Havia muitos brasileiros, que estudavam na França, e de lá vinham abarrotados dos princípios filosóficos de Rousseau e dos enciclopedistas. Sentem-se compenetrados de que poderiam tomar as rédeas dos seus próprios destinos. Iniciam-se os esboços da conspiração.

Dos vários encontros realizados para tal finalidade, escolheu-se a personalidade de Tiradentes para ser o líder do movimento. Os desejos de liberdade foram vetados por autoridades portuguesas tão logo ficaram sabendo do ocorrido, mandando imediatamente extinguir a figura que se sobressaia nas ditas articulações.

Tiradentes entrega o espírito a Deus em 21 de abril de 1792. Mas, nesse momento, Ismael recebia em seus braços carinhosos e fraternais a alma edificada do mártir. Eis, as suas palavras:

"— Irmão querido — exclama ele — resgatas hoje os delitos cruéis que cometeste quando te ocupavas do nefando mister de inquisidor, nos tempos passados. Redimiste o pretérito obscuro e criminoso, com as lágrimas do teu sacrifício em favor da Pátria do Evangelho de Jesus. Passarás a ser um símbolo para a posteridade, com o teu heroísmo resignado nos sofrimentos purificadores". 

01 abril 2020

Louco! Esta Noite Pedirão tua Alma

O texto evangélico: E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E arrazoava ele entre si, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? (Lucas 12:16-20)

A massificação das informações sobre o coronavírus (Covid-19) está atormentando todos os viventes deste planeta. A maioria das pessoas, de semblantes tristes, sentem mais de perto o medo da morte. E se Deus houvesse por bem nos tirar a vida, como está expresso no texto acima? Estamos preparados para o desencarne? O que nos espera no além-túmulo?

Allan Kardec, no capítulo II ("Temor da Morte"), do livro O Céu e o Inferno, analisa as causas o temor da morte e a razão de os espíritas não a temerem. O temor é consequência do instinto de conservação. À medida que o ser humano vai penetrando mais amiudamente na compreensão da vida futura, o temor vai diminuindo, pois uma vez conhecida a sua missão na terra, aguarda-lhe o fim calma, resignada e serenamente.

"A certeza de reencontrar seus amigos depois da morte, de reatar as relações que tivera na Terra, de não perder um só fruto de seu trabalho, de engrandecer-se incessantemente em inteligência, perfeição, dá-lhe paciência para esperar e coragem para suportar as fadigas transitórias da vida terrena. A solidariedade entre vivos e mortos faz-lhe compreender a que deve existir na Terra, onde a fraternidade e a caridade têm desde então um fim e uma razão de ser, no presente como no futuro".

Ao tratar de por que os espíritas não temem a morte, enfatiza que a Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva da vida futura, que não é uma quimera, mas o resultado da observação. Não foram os homens que a descobriram por suas pesquisas, mas, sim, os próprios habitantes do além que vieram relatar a dinâmica do mundo espiritual. Há, assim, Espíritos de todo o grau de evolução. Isso fornece ao espírita estímulos de serenidade nos últimos momentos de sua passagem terrena. 

Para os espíritas, a alma não é uma abstração. Ela tem um corpo espiritual, uma individualidade que acompanha a trajetória de sua evolução, pois a passagem para outra dimensão apenas muda a nossa vestimenta, mas os nossos conhecimentos e as nossas ações continuam intactos em nós, dando-nos condições de habitar regiões mais felizes ou menos felizes dependendo do que fizemos com o tempo que nos foi concedido viver aqui.



30 março 2020

Tudo Depende de Tudo

Questão: o coronavírus (Covid-19) pode ocasionar uma volta ao estado natural?

Os efeitos do vírus chinês, o Covid-19, está causando um pânico nas pessoas e nos países. Cada ente administrativo quer fechar as suas fronteiras: um município não deixa pessoas de outros municípios entrarem em seu território; um estado fecha sua fronteira com outro estado; um país fecha os seus aeroportos com outros países...

Tudo depende de tudo. O choro no deserto pode ser ouvido milhares de quilômetros de distância. Quem poderia prever que Jesus, simples carpinteiro, pudesse mudar a face do planeta Terra, e tivesse tantos seguidores ao longo tempo? Evoquemos o pensamento e suas influências. Um indivíduo, ao pensar, emite vibrações para sua família, esta para o bairro, o bairro para a cidade, a cidade para o Estado, o Estado para país, país para o mundo, o mundo para o Universo. O vírus surgiu na China, mas já se alastrou para o mundo todo.

O Dr. Walter Veith, em entrevista publicada em 25/03/2020, com o título Essa Crise Mundial foi Planejada?, relata sobre um documento alemão ("End of Days", de Sylvia Browne), elaborado em 2012, que chegou às suas mãos, tratando sobre uma crise que possivelmente ocorreria no mundo em 2020. Este mesmo documento diz respeito a um vírus que viria da Ásia e se alastraria em todo o mundo causando um verdadeiro caos. De acordo com suas análises, os indivíduos vão acabar se isolando, e por falta de alimento, voltariam ao campo e produziriam para a sua própria subsistência.

Reflitamos sobre a Lei do Progresso, em O Livro dos Espíritos.

O estado natural é a infância da Humanidade e o ponto partida do seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, sendo perfectível, procura incessantemente o seu melhoramento como resultado de uma lei natural, a Lei do Progresso. Entretanto, o progresso moral e o progresso intelectual não caminham juntos. A bem dizer, o progresso moral é a consequência do progresso intelectual, visto o progresso intelectual fornecer meios para o desenvolvimento do livre-arbítrio, o que aumenta a responsabilidade do homem pelos seus atos.

Os que tentam impedir o progresso agem como a pedra sob uma roda; retardam o seu andamento, mas acabam esmagados por ela. Quando, entretanto, um povo não caminha com a pressa desejável na evolução natural, Deus, através de suas leis, lhe suscita o progresso com um grande abalo físico ou moral. O maior obstáculo ao progresso moral são o orgulho e o egoísmo, que desenvolvem a ambição e a paixão pelo poder e pelas riquezas, na medida em que desenvolvem a inteligência, mas sem amor.

A lei do progresso, que é inexorável, encaminha o homem para a civilização cristã. Nessa civilização haverá menos egoísmo, cupidez e orgulho, os costumes serão mais intelectuais e morais do que materiais e a bondade e o amor ao próximo serão condutas intrínsecas do todo o indivíduo. Esta é a civilização que o Espiritismo estabelecerá na Terra. Como se vê pelas explicações dos Espíritos e os comentários de Kardec, a civilização incompleta em que vivemos é apenas uma fase de transição entre o mundo pagão da Antiguidade e o mundo cristão do Futuro.

Por essas orientações dadas pelos Espíritos, não é razoável pensarmos numa volta ao estado natural, porque não reflete o processo evolutivo do Espírito.



26 março 2020

Número e Fatalidade

Allan Kardec, na Revista Espírita de julho de 1868, discorre sobre uma pergunta que lhe foi feita várias vezes: o que você pensa sobre a concordância dos números, e se acredita no valor dessa ciência. Começa a sua análise, dizendo que ainda não tinha pensado no assunto. Observara alguns fatos de concordâncias singulares entre as datas e certos acontecimentos, mas em pequeníssimo número para deles tirar uma conclusão mesmo aproximativa.

Não via razão para tal concordância, mas o fato de não se compreender alguma coisa não significa que não seja verdadeira. Essa correlação pode ser traduzida por números. Contudo, não podemos dar-lhe o nome de ciência. "Uma ciência é um conjunto de fatos bastante numerosos para deles deduzir a regras, e suscetíveis de uma demonstração; ora, no estado de nossos conhecimentos, seria de toda impossibilidade dar dos fatos desse gênero uma teoria qualquer, nem nenhuma explicação satisfatória. Não é, ou, querendo-se, não é ainda uma ciência, o que não implica em sua negação".

Devemos estudar os fatos segundo a duração relativa. Em se tratando dos astros, os termos de comparação variam segundo os mundos, porque fora dos mundos o tempo não existe: não há unidade para medir o infinito. "Não parece, pois, que possa aí haver uma lei universal de concordância para a data dos acontecimentos, uma vez que a suposição da duração varia segundo os mundos, a menos que não haja, sob esse aspecto, uma lei particular para cada mundo ligada à sua organização, como delas há uma para a duração da vida de seus habitantes".

Caso essa lei realmente exista, ela será um dia reconhecida pelo Espiritismo, que é progressista e assimila todas as verdades, quando elas são constatadas. Tendo esta questão sido posta aos Espíritos, foi respondido:

"Certamente, há no conjunto dos fenômenos morais, como nos fenômenos físicos, relações fundadas sobre os números. A lei da concordância das datas não é uma quimera; é uma daquelas que vos serão reveladas mais tarde, e vos darão a chave de coisas que vos parecem anomalias; porque, crede-o bem, a Natureza não tem caprichos; ela caminha sempre com precisão e infalivelmente. Essa lei, aliás, não é tal como a supondes; para compreendê-la em sua razão de ser, seu princípio e sua utilidade, vos será preciso adquirir ideias que ainda não possuis, e que virão com o tempo. Para o momento, esse conhecimento seria prematuro, razão por que ele não vos é dado; seria, pois, inútil insistir. Limitai-vos a recolher os fatos; observai sem nada concluir, de medo de vos enganar. Deus sabe dar aos homens o alimento intelectual à medida que estão em estado de suportá-lo. Trabalhai sobretudo pelo vosso adiantamento moral, é o mais essencial, porque será por aí que merecereis possuir novas luzes."

Na Natureza, muitas coisas estão subordinadas a leis numéricas, suscetíveis dos mais rigorosos cálculos, principalmente o das probabilidades. É certo, pois, que os números estão na Natureza e que as leis numéricas regem a maioria dos fenômenos da ordem física. Ocorre o mesmo com os fenômenos de ordem moral e metafísica? Se os acontecimentos que decidem a sorte da Humanidade têm seus vencimentos regulados por uma lei numérica, é a consagração da fatalidade, e, então, em que se torna o livre-arbítrio do homem?

O Espiritismo jamais negou a fatalidade de certas coisas, mas ela não entrava o livre-arbítrio. Vejamos dois exemplos: 1) o ser humano deve fatalmente morrer; mas se ele apressa voluntariamente a sua morte pelo suicídio ou por excessos, ele age em virtude de seu livre-arbítrio; 2) o ser humano deve comer para viver: é da fatalidade; mas se come além do necessário, pratica ato de liberdade. A Natureza tem suas leis fatais que opõem ao homem uma barreira, mas ao lado da qual pode se mover à vontade.

"O homem pode, pois, ser livre em suas ações, apesar da fatalidade que preside ao conjunto; é livre em uma certa medida, no limite necessário para lhe deixar a responsabilidade de seus atos; se, em virtude dessa liberdade, ele perturba a harmonia pelo mal que faz, se coloca um ponto de parada à marcha providencial das coisas, ele é o primeiro a sofrer por isto, e como as leis da Natureza são mais fortes do que ele, acaba por ser arrastado na corrente; ele sente, então, a necessidade de reentrar no bem, e tudo retoma o seu equilíbrio; de sorte que o retorno ao bem é ainda um ato livre, embora provocado, mas não imposto, pela fatalidade".

Fonte de Consulta 

KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1968, "A Ciência da Concordância dos Números e a Fatalidade"

24 março 2020

Coronavírus e Espiritismo

O Novo Coronavírus ou Covid-19 é um vírus de origem chinesa. Ele ataca principalmente as vias respiratórias e, em alguns casos, leva o indivíduo ao óbito. Para evitar a pandemia, pede-se que as pessoas fiquem em casa e tenham o menos contato presencial possível com os outros indivíduos, principalmente os mais idosos.

Qual a razão desse fenômeno? É um castigo divino? Como afetará a vida econômica do mundo todo? Que atitudes tomar? Como entendê-lo sob a ótica espírita? Comecemos a nossa análise pela expressão: "o acaso não existe". Se o fenômeno surgiu, então há uma razão, razão esta que muitas vezes não está ao nosso alcance.

Reflitamos, pois, sobre a geração nova.

Allan Kardec trata da "Geração Nova", um subtema do capítulo XVIII, São Chegados os Tempos, de seu livro A Gênese. Por Geração Nova, entende-se uma humanidade regenerada em que a inteligência e a razão caminham irmanadas com o sentimento inato do bem. Será que a humanidade atual apresenta essa característica? Não estamos mais preocupados com a mentira, o erro e as satisfações materiais? 

Geração nova versus geração velha. A geração nova caracteriza-se pela aquisição da inteligência e da razão, ainda incipientes, juntas ao sentimento inato do bem. Não se comporá exclusivamente de Espíritos superiores, mas daqueles que já tenham feito algum progresso moral e intelectual e se acham em condições de dar continuidade ao progresso já alcançado. geração velha, composta de Espíritos atrasados, caracteriza-se pela revolta contra Deus, pelo se negarem a reconhecer qualquer poder superior aos poderes humanos. Neles há a propensão instintiva para as paixões degradantes, para os sentimentos antifraternos de egoísmo, de orgulho, de inveja, de vaidade etc.

Chegado o tempo, haverá grande emigração de Espíritos. Os Espíritos que praticam o mal pelo mal serão recambiados para outros orbes, mais inferiores do que o Planeta Terra. É da lei do progresso que essas coisas acontecem. É que o Planeta Terra também está passando por uma transformação, ou seja, de mundo de provas e expiações para o mundo de regeneração. Neste novo mundo, os Espíritos recalcitrantes no mal não terão mais vez e precisarão ir para outro lugar, para não atrapalhar o progresso dos que aqui estarão reencarnados.

Quer queiramos quer não queiramos, o nosso planeta segue o seu caminho evolutivo. Ele está passando para um mundo de regeneração - em que o bem deve predominar sobre o mal. Quem sabe não está chegando a hora? Quem sabe esse momento, tal como ocorreu na Idade Média, não seja motivo de cada um voltar para dentro de si mesmo, buscando uma nova maneira de entender a vida, a alma e Deus?  

Suponha que esse vírus nos ataque e nos tire a vida. O espírita deve temer a morte? Em hipótese alguma, pois ele tem a certeza da imortalidade da alma, de que sua essência continua intacta no verdadeiro mundo, no mundo espiritual.  

22 janeiro 2020

Jesus: Um Retrato do Homem (Livro)

A. N. Wilson, colaborador de publicações como Times Literary Supplement, New Statesman, Spectator e Observer, publicou, em 2000, Jesus: Um Retrato do Homem. Começa o prefácio com a seguinte frase: "O Jesus da História e o Cristo da fé são dois personagens distintos, com histórias muitos diferentes. É difícil reconstruir o primeiro, e, na tentativa de fazê-lo, é provável que pratiquemos dano irreparável contra o segundo". 

Como a fé cristã enaltece o mito do Salvador, nascido em Belém, é muito difícil, inclusive para o cristão, aceitar o Jesus histórico, que nasceu na Galileia. 

Daí, o seu questionamento. Quais são as fontes de nossas crenças sobre Jesus? Como saber se são fidedignas? É possível a um leitor do século XX, que consulte tais fontes, acercar-se desse homem, ou imaginar, de algum modo mais preciso o que ele pode ter sido? Até que ponto a fé cristã depende da História?... A história de uma criança ter nascida num estábulo em Belém porque não havia um quarto vago numa estalagem é um dos mitos mais poderosos jamais servidos à raça humana. Nenhum dos Evangelhos diz que ele nasceu num estábulo, e praticamente todos os detalhes das cenas da natividade. 

A partir de uma análise desses textos e de outros registros da época, propõe novas versões sobre diversas passagens da vida de Jesus, como o seu nascimento em Belém, sua vida como carpinteiro em Nazaré ou na última fase, a traição de Judas e a instituição da Eucaristia. Ele apresenta também algumas teorias sobre o papel desempenhado por São Paulo.

Os capítulos do livro: 1) "Jesus, o Judeu"; 2) "Paulo"; 3) "O Peixe Cozido, ou Como Ler um Evangelho"; 4) "A Assombrosa Infância de Jesus"; 5) "O Precursor"; 6) "A Galileia"; 7) "Paz: a Multiplicação dos Pães"; 8) "O Homem Montado num Jumento"; 9) "O Homem do Cântaro e o Jovem Nu"; 10) "O Julgamento"; 11) "Jesus Cristo". 

Este livro, de A. N. Wilson, é um bom complemento ao trabalho de José Herculano Pires, no seu Revisão do Cristianismo, cujo objetivo é distinguir o mito da realidade. Serve para aclarar pontos obscuros do cristianismo. E como diz José Herculano Pires: "Jesus combateu a magia e os mitos, mas o Cristianismo se organizou na sistemática mitológica e acabou transformando o próprio Mestre em mito". Ainda: Renan, através das pesquisas históricas, e Kardec, através das comunicações mediúnicas, chegaram às conclusões de que os ensinos morais do mestre são os de real valor. A revelação, por exemplo, tem no Espiritismo um caráter humano e divino.

WILSON, A. N. Jesus: Um Retrato do Homem. Tradução Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.