01 outubro 2008

Parábolas

Consultando o "Dicionário Bíblico", verificamos que os antropomorfismos do Velho Testamento são verdadeiras parábolas, pois como o ser humano tem dificuldade de explicar a origem do homem e do mundo, ele se vale dos mitos. Entre tais mitos, encontra-se aquele que está relatado na Bíblia: “Deus, do pó da terra, cria Adão; depois, sopra-lhe as narinas e lhe dá vida. Não satisfeito, retira-lhe uma das costelas e cria a Eva, que será a sua companheira no paraíso". Segundo a letra, este texto carece de sentido; há necessidade de uma interpretação metafórica.

As parábolas, no judaísmo tardio, eram formas de transmitir conhecimento. Os rabinos, ou melhor, os doutores israelenses, aqueles que explicavam a lei entre os hebreus, usavam-na intensivamente. Jesus, ao ensinar por parábolas, nada mais fazia do que aplicar o método de ensino utilizado pelos escribas. A parábola, por seu turno, é sempre comparação. Jesus segue o modelo: “A que irei comparar?” A fórmula usada é: “O reino de céus é semelhante...” Na Parábola do Semeador ele diz: “O Senhor saiu a semear...”.

A parábola contém o enigma, o símbolo e o apocalipse. São revelações de imagens que necessitam de uma explicação posterior. A parábola é um meio catequético e estilístico bem adaptado ao povo judeu. Não resta dúvida que era um método de ensino já enraizado na cultura daquele povo. Jesus, dando continuidade ao método, dizia: “Aquele que tem ouvidos de ouvir, ouça”; “Aquele que tem olhos de ver, veja”. Com isso, dava-nos a entender que as palavras estavam acima delas mesmas, isto é, precisavam de uma interpretação simbólica.

As parábolas aparecem como uma condição necessária para que a razão se abra à fé: quanto mais penetrarmos no seu enigma, no seu simbolismo, mais compreenderemos as coisas espirituais. O aspecto velador das parábolas é também providencial. Lembremo-nos de que depois de proferir publicamente um ensinamento, Jesus se reunia com os seus apóstolos para lhes dar uma explicação mais detalhada. Ainda assim, não lhes dizia tudo, porque estes não tinham capacidade de tudo absorver.

As parábolas são divididas em duas categorias: 1) com ênfase no conteúdo doutrinal; 2) com ênfase no aspecto moralizante. A Parábola do Semeador e a Parábola do Grão de Mostarda, por exemplo, são arroladas na ênfase doutrinal; a Parábola do Amigo Incômodo, do Juiz Injusto e do Bom Samaritano, na ênfase moralizante. Esta distinção não deve ser exagerada, porque tanto as do primeiro grupo quanto as do segundo grupo contêm aspectos doutrinários e morais.

A parábola é um aprendizado contínuo. Para desfrutarmos de todas as suas instruções, precisamos visitá-las periodicamente, pois a cada nova leitura um novo conhecimento pode ser absorvido.

Mais sobre a Parábola (julho de 2009)


Parábola – do grego parabolé, que vem de pará (=ao longo de, ao lado de, passando perto, junto de) e bolé (=o que foi jogado). Bolé vem do verbo grego bállo, que significa jogar, lançar. Para expressar o ato de lançar uma pedra, que passa de raspão, os gregos usam o verbo paraboleúomai. Parábola é arriscar-se, passar perto, raspar. Por isso, as várias interpretações acerca das parábolas contadas por Jesus. São ensinamentos que passam de lado, não atingindo diretamente as pessoas. Há necessidade de uma explicação, de uma análise mais aprofundada.

Jesus transmitia os seus ensinamentos através de histórias (parábolas), extraídas da vida cotidiana. A compreensão dessas passagens evangélicas não vem de mão beijada. É preciso o studium que, em latim, significa empenho, zelo, esforço. Nada se aprende brincando. Há necessidade de concentração, de aplicação cuidadosa de nossa mente na resolução de um problema, de uma dificuldade.

Um exemplo de esforço, de dedicação à causa evangélica, é a passagem relatada no livro I Fioretti, de São Francisco de Assis, em que manda Frei Bernardo a Bolonha, para ali fazer frutificar os ensinamentos cristãos. Frei Bernardo, munido da cruz do Cristo, para lá se dirige, sofrendo todo o tipo de opróbrio, tanto das crianças como das pessoas mais velhas. Um sábio juiz, observando a sua virtuosa constância, pensa: “É impossível que este não seja um santo homem”. Aproximando-se e conversando com Frei Bernardo, oferece-lhe um lugar para louvar o Senhor. Frei Bernardo, porém, retirou-se e voltou para São Francisco, dizendo: “O local está preparado na cidade de Bolonha. Manda, pois, pai, frades para que lá morem, porque para mim nessa cidade não há mais grande lucro; ao contrário, pela grande honra que lá me tributam, temo mais perder do que ganhar”.

Os discípulos do Senhor alegravam-se pelas injúrias e entristeciam-se com as honras. Iam pelo mundo como peregrinos e forasteiros, nada levando consigo, a não ser Cristo. Geralmente, temos olhos para não ver. Jesus, com as parábolas, abre-nos a visão, estimula-nos a pensar e a repensar, tentando encontrar uma explicação mais acurada para aquilo que parece nebuloso, sem nexo. Como, num mundo materializado, pode-se entender aquela alma que larga tudo por um ideal, levando consigo apenas o Cristo?


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