Mostrando postagens com marcador natureza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador natureza. Mostrar todas as postagens

02 março 2011

Natureza Humana e Dever

natureza em geral significa o conjunto de coisas (reino animal, mineral e vegetal) que obedece a leis gerais. Num sentido mais especializado, conjunto do que Deus criou ou numa perspectiva não cristã, de tudo o que existe. A natureza de um ser é o princípio que dirige o seu desenvolvimento. É a essência, ou seja, conjunto das características que definem um ser conforme a sua espécie. É aqui que se evoca a natureza humana. Num sentido mais particular, diz respeito às características próprias de um indivíduo, que o distinguem dos outros. É sinônimo de caráter ou de temperamento.

Dever. No sentido habitual do verbo, o que deve ser, ou ser feito. Há que se distinguir, conforme Kant, uma ação empreendida conforme o dever da feita “por dever”. Na ação feita conforme o dever não há esforço da criatura; na feita “por dever”, sim, pois aqui ela luta contra as suas próprias inclinações.

A natureza pode ser considerada um princípio normativo. À medida que cada indivíduo tenta realizar a sua essência, ele se depara com outras essências. Daí, a necessidade de obedecer às leis naturais (universais). Nesse caso, a lei humana é apenas uma imitação, uma particularização dessa lei maior.

Há íntima relação entre natureza humana e cultura. O ser humano sempre questionou a sua origem. Na antiguidade, situava-se entre os deuses e os animais. Depois da descoberta da teoria da evolução, no século XIX, percebeu-se como um elo do reino animal, sendo a espécie mais perfeita, porque pode passar do simples instinto para o comportamento refletido. Tudo isso se deve à cultura

A natureza humana é sociável. Aristóteles, na antiguidade, já definia a ser humano como um animal social, devendo viver em comunidade. É na sociedade que aprendemos determinada maneira de viver, adquirimos valores e costumes. Embora de forma conflitiva, é socializando-nos que nos humanizamos. De acordo com Husserl: “O sentido da palavra ‘homem’ implica uma existência recíproca de um para o outro”.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo (item 7, do capítulo XVII), de Allan Kardec, há algumas instruções dos Espíritos sobre o dever. Nessa passagem, diz-nos que o dever é uma obrigação moral, diante de si mesmo primeiro, e dos outros em seguida. É a lei da vida que se encontra tanto nos pequenos como nos grandes atos. Lembra-nos de que na ordem dos sentimentos, acha-se em antagonismo com os interesses do coração. Para saber onde começa e onde termina, ele nos alerta: “O dever começa precisamente no ponto em que ameaçais a felicidade ou a tranquilidade de vosso próximo; termina no limite que não gostaríeis de ver ultrapassado em relação a vós mesmos”.

Em virtude da complexidade da cultura e da civilização, o dever deve sempre crescer. Significa que, conforme os anos passam, a criatura humana vai absorvendo novas formas de progresso moral e espiritual e, com isso, ampliando os seus deveres junto à sociedade.

 

 

02 julho 2008

Lei e Natureza

Os estoicos, na Grécia arcaica, tinham plena convicção da unidade nómos-physis, ou seja, na perfeita correspondência entre a lei e a natureza. As suas teses giravam em torno dos termos Moirai e Thémis. Segundo eles, a Divina Moira é quem distribui o quinhão de cada um. Thémis é a deusa zeladora das distribuições efetivadas pelas Moirai. Elas são respeitadas e temidas sem a necessidade de leis escritas. Assim sendo, ser virtuoso é cumprir a determinação da Moira e da Thémis, tanto na ordem pessoal quanto na ordem social.

Na Grécia clássica, o espaço e o tempo vão sendo laicizados. Os filósofos dessa época ocupam-se com o lógos, cuja consequência imediata é a crítica contumaz ao conhecimento mítico-sagrado. Com o desenvolvimento da polis, a reflexão filosófica fica mais restrita aos apelos sociais, principalmente na manutenção da conduta administrativa do Estado. A natureza acaba ligando-se ao lógos em detrimento do nómos. Nessa nova lógica, o par nómos-physis terá outra acomodação. O questionamento da relação homem-cidade-cosmo ganha força já no século VI a.C.

No século V a.C., para enfatizar ainda mais o questionamento da unidade nómos-physis, surgem os sofistas. Os sofistas, como sabemos, são pessoas especializadas na arte da discussão. Valiam-se mais do lógos do que da lei. O lógos é uma palavra de difícil tradução. O significado mais próximo é "discurso argumentativo". Lógos é um dizer que explica, usando encadeamento de argumentos. Assim sendo, o poder da palavra toma corpo, abrindo espaço para a persuasão.O lógos persuavivo, por sua vez, pode transformar os homens, portanto a cidade.

lógos persuasivo dos primeiros filósofos não está totalmente desvencilhado do mito. Com os pré-socráticos, há a tentativa de buscar uma realidade por detrás das aparências. O único paradigma possível é o cosmo teorizado como harmonia de forças contrárias. Com a vinda de Sócrates, Platão e Aristóteles, o logos toma nova dinâmica, isto é, tenta dar uma nova dimensão à religião, ao mito e ao sobrenatural. É a explicação baseada na razão. Quer-se, com isso, buscar o conhecimento, partindo do próprio raciocínio, do próprio esforço, da própria vontade.

Para os estoicos, a Physis sustenta a noção de igualdade. Entre eles, há concordância entre o mito, a filosofia e a religião. Os filósofos posteriores, porém, tomam outra direção e começam a se distanciar da lei divina. O lógos dessa época dá mais importância à junção entre a natureza e a cidade. Em suas ações, podem cometer mais erros, aumentando, inclusive, a distância entre a ordem divina e a ordem humana. Contudo, quando se aproximarem novamente da lei divina, fa-lo-ão com conhecimento de causa.

De acordo com o Espiritismo, a lei divina ou natural está escrita na consciência do ser. Por isso, não é nenhuma novidade que os estoicos, no século V a.C., tivessem sobre ela tamanha convicção.

Fonte de Consulta

GAZOLLA, Rachel. O oficio do filosofo estoico: o duplo registro do discurso da Stoa. São Paulo: Loyola, 1999.