"Fé inabalável é somente aquela que enfrenta a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade". (O Evangelho Segundo o Espiritismo)
Fé inabalável. Não é uma fé ingênua ou cega. É uma fé que
passou por dúvidas, críticas e questionamentos. Assim, ao contato com essas
adversidades, ela conseguiu atravessá-las com galhardia, mostrando a sua robustez
intrínseca. Além disso, uma fé que não afronta problemas, dificuldades, é
uma fé fraca, pois está desprovida de fundamentos extraídos da experiência.
Enfrenta a razão, face a face. Neste trecho reside a parte
mais filosófica, pois ela rejeita duas atitudes comuns, ou seja, fugir da razão
ou reduzir tudo à razão. E o que ela propõe? Um confronto direto: a razão
questiona, critica, exige coerência; a fé responde, se reformula, ou se
aprofunda. São Tomás de Aquino diria que uma fé verdadeira não teme a razão,
porque ambas vêm da mesma verdade.
Em todas as épocas da humanidade. A fé deve resistir ao
tempo; ela não é somente válida num contexto cultural específico. Nesse sentido,
ela precisa resistir à filosofia grega, ao racionalismo moderno, à ciência
contemporânea, às crises existenciais de cada época. Ou seja: uma fé
“inabalável” é aquela que continua fazendo sentido mesmo quando o mundo
muda.
Por que Allan Kardec deu ênfase a esta frase? Precisamos voltar
no tempo e verificar como estava o estado religioso em sua época. Muitas
crenças eram aceitas sem reflexão; a religião exigia obediência, não compreensão.
Em vista disso, Kardec propõe uma fé que pensa, questiona e busca
coerência. Ele queria afastar o Espiritismo da ideia de “crer sem entender”, do
fanatismo religioso.
Ao propor a ideia de fé raciocinada, Kardec não rejeita a
fé; ele a redefine. Não é uma fé cega, mas raciocinada, ou seja, não é imposição,
mas convicção construída. Nesse sentido, a verdadeira fé é aquela que pode ser
explicada, defendida e compreendida. Esta frase aponta para algo mais profundo:
a verdade não muda com o tempo — a fé não pode depender da ignorância de uma
época.
Kardec propõe uma fé que não teme perguntas, não foge da
crítica e evolui com o conhecimento humano. Para ele, fé e razão não são
inimigas — mas instrumentos que, juntos, levam a uma compreensão mais
profunda da verdade e da vida espiritual.
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