Mostrando postagens com marcador tempo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tempo. Mostrar todas as postagens

28 março 2026

Fé Inabalável

"Fé inabalável é somente aquela que enfrenta a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade". (O Evangelho Segundo o Espiritismo)

Fé inabalável. Não é uma fé ingênua ou cega. É uma fé que passou por dúvidas, críticas e questionamentos. Assim, ao contato com essas adversidades, ela conseguiu atravessá-las com galhardia, mostrando a sua robustez intrínseca. Além disso, uma fé que não afronta problemas, dificuldades, é uma fé fraca, pois está desprovida de fundamentos extraídos da experiência.  

Enfrenta a razão, face a face. Neste trecho reside a parte mais filosófica, pois ela rejeita duas atitudes comuns, ou seja, fugir da razão ou reduzir tudo à razão. E o que ela propõe? Um confronto direto: a razão questiona, critica, exige coerência; a fé responde, se reformula, ou se aprofunda. São Tomás de Aquino diria que uma fé verdadeira não teme a razão, porque ambas vêm da mesma verdade.

Em todas as épocas da humanidade. A fé deve resistir ao tempo; ela não é somente válida num contexto cultural específico. Nesse sentido, ela precisa resistir à filosofia grega, ao racionalismo moderno, à ciência contemporânea, às crises existenciais de cada época. Ou seja: uma fé “inabalável” é aquela que continua fazendo sentido mesmo quando o mundo muda.

Por que Allan Kardec deu ênfase a esta frase? Precisamos voltar no tempo e verificar como estava o estado religioso em sua época. Muitas crenças eram aceitas sem reflexão; a religião exigia obediência, não compreensão. Em vista disso, Kardec propõe uma fé que pensa, questiona e busca coerência. Ele queria afastar o Espiritismo da ideia de “crer sem entender”, do fanatismo religioso.

Ao propor a ideia de fé raciocinada, Kardec não rejeita a fé; ele a redefine. Não é uma fé cega, mas raciocinada, ou seja, não é imposição, mas convicção construída. Nesse sentido, a verdadeira fé é aquela que pode ser explicada, defendida e compreendida. Esta frase aponta para algo mais profundo: a verdade não muda com o tempo — a fé não pode depender da ignorância de uma época.

Kardec propõe uma fé que não teme perguntas, não foge da crítica e evolui com o conhecimento humano. Para ele, fé e razão não são inimigas — mas instrumentos que, juntos, levam a uma compreensão mais profunda da verdade e da vida espiritual.

 

01 fevereiro 2025

Sobre a Eternidade

Eternidade. Ausência de início e fim. Em filosofia e religião, o que dura para sempre e que não tem começo nem fim. Define-se naturalmente a eternidade como a duração indefinida, um tempo linear e às vezes cíclico (Eterno Retorno) sem começo nem fim.

As locuções escolásticas — a parte ante, a parte post — não podem ser compreendidas uma sem a outra. Aplicam-se à eternidade que o homem não pode conceber senão "dividindo-a" em duas partes. Uma, sem limites no passado: é a eternidade a parte ante; outra, sem limites no futuro: é a eternidade a parte post.  Diziam os escolásticos que Deus era uma eternidade a parte ante e a parte post, enquanto a alma humana é uma eternidade a parte post. Esse conceito de eternidade é apenas analógico. (1)

Os gregos, filósofos ou não, frequentemente entenderam “eternidade” como tempo infinito, ou duração infinita. Esse sentido encontra-se especialmente vivo nas doutrinas dos filósofos pré-socráticos quando falam que a realidade primordial é eterna (isto é, sempiterna), ou quando mantém a teoria do eterno retorno. Encontramos esse sentido em algumas passagens do próprio Platão, como no Fédon (103 E), onde ele se refere à duração eterna ou por todo o tempo, que pertence às formas (outra passagem de tipo análogo em Rep. X, 608 D). Em Aristóteles, se encontra o sentido de “eternidade” como duração infinita em suas afirmações acerca da eternidade do movimento circular (Phys, VIII 8, 263 a 3) (2)

Segundo Santo Agostinho, a eternidade não pode ser medida pelo tempo, mas também não é simplesmente o intemporal: "A eternidade não tem em si nada que passa; nela tudo está presente, o que não ocorre com o tempo, que jamais pode estar verdadeiramente presente". Por isso a eternidade pertence a Deus.

Na perspectiva cristã, o tempo deixa de ser a roda que sempre reconduz ao mesmo lugar, para tornar-se a propedêutica da eternidade. O homem criado por Deus à sua imagem e semelhança, foi precipitado no tempo e na morte em consequência do pecado, que é, uma ruptura com Deus. Pelo Cristo porém, que é o mediador, pode restabelecer a ligação com Deus, e fazer de sua vida no tempo uma preparação para a vida eterna. O tempo é apenas um caminho que deve conduzir o homem fora e além do tempo. (3)

Que relação há entre tempo e eternidade? O tempo é apenas uma medida relativa da sucessão das coisas transitórias; a eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente. Se séculos de séculos são menos que um segundo, relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana? (4)

"PARA DEUS O PASSADO E O FUTURO SÃO PRESENTE", ou seja, dentro da eternidade tudo é presente. Mesmo que seja possível uma viagem no tempo, para o viajante aquilo não será compreendido como passado, e sim como presente. Não é possível a divisibilidade do espírito. No que tange à ubiquidade, podemos considerar como irradiação do pensamento e não uma divisibilidade do ser. Seria como o Sol, que estando localizado em determinado espaço é visto em diversos pontos.

(1) SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo: Matese, 1965

(2) MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.

(3) CORBISIER, R. Enciclopédia Filosófica. 2. ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1987. 

(4) KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 17. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.

10 junho 2009

O Tempo

Tempo é a sucessão dos anos, dos dias, das horas etc., que envolve, para o homem, a noção de presente, passado e futuro: o curso do tempoo tempo é um meio contínuo e indefinido no qual os acontecimentos parecem suceder-se em momentos irreversíveis. (Dicionário Aurélio)

O tempo é um problema. Por problema, entende-se uma análise mais acurada de um tema aparentemente fácil e intuitivo. Santo Agostinho nos dizia que quando não lhe perguntavam sobre o tempo, sabia a resposta, mas, se questionado, já não o sabia mais. É factível, pois, considerá-lo como um problema. Por exemplo, ao dizermos que o tempo é a duração sucessiva de qualquer fenômeno ou do movimento real das coisas, criamos um problema, pois o enigma da duração sucessiva é problemático. O que é duração? Os filósofos antigos perguntaram à esfinge o que era o tempo, mas ela nada respondeu, porque era o próprio tempo feito estátua de silêncio.

A pergunta fundamental não é: que é o tempo? Muitos pensadores se posicionaram para defini-lo. Newton diz: "O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, flui uniformemente devido à sua própria natureza e a partir de si próprio, sem relação com qualquer coisa externa". Para Aristóteles, "O tempo é o número do movimento segundo um antes e um depois". O físico norte-americano Richard Feynman, laureado com o Prêmio Nobel, afirma: "Tempo é o que acontece quando mais nada acontece". A pergunta fundamental é: "Como é que o homem chega ao tempo?" Para responder a essa pergunta, devemos prestar atenção à classificação hierárquica de vivências do tempo.

Vivência da simultaneidade por oposição a não-simultaneidade

Vivência da sucessão ou da ordem temporal

Vivência do presente ou do agora

Vivência da duração. (Pöpel, 1989, cap. II)

O relógio mede o tempo? Como medir algo que não se deixa tocar, ouvir, saborear nem respirar como um odor? Os relógios são processos físicos que a sociedade padronizou, para computar os segundos, os minutos e as horas. Para que isso seja possível, os acontecimentos devem ocorrer numa certa ordem. Se dois eventos não forem rigorosamente simultâneos, um acontece antes do outro. Qualquer medida desse tempo reduz-se a contar o número de acontecimentos de certo tipo, como, por exemplo, a alternância entre dia e noite. Pode-se usar o número de batidas do pêndulo, ou o número de vibrações de um cristal. Por convenção, um dia possui, assim, a duração de 86.400 segundos e um segundo dura tanto quanto 9.192.633.770 períodos de um fenômeno de transição provocado em um átomo de césio.

A noção de presente torna-se frágil: passamos a dizer: "eu serei" ou "eu era". Entretanto, um consolo é oferecido pela física quântica àqueles que viessem a ficar desgostosos com desaparecimento do presente: nenhuma dimensão poderia ser inferior ao "tempo de Planck", que dura 5,4 x 10-44 segundos. Enquanto decorre essa duração, é, portanto, permitido em boa lógica dizer "eu sou", mas isso tem de ser dito muito depressa. Essa duração interior não mantém, em geral, vínculos estreitos com o tempo objetivo dos acontecimentos: os minutos de espera são longos, os instantes de prazer são curtos; com a idade, os anos passam cada vez mais depressa. (Jacquard, 2004)


Que relação há entre tempo e eternidade? O tempo é apenas uma medida relativa da sucessão das coisas transitórias; a eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente. Se séculos de séculos são menos que um segundo, relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana? (Kardec, 1975, pág. 107)

Fonte de Consulta

FERREIRA, A. B. de H.Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, s/d/p.

PÖPPEL, Ernest. Fronteiras da Consciência: Da Realidade e da Experiência do Mundo. Tradução de Ana Maria Roltoff. Lisboa: Edições 70, 1989.

JACQUARD, Albert. Filosofia para não Filósofos: Respostas Claras para Questões Essenciais. Tradução de Guilherme João de Freitas.Teixeira. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

ASKIN, I. F. O Problema do Tempo - Sua Interpretação Filosófica. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1969.

KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 17. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.

Compilaçãohttps://sites.google.com/view/temas-diversos-compilacao/tempo

&&&

Podemos, pois, localizar acontecimentos no tempo de duas formas diferentes. A primeira envolve o uso de termos como “passado”, “presente”, “futuro” ou “ontem”, “hoje”, “amanhã” ou ainda verbos com flexões verbais que apontam para o passado, o presente ou o futuro. Esta forma de localizar acontecimentos no tempo chama-se flexionada precisamente porque usa flexões temporais. A segunda forma de localizar acontecimentos no tempo não envolve flexões verbais (não flexionada), e recorre a datas ou a termos como “antes”, “depois” e “simultaneamente” para localizar acontecimentos no tempo. (Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade, de Desidério Murcho)


03 julho 2008

O Tempo Julga Tudo

O tempo é um elemento que segundo Santo Agostinho é fácil de saber, mas difícil de explicar. Observe que a própria dimensão do tempo no Cristianismo tem a conotação de eternidade. Deus criou o tempo, quando criou o mundo. Fê-lo a partir do nada, mas enviou o seu filho para restaurar o tempo e levar todos os crentes para além do tempo, ou seja, para a eternidade

A questão de que o tempo tudo julga está relacionada com a noção de carma, de ação e reação, da lei de causa efeito, do juízo final etc. Quer dizer, desencadeada uma ação, esta fica registrada no cosmo e, mais tempo ou menos tempo, teremos de responder por ela, seja boa ou má. Por isso, diz-se que o acaso não existe, ou seja, cada um está colocado no devido lugar, colhendo os frutos daquilo que livremente semeou

A distinção entre presente, passado e futuro nem sempre é fácil de ser vista. Hoje podemos estar numa situação desesperadora. Em vista disso, perguntamos: por que me encontro assim? Por que não estou numa situação melhor? O que eu fiz de errado? Depois destas questões, começamos a culpar o presente, e dizemos: Deus não cuida de mim; estou abandonado; tudo que faço dá errado; e assim por diante. Mas o que é o presente? Ele não é a condensação do que fizemos no passado? Ele não é a antecipação do que poderemos ser no futuro? Talvez devêssemos ver os nossos dias com mais atenção

O tempo tudo julga pode ser relacionado com a morte. Por quê? A morte é o término de um estágio no plano da carne, em que somos obrigados a fazer uma reflexão mais acurada da nossa existência. No momento da morte, não nos perguntarão o que lemos, os bens que amontoamos, a riqueza que tínhamos, mas simplesmente o que estamos levando em nossa bagagem espiritual, ou seja, as qualidades morais, os conhecimentos, a prática do bem. Por isso, as advertências do Evangelho são elucidativas, pois não há uma única ação, por mínima que seja, que não será levada em conta no dia do "juízo final"

Além de tudo, o "tempo tudo julga" mostra que a justiça divina tarda mas não falha. No momento do julgamento de nossas ações, seremos recompensados pelo bem que tivermos feito, e repreendidos pelo mal que conscientemente tivermos praticado. Se hoje estamos infringindo a lei divina, prejudicando o nosso próximo, é de se esperar que teremos de sofrer as consequências dos nossos atos. Desta forma, é melhor começar a fazer o bem já, preparando-nos para uma vida mais saudável, no futuro

Instruamo-nos no bem e na verdade para não termos surpresas ao voltarmos ao nosso verdadeiro mundo, ou seja, o mundo dos Espíritos.

&&&

(A foto acima mostra parte da Highway 10, estrada que tem a mais longa reta do mundo. Está na Arábia Saudita, entre a cidade de Haradh e a fronteira com os Emirados Árabes, próximo dos limites com o Catar. Este trecho compreende uma reta de 260 km, em um espaço plano do deserto Saudita, sem curvas no caminho).

A vida não dá mil voltas; é um processo em linha reta

Saiba: os dias não se repetem em absolutamente nada. Nada!

Portanto, não deixe arestas para aparar depois.

Você não terá tempo de voltar às sobras das coisas, simplesmente porque a vida não dá voltas.

E o tempo nunca retrocede. (https://luizberto.com/o-tempo-e-um-caminho-de-ida/)