O caminho
para a aceitação de uma ideia inovadora ou de uma verdade revolucionária
costuma passar por três fases distintas: a negação, a oposição violenta e,
finalmente, a aceitação da evidência.
1.
Negação e Ridicularização: A reação inicial da sociedade ou dos
especialistas é negar o fato e ridicularizar o autor da ideia. Isso ocorre
porque a mente humana tende a resistir à novidade; absorver o novo exige um
alto gasto de energia cerebral, enquanto o nosso cérebro busca constantemente a
economia de esforço e o conforto do conhecido.
2.
Oposição Violenta: Dependendo da formação intelectual, moral e do nível de
apego ideológico das pessoas afetadas, a reação pode se tornar agressiva. O
portador da mensagem passa a ser visto como uma ameaça que precisa ser
silenciada ou neutralizada. Afinal, a nova ideia abala o status quo,
ameaça privilégios, desestabiliza estruturas de poder ou coloca empregos em
risco.
3. Aceitação como Evidência: Quando a tempestade passa e a proposta é finalmente absorvida pela maioria, ocorre um fenômeno curioso: o novo se torna o "normal". Nesse estágio, o criador original costuma ser esquecido, e muitos dos que hoje se beneficiam da ideia sequer se lembram do escárnio e do sofrimento que ele enfrentou para defendê-la.
Na
história da ciência, há dois casos clássicos desse processo: a higienização
das mãos na medicina e a Teoria Heliocêntrica. O médico Ignaz
Semmelweis, que defendeu a lavagem das mãos para salvar vidas, foi destituído
de seu cargo e terminou seus dias em um hospício. Já Galileu Galilei, por
afirmar que a Terra girava em torno do Sol, foi condenado à prisão domiciliar
pelo resto da vida.
Revista Espírita 1862
Tais ideias,
como toda ideia nova, contrariam certas pessoas, certos hábitos e, mesmo,
certos interesses, como as estradas de ferro contrariaram os alugadores de
cavalos de posta e os que tinham medo; como uma revolução contraria certas
opiniões; como a imprensa contrariou os copistas; como o Cristianismo
contrariou os sacerdotes pagãos. Mas, que fazer quando uma coisa se estabelece,
queiramos ou não, por sua própria força e é aceita pela generalidade? Forçoso é
tomar seu partido e, como Maomé, dizer que o que é deve ser. Que faríeis se o
Espiritismo se tornasse crença universal? Repeliríeis todos os que o admitem?
Direis que isto não acontecerá, que tal fato é impossível. Mas... o que faríeis
se isto acontecesse?
Pedistes
milagres e hoje pedis mártires! Já existem os mártires do Espiritismo: entrai
nas casas e os vereis. Exigis perseguidos: abri, pois, o coração desses
fervorosos adeptos da ideia nova, que lutam contra os preconceitos, com o
mundo, muitas vezes até com a família! Como seus corações sangram e se enchem
quando seus braços se estendem para abraçar um pai, uma mãe, um irmão ou uma
esposa e não recebem, como paga de suas carícias e de seus transportes, senão
sarcasmos, sorrisos de desdém e desprezo! Os mártires do Espiritismo são os
que, a cada passo, ouvem estas palavras insultuosas: louco, insensato,
visionário!
Ataques à Ideia Nova
Como vedes,
começam a comentar as ideias espíritas até nos cursos de teologia e a Revista
Católica tem a pretensão de demonstrar ex-professo, como dizem, que o
Espiritismo atual é obra do demônio, conforme se depreende do artigo Satanismo
no Espiritismo moderno, publicado naquela revista. Ah! deixai-os falar e
acontecer. O Espiritismo é como o aço, e todas as serpentes possíveis usarão os
dentes para o morder. Seja como for, há um fato digno de nota: é que outrora
desdenhavam ocupar-se com os que moviam cadeiras e mesas, ao passo que hoje
muitos se ocupam com esses inovadores, cujas ideias e teorias se elevaram à
altura de uma doutrina. Oh! é que esta doutrina, esta revelação abre brecha em
todas as antigas doutrinas, em todas as velhas filosofias, insuficientes para
satisfazerem as necessidades da razão humana. Assim, sacerdotes, cientistas,
jornalistas, descem à arena empunhando a pena para repelir a ideia nova: o
progresso. Ora! que importa! não é uma prova irrefragável da propagação dos
nossos ensinamentos? Ah! não se discute, não se combate senão as ideias
realmente sérias e bastante partilhadas, que não podem ser tomadas como
utopias, como quimeras que emanam de um cérebro doente. Aliás, melhor que
ninguém podeis observar com que rapidez o Espiritismo recruta adeptos
diariamente, e isto até nas fileiras esclarecidas do Exército, entre oficiais
de todas as armas. Não vos inquieteis, pois, com todos esses infelizes que
uivam à toa, porquanto já não sabem onde estão: perderam as estribeiras! Suas
certezas, suas probabilidades se desvanecem ante o facho do Espiritismo,
porque, no fundo de suas consciências, sentem que apenas nós estamos com a
verdade. Digo nós porque hoje, Espíritos ou encarnados, só temos um objetivo: a
destruição das ideias materialistas e a regeneração da fé em Deus, a quem tudo
devemos.
Erasto (Médium: Sr. d’Ambel
Revista Espírita 1863
Como
já nos havia sido anunciado, neste momento acontece uma verdadeira cruzada
contra o Espiritismo. De vários pontos assinalam-se escritos, discursos e até
atos de violência e de intolerância. Todos os espíritas devem regozijar-se,
porque é a prova evidente de que o Espiritismo não é uma quimera. Fariam tanto
barulho por causa de uma mosca que voa?
O
que acima de tudo excita essa grande cólera é a prodigiosa rapidez com que a
ideia nova se propaga, não obstante tudo quanto fizeram para detê-la. Assim,
nossos adversários, forçados pela evidência a reconhecer que esse progresso
invade as camadas mais esclarecidas da sociedade e, até mesmo, homens de
ciência, estão reduzidos a deplorar esse arrastamento fatal, que conduz a
sociedade inteira aos manicômios. A zombaria esgotou seu arsenal de piadas e
sarcasmos, e esta arma, que se diz tão terrível, não conseguiu pôr os
galhofeiros de seu lado, prova de que não há matéria para riso. Não é menos evidente
que não desviou um só partidário da doutrina; longe disso: eles aumentaram a
olhos vistos. A razão é muito simples: reconheceu-se prontamente tudo quanto há
de profundamente religioso nessa doutrina, que toca as fibras mais sensíveis do
coração, que eleva a alma ao infinito, que faz reconhecer Deus àqueles que o
haviam desconhecido. Arrancou tantos homens do desespero, acalmou tantas dores,
cicatrizou tantas feridas morais, que as anedotas estúpidas e vulgares a ela
atiradas inspiraram mais repulsa que simpatia. Em vão os zombadores deitaram os
bofes pela boca para provocar o riso à sua custa. Há coisas das quais sentimos
instintivamente que não podemos rir sem cometer um sacrilégio.
Toda ideia nova
encontra forçosamente oposição, por parte daqueles cujas opiniões e interesses
contraria. Julgam alguns que a Igreja está comprometida — pensamos que não, mas
nossa opinião não faz lei — razão por que nos atacam em seu nome com um furor
ao qual só faltam as grandes execuções da Idade Média. Os sermões, as instruções
pastorais lançam raios em todas as direções; as brochuras e artigos de jornais
chovem em grande quantidade, na maioria com um cinismo de expressão pouquíssimo
evangélico. Em vários deles é um raio que toca o frenesi. Por que, então, essa
exibição de força e tanta cólera? Porque dizemos que Deus perdoa à criatura que
se arrepende e que as penas só seriam eternas para aquelas que jamais se
arrependessem, e porque proclamamos a bondade e a clemência de Deus, somos
heréticos votados à execração e a sociedade está perdida. Apontam-nos como
perturbadores; desafiam a autoridade a nos perseguir em nome da moral e da
ordem pública; alegam que aquela não cumpre o seu dever deixando-nos tranquilos!
Trabalhai com
zelo e fervor para a propaganda da ideia nova; eu vos ajudarei sem cessar; e se
a tranquilidade da tumba amedrontar alguns, que saibam que os Espíritos bons se
sentem felizes instruindo por toda parte.
Nos primeiros
anos, muitos duvidaram de sua vitalidade, razão por que lhe deram pouca
atenção. Mas quando o viram crescer, a despeito de tudo, propagar-se em todas
as fileiras da sociedade e em todas as partes do mundo, tomar o seu lugar entre
as crenças e tornar-se uma potência pelo número de seus aderentes, os
interessados na manutenção das ideias antigas alarmaram-se seriamente. Então
uma verdadeira cruzada foi dirigida contra ele, dando início ao período da
luta, de que o auto-de-fé de Barcelona, de 9 de outubro de 1861, de certo modo
foi o sinal. Até então ele tinha sido alvo dos sarcasmos da incredulidade, que
ri de tudo, principalmente do que não compreende, mesmo das coisas mais santas,
e aos quais nenhuma ideia nova pode escapar: é o seu batismo de fogo. Mas os
outros não riem: fitam-no com cólera, sinal evidente e característico da
importância do Espiritismo. Desde então os ataques assumiram um caráter de
violência inaudita. Foi dada a palavra de ordem: sermões furibundos, pastorais,
anátemas, excomunhões, perseguições individuais, livros, brochuras, artigos de
jornais, nada foi poupado, nem mesmo a calúnia.
Revista Espírita 1864
Sob este título
um novo órgão do Espiritismo acaba de surgir em Antuérpia, a partir de 1º de
janeiro de 1864. Sabe-se que a Doutrina Espírita fez rápidos progressos nessa
cidade, onde se formaram numerosas reuniões, compostas de homens eminentes pelo
saber e pela posição social. Em Bruxelas, por mais tempo refratária, a ideia
nova também ganha terreno, como em outras cidades da Bélgica. Uma sociedade
espírita, formada recentemente, houve por bem pedir-nos que aceitássemos a
presidência de honra; é dizer em que caminho ela se propõe andar.
Sem essa
concordância, quem poderia estar seguro de ter a verdade? A razão, a lógica, o
raciocínio, sem dúvida são os primeiros meios de controle que devem ser usados;
em muitos casos isto basta. Mas quando se trata de um princípio importante, da
emissão de uma ideia nova, haveria presunção em crer-se infalível na apreciação
das coisas. É, aliás, um dos caracteres distintivos da Revelação Nova o ser
feita em toda parte e ao mesmo tempo; assim ocorreu com as diversas partes da
Doutrina. Aí está a experiência para provar que todas as teorias audaciosas,
dadas por Espíritos sistemáticos e pseudossábios, sempre foram isoladas e
localizadas; nenhuma se tornou geral nem pôde suportar o controle da
concordância; várias, até, caíram no ridículo, prova evidente de que não
estavam com a verdade. O controle universal é uma garantia para a futura
unidade da Doutrina.
Hoje o
Espiritismo entra em nova fase, pois é tempo das aspirações generosas. A
burguesia, ainda submetida ao alto clero, fica como espectadora do combate
pacífico que a ideia nova oferece ao non possumus do passado. E todos esperam o fim da batalha, a fim de se colocarem
ao lado dos vencedores.
Os Espíritos
Superiores procedem em suas revelações com extrema sabedoria. Não abordam as
grandes questões da Doutrina senão gradualmente, à medida que a inteligência
está apta a compreender verdades de ordem mais elevada e quando as
circunstâncias são propícias à emissão de uma ideia nova. É por isso que eles
não disseram tudo desde o começo, e ainda não o disseram até hoje, jamais
cedendo à impaciência de pessoas muito apressadas que querem colher os frutos
antes que amadureçam. Seria, pois, supérfluo querer avançar o tempo designado a
cada coisa pela Providência, porque, então, os Espíritos realmente sérios
negariam o seu concurso. Os Espíritos levianos, porém, pouco se preocupando com
a verdade, respondem a tudo; é por isso que, sobre todas as questões
prematuras, há sempre respostas contraditórias.
Revista Espírita 1867
Não se fará
mais do Espiritismo uma crença ignorada e aceita apenas por alguns cérebros
supostamente doentes; será uma filosofia admitida ao banquete da inteligência,
uma ideia nova tendo posição ao lado das ideias progressivas, que marcam a
segunda metade do século dezenove. Assim, felicitamos vivamente aquele que
soube, como primeiro, pôr de lado todo falso respeito humano, para arvorar
francamente e claramente sua crença íntima.
Definamos
primeiro o sentido da palavra revelação. Revelar, derivado da palavra véu (do
latim velum), significa literalmente sair de sob o véu — e, figuradamente,
descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção
vulgar mais genérica, essa palavra se emprega a respeito de qualquer coisa
ignota que é divulgada, de qualquer ideia nova que nos põe ao corrente do que
não sabíamos.
Está
nas vicissitudes das coisas humanas, ou, melhor dizendo, parece fatalmente
reservado a toda ideia nova ser mal acolhida ao seu aparecimento. Como, as mais
das vezes, tem por missão derrubar ideias que a precederam, encontra
resistência muito grande da parte do entendimento humano.
“O
homem que viveu com preconceitos não acolhe senão com desconfiança a
recém-chegada, que tende a modificar, a destruir mesmo combinações e ideias fixas
em seu espírito, a forçá-lo, numa palavra, a meter mãos à obra, para correr
atrás da verdade. Aliás, sente-se humilhado em seu orgulho, por ter vivido no
erro.
“A
repulsa que inspira a ideia nova é muito mais acentuada ainda quando traz
consigo obrigações, deveres; quando impõe uma linha de conduta mais severa.
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