10 junho 2026

Ideia Nova na Revista Espírita

O caminho para a aceitação de uma ideia inovadora ou de uma verdade revolucionária costuma passar por três fases distintas: a negação, a oposição violenta e, finalmente, a aceitação da evidência.

1. Negação e Ridicularização: A reação inicial da sociedade ou dos especialistas é negar o fato e ridicularizar o autor da ideia. Isso ocorre porque a mente humana tende a resistir à novidade; absorver o novo exige um alto gasto de energia cerebral, enquanto o nosso cérebro busca constantemente a economia de esforço e o conforto do conhecido.

2. Oposição Violenta: Dependendo da formação intelectual, moral e do nível de apego ideológico das pessoas afetadas, a reação pode se tornar agressiva. O portador da mensagem passa a ser visto como uma ameaça que precisa ser silenciada ou neutralizada. Afinal, a nova ideia abala o status quo, ameaça privilégios, desestabiliza estruturas de poder ou coloca empregos em risco.

3. Aceitação como Evidência: Quando a tempestade passa e a proposta é finalmente absorvida pela maioria, ocorre um fenômeno curioso: o novo se torna o "normal". Nesse estágio, o criador original costuma ser esquecido, e muitos dos que hoje se beneficiam da ideia sequer se lembram do escárnio e do sofrimento que ele enfrentou para defendê-la.

Na história da ciência, há dois casos clássicos desse processo: a higienização das mãos na medicina e a Teoria Heliocêntrica. O médico Ignaz Semmelweis, que defendeu a lavagem das mãos para salvar vidas, foi destituído de seu cargo e terminou seus dias em um hospício. Já Galileu Galilei, por afirmar que a Terra girava em torno do Sol, foi condenado à prisão domiciliar pelo resto da vida.

Revista Espírita 1862

Tais ideias, como toda ideia nova, contrariam certas pessoas, certos hábitos e, mesmo, certos interesses, como as estradas de ferro contrariaram os alugadores de cavalos de posta e os que tinham medo; como uma revolução contraria certas opiniões; como a imprensa contrariou os copistas; como o Cristianismo contrariou os sacerdotes pagãos. Mas, que fazer quando uma coisa se estabelece, queiramos ou não, por sua própria força e é aceita pela generalidade? Forçoso é tomar seu partido e, como Maomé, dizer que o que é deve ser. Que faríeis se o Espiritismo se tornasse crença universal? Repeliríeis todos os que o admitem? Direis que isto não acontecerá, que tal fato é impossível. Mas... o que faríeis se isto acontecesse?

Pedistes milagres e hoje pedis mártires! Já existem os mártires do Espiritismo: entrai nas casas e os vereis. Exigis perseguidos: abri, pois, o coração desses fervorosos adeptos da ideia nova, que lutam contra os preconceitos, com o mundo, muitas vezes até com a família! Como seus corações sangram e se enchem quando seus braços se estendem para abraçar um pai, uma mãe, um irmão ou uma esposa e não recebem, como paga de suas carícias e de seus transportes, senão sarcasmos, sorrisos de desdém e desprezo! Os mártires do Espiritismo são os que, a cada passo, ouvem estas palavras insultuosas: louco, insensato, visionário!

Ataques à Ideia Nova

Como vedes, começam a comentar as ideias espíritas até nos cursos de teologia e a Revista Católica tem a pretensão de demonstrar ex-professo, como dizem, que o Espiritismo atual é obra do demônio, conforme se depreende do artigo Satanismo no Espiritismo moderno, publicado naquela revista. Ah! deixai-os falar e acontecer. O Espiritismo é como o aço, e todas as serpentes possíveis usarão os dentes para o morder. Seja como for, há um fato digno de nota: é que outrora desdenhavam ocupar-se com os que moviam cadeiras e mesas, ao passo que hoje muitos se ocupam com esses inovadores, cujas ideias e teorias se elevaram à altura de uma doutrina. Oh! é que esta doutrina, esta revelação abre brecha em todas as antigas doutrinas, em todas as velhas filosofias, insuficientes para satisfazerem as necessidades da razão humana. Assim, sacerdotes, cientistas, jornalistas, descem à arena empunhando a pena para repelir a ideia nova: o progresso. Ora! que importa! não é uma prova irrefragável da propagação dos nossos ensinamentos? Ah! não se discute, não se combate senão as ideias realmente sérias e bastante partilhadas, que não podem ser tomadas como utopias, como quimeras que emanam de um cérebro doente. Aliás, melhor que ninguém podeis observar com que rapidez o Espiritismo recruta adeptos diariamente, e isto até nas fileiras esclarecidas do Exército, entre oficiais de todas as armas. Não vos inquieteis, pois, com todos esses infelizes que uivam à toa, porquanto já não sabem onde estão: perderam as estribeiras! Suas certezas, suas probabilidades se desvanecem ante o facho do Espiritismo, porque, no fundo de suas consciências, sentem que apenas nós estamos com a verdade. Digo nós porque hoje, Espíritos ou encarnados, só temos um objetivo: a destruição das ideias materialistas e a regeneração da fé em Deus, a quem tudo devemos.

Erasto (Médium: Sr. d’Ambel

 

Revista Espírita 1863

Como já nos havia sido anunciado, neste momento acontece uma verdadeira cruzada contra o Espiritismo. De vários pontos assinalam-se escritos, discursos e até atos de violência e de intolerância. Todos os espíritas devem regozijar-se, porque é a prova evidente de que o Espiritismo não é uma quimera. Fariam tanto barulho por causa de uma mosca que voa?

O que acima de tudo excita essa grande cólera é a prodigiosa rapidez com que a ideia nova se propaga, não obstante tudo quanto fizeram para detê-la. Assim, nossos adversários, forçados pela evidência a reconhecer que esse progresso invade as camadas mais esclarecidas da sociedade e, até mesmo, homens de ciência, estão reduzidos a deplorar esse arrastamento fatal, que conduz a sociedade inteira aos manicômios. A zombaria esgotou seu arsenal de piadas e sarcasmos, e esta arma, que se diz tão terrível, não conseguiu pôr os galhofeiros de seu lado, prova de que não há matéria para riso. Não é menos evidente que não desviou um só partidário da doutrina; longe disso: eles aumentaram a olhos vistos. A razão é muito simples: reconheceu-se prontamente tudo quanto há de profundamente religioso nessa doutrina, que toca as fibras mais sensíveis do coração, que eleva a alma ao infinito, que faz reconhecer Deus àqueles que o haviam desconhecido. Arrancou tantos homens do desespero, acalmou tantas dores, cicatrizou tantas feridas morais, que as anedotas estúpidas e vulgares a ela atiradas inspiraram mais repulsa que simpatia. Em vão os zombadores deitaram os bofes pela boca para provocar o riso à sua custa. Há coisas das quais sentimos instintivamente que não podemos rir sem cometer um sacrilégio.

Toda ideia nova encontra forçosamente oposição, por parte daqueles cujas opiniões e interesses contraria. Julgam alguns que a Igreja está comprometida — pensamos que não, mas nossa opinião não faz lei — razão por que nos atacam em seu nome com um furor ao qual só faltam as grandes execuções da Idade Média. Os sermões, as instruções pastorais lançam raios em todas as direções; as brochuras e artigos de jornais chovem em grande quantidade, na maioria com um cinismo de expressão pouquíssimo evangélico. Em vários deles é um raio que toca o frenesi. Por que, então, essa exibição de força e tanta cólera? Porque dizemos que Deus perdoa à criatura que se arrepende e que as penas só seriam eternas para aquelas que jamais se arrependessem, e porque proclamamos a bondade e a clemência de Deus, somos heréticos votados à execração e a sociedade está perdida. Apontam-nos como perturbadores; desafiam a autoridade a nos perseguir em nome da moral e da ordem pública; alegam que aquela não cumpre o seu dever deixando-nos tranquilos!

Trabalhai com zelo e fervor para a propaganda da ideia nova; eu vos ajudarei sem cessar; e se a tranquilidade da tumba amedrontar alguns, que saibam que os Espíritos bons se sentem felizes instruindo por toda parte.

Nos primeiros anos, muitos duvidaram de sua vitalidade, razão por que lhe deram pouca atenção. Mas quando o viram crescer, a despeito de tudo, propagar-se em todas as fileiras da sociedade e em todas as partes do mundo, tomar o seu lugar entre as crenças e tornar-se uma potência pelo número de seus aderentes, os interessados na manutenção das ideias antigas alarmaram-se seriamente. Então uma verdadeira cruzada foi dirigida contra ele, dando início ao período da luta, de que o auto-de-fé de Barcelona, de 9 de outubro de 1861, de certo modo foi o sinal. Até então ele tinha sido alvo dos sarcasmos da incredulidade, que ri de tudo, principalmente do que não compreende, mesmo das coisas mais santas, e aos quais nenhuma ideia nova pode escapar: é o seu batismo de fogo. Mas os outros não riem: fitam-no com cólera, sinal evidente e característico da importância do Espiritismo. Desde então os ataques assumiram um caráter de violência inaudita. Foi dada a palavra de ordem: sermões furibundos, pastorais, anátemas, excomunhões, perseguições individuais, livros, brochuras, artigos de jornais, nada foi poupado, nem mesmo a calúnia.

Revista Espírita 1864

Sob este título um novo órgão do Espiritismo acaba de surgir em Antuérpia, a partir de 1º de janeiro de 1864. Sabe-se que a Doutrina Espírita fez rápidos progressos nessa cidade, onde se formaram numerosas reuniões, compostas de homens eminentes pelo saber e pela posição social. Em Bruxelas, por mais tempo refratária, a ideia nova também ganha terreno, como em outras cidades da Bélgica. Uma sociedade espírita, formada recentemente, houve por bem pedir-nos que aceitássemos a presidência de honra; é dizer em que caminho ela se propõe andar.

Sem essa concordância, quem poderia estar seguro de ter a verdade? A razão, a lógica, o raciocínio, sem dúvida são os primeiros meios de controle que devem ser usados; em muitos casos isto basta. Mas quando se trata de um princípio importante, da emissão de uma ideia nova, haveria presunção em crer-se infalível na apreciação das coisas. É, aliás, um dos caracteres distintivos da Revelação Nova o ser feita em toda parte e ao mesmo tempo; assim ocorreu com as diversas partes da Doutrina. Aí está a experiência para provar que todas as teorias audaciosas, dadas por Espíritos sistemáticos e pseudossábios, sempre foram isoladas e localizadas; nenhuma se tornou geral nem pôde suportar o controle da concordância; várias, até, caíram no ridículo, prova evidente de que não estavam com a verdade. O controle universal é uma garantia para a futura unidade da Doutrina.

Hoje o Espiritismo entra em nova fase, pois é tempo das aspirações generosas. A burguesia, ainda submetida ao alto clero, fica como espectadora do combate pacífico que a ideia nova oferece ao non possumus do passado. E todos esperam o fim da batalha, a fim de se colocarem ao lado dos vencedores.

Os Espíritos Superiores procedem em suas revelações com extrema sabedoria. Não abordam as grandes questões da Doutrina senão gradualmente, à medida que a inteligência está apta a compreender verdades de ordem mais elevada e quando as circunstâncias são propícias à emissão de uma ideia nova. É por isso que eles não disseram tudo desde o começo, e ainda não o disseram até hoje, jamais cedendo à impaciência de pessoas muito apressadas que querem colher os frutos antes que amadureçam. Seria, pois, supérfluo querer avançar o tempo designado a cada coisa pela Providência, porque, então, os Espíritos realmente sérios negariam o seu concurso. Os Espíritos levianos, porém, pouco se preocupando com a verdade, respondem a tudo; é por isso que, sobre todas as questões prematuras, há sempre respostas contraditórias.

Revista Espírita 1867

Não se fará mais do Espiritismo uma crença ignorada e aceita apenas por alguns cérebros supostamente doentes; será uma filosofia admitida ao banquete da inteligência, uma ideia nova tendo posição ao lado das ideias progressivas, que marcam a segunda metade do século dezenove. Assim, felicitamos vivamente aquele que soube, como primeiro, pôr de lado todo falso respeito humano, para arvorar francamente e claramente sua crença íntima.

Definamos primeiro o sentido da palavra revelação. Revelar, derivado da palavra véu (do latim velum), significa literalmente sair de sob o véu — e, figuradamente, descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção vulgar mais genérica, essa palavra se emprega a respeito de qualquer coisa ignota que é divulgada, de qualquer ideia nova que nos põe ao corrente do que não sabíamos.

Está nas vicissitudes das coisas humanas, ou, melhor dizendo, parece fatalmente reservado a toda ideia nova ser mal acolhida ao seu aparecimento. Como, as mais das vezes, tem por missão derrubar ideias que a precederam, encontra resistência muito grande da parte do entendimento humano.

“O homem que viveu com preconceitos não acolhe senão com desconfiança a recém-chegada, que tende a modificar, a destruir mesmo combinações e ideias fixas em seu espírito, a forçá-lo, numa palavra, a meter mãos à obra, para correr atrás da verdade. Aliás, sente-se humilhado em seu orgulho, por ter vivido no erro.

“A repulsa que inspira a ideia nova é muito mais acentuada ainda quando traz consigo obrigações, deveres; quando impõe uma linha de conduta mais severa.

 

 

Nenhum comentário: