29 setembro 2026

Estendamos o Bem

"Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem."

— Paulo (Romanos 12:21)

O Espírito Emmanuel, no capítulo 35 da obra Fonte Viva — intitulado "Estendamos o Bem" —, comenta a passagem de Romanos 12:21. Na Carta aos Romanos, há seções dedicadas à doutrina da Igreja, às práticas exemplares e, especificamente no versículo 12:21, encontra-se o ponto culminante da ética paulina, profundamente enraizada nos ensinamentos de Jesus. Trata-se da aplicação prática da justificativa pela fé: quem foi vencido pela graça de Deus passa, agora, a vencer o mal com o bem.

Em seus comentários, Emmanuel chama a nossa atenção para os ensinamentos da natureza. A palavra natureza vem do latim natura, que significa “nascer”, e refere-se a tudo o que existe no mundo físico e material de forma espontânea, sem depender da intervenção humana deliberada. Inclui os fenômenos naturais — como terremotos, enchentes e erupções vulcânicas —, que ocorrem independentemente da ação do homem.

O mal — embora sentido como real no mundo relativo — pode ser considerado como a ausência do bem. Onde o bem ainda não se estabeleceu, observa-se a presença do mal, compreendido não como uma criação autônoma, mas como a imperfeição ou a falta do próprio bem. Do mesmo modo, o simples ato de deixar de praticar o mal já representa o primeiro passo na vivência do bem.

A Doutrina Espírita ensina que Deus quer apenas o bem; o mal, portanto, provém unicamente da ignorância e do livre-arbítrio imperfeito do ser humano. É por essa razão que Allan Kardec e os Espíritos instrutores, como Emmanuel e André Luiz, convidam-nos constantemente à prática ativa do bem e à transformação moral.

O bem, sob a ótica do Espiritismo, é definido como tudo aquilo que está em harmonia com a Lei de Deus. Na questão 621 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta: "Onde está escrita a lei de Deus?", ao que os Espíritos respondem: "Na consciência." O filósofo J. Herculano Pires comenta que a lei de Deus está gravada na consciência humana como a assinatura do artista em sua obra, cabendo-nos atualizá-la no dia a dia da nossa existência.

Nessa lição, o Espírito Emmanuel recorda-nos de que a própria natureza é pródiga em nos oferecer lições vivas para a nossa transformação comportamental. Logo após um temporal — evento muitas vezes encarado como um "mal" devido à aparente destruição da paisagem —, novas forças da vida organizam-se para o trabalho de reconstrução:

"O Sol envia luz sobre o lamaçal, curando as chagas do chão; o vento acaricia o arvoredo e enxuga-lhe os ramos; o cântico das aves substitui a voz do trovão... A árvore de frondes quebradas ou feridas regenera-se, em silêncio, a fim de produzir novas flores e novos frutos."

Em última análise, compreende-se que, na economia divina, todo mal encerra em si a semente ou a oportunidade para um bem maior. É natural que nem sempre estejamos capacitados a perceber essa finalidade imediata, dada a limitação do nosso entendimento frente às soberanas Leis de Deus. Contudo, a nossa confiança na Providência Divina e no amparo dos Bons Espíritos deve sobressair-se à nossa percepção ainda imperfeita da realidade.

10 setembro 2026

O Espírito frente à Demência: Alzheimer à Luz do Espiritismo

Questão: A pessoa acometida de Alzheimer pode ser considerada uma “morta-viva”?

Resposta: Inicialmente, devemos enfatizar que o Espírito permanece íntegro; o que se deteriora é apenas o instrumento físico — neste caso, o cérebro. A pessoa com Alzheimer ou demências semelhantes não é uma "morta-viva" no sentido espiritual. O que se observa é a limitação progressiva da manifestação do Espírito por meio de um órgão físico danificado. O Espírito imortal continua lúcido em sua essência, mas o corpo — especialmente o cérebro — deixa de lhe servir adequadamente como instrumento de expressão.

09 setembro 2026

Ludibriar ou Iludir a si Mesmo?

Tese: “Conseguiu ludibriar os homens, mas não pôde iludir a si mesmo”.

A frase “Conseguiu ludibriar os homens, mas não pôde iludir a si mesmo”, proferida pelo mentor Calderaro no capítulo 4 — “Estudando o Cérebro” —, da obra No Mundo Maior, psicografada por Francisco Cândido Xavier e atribuída ao espírito André Luiz, é uma das mais substanciais e pedagógicas de todo o livro.

O personagem em questão assassinou o antigo tutor e chefe num acesso de fúria, apoderou-se do dinheiro a que se julgava com direito e, com notável habilidade, conseguiu despistar completamente a justiça humana. Chegou a representar o papel de “filho adotivo” zeloso — protegendo a viúva e os filhos da vítima — e construiu, posteriormente, uma sólida posição social e familiar. Aos olhos do mundo, tornou-se um homem bem-sucedido e respeitável.

Entretanto, a consciência não o deixou em paz. O espírito da vítima aferrou-se a ele “à maneira de hera sobre muro viscoso”, e o próprio remorso passou a ocupar permanentemente a região intermediária de seu cérebro, impedindo o acesso livre às zonas superiores da mente (os lobos frontais, sede da consciência divina e dos ideais mais elevados). O resultado foi o desequilíbrio progressivo do perispírito, refletido no corpo físico sob a forma de uma enfermidade nervosa grave.

A frase sintetiza a infalibilidade da Lei de Causa e Efeito e a soberania da consciência individual:

1) A justiça humana é falível; a divina, inexorável: Kardec ensina que as leis humanas refletem a falibilidade dos homens, ao passo que as leis divinas são imutáveis e perfeitas. No caso analisado, André Luiz demonstra que o criminoso enganou juízes, a polícia e a opinião pública, mas não conseguiu burlar a própria consciência nem a lei moral.

2) Ninguém se esconde de si mesmo: Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec destaca a consciência como o verdadeiro “guardião da probidade interior”. Mesmo com um cotidiano recheado de trabalho, cuidados familiares e devotamento ao próximo, a voz da consciência permanece ativa no íntimo do ser, gerando remorso e angústia. Neste capítulo, Calderaro elucida que o cérebro é o órgão de manifestação da mente: quando esta se fixa predominantemente nas regiões intermediárias — devido ao remorso e à culpa —, as zonas superiores se obscurecem, refletindo-se na saúde do organismo.

3) A impossibilidade do autoengano: Podemos ludibriar os outros, construir máscaras e até tentar convencer a nós mesmos; contudo, a memória espiritual registra tudo. No fundo da mente, onde o criminoso enclausurou as impressões destruidoras do delito, o remorso continua exercendo pressão constante. A fuga por meio do ativismo material ou da constituição de uma família, embora sirva como atenuante, não resolve o problema em sua raiz.

4) Consequências terapêuticas: O instrutor mostra que a verdadeira libertação advém da confissão interior, do arrependimento sincero e do trabalho reparador. Enquanto o indivíduo se recusar a enfrentar o que fez, a carga fluídica negativa permanecerá arquivada, manifestando-se sob a forma de enfermidade. O amor fraterno dos familiares oferece alívio e amparo, mas não substitui o imperativo do refazimento íntimo.

Em síntese, a frase ultrapassa o caso particular do homicídio, aplicando-se a qualquer atitude em que tentamos enganar os outros ou a nós mesmos — como as dissimulações, as hipocrisias, as omissões e as mágoas cultivadas. No íntimo, permanece a nossa consciência que, alinhada às leis superiores, adverte-nos constantemente sobre esses desvios.

02 setembro 2026

Linguagem

Linguagem é o título do capítulo 43 do livro Fonte Viva, no qual o Espírito Emmanuel comenta o versículo: “Linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se envergonhe, não tendo nenhum mal que dizer de nós” (Tito 2:8).

O contexto de Tito 2 é o da organização e disciplina de uma igreja jovem e problemática na ilha de Creta, no final do ministério de Paulo. Dada a fama de os cretenses serem “sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos” (Tito 1:12), Tito tinha a missão de pôr em ordem o que ainda faltava. Logo no primeiro versículo, Paulo orienta: “Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina”. Mais adiante, dirige-se aos idosos, às mulheres e exorta os jovens a serem moderados. Por fim, no versículo 8, destaca a necessidade de uma fala irrepreensível.

Oriunda do grego parabolé, pelo latim parabola (comparação), a palavra passou, ao longo do tempo, a designar o próprio ato de falar. O Espírito André Luiz, na obra Evolução em Dois Mundos, apresenta a trajetória dessa faculdade — sempre amparada pelos Sábios Tutores —, mostrando sua evolução desde os primeiros grunhidos dos primórdios humanos até a fala racional dos dias atuais. Assim, a linguagem serve para argumentar, formar raciocínios e transmitir conhecimento.

Cada ser humano é um enigma para o outro. Afinal, quem poderá penetrar no âmago do seu próximo? Contudo, há elementos comuns a todos nós: necessidades a suprir, problemas a resolver e dores a suportar. A dor, por exemplo, é teleológica: carrega em si um propósito e um destino. Muitas vezes, ela surge como consequência de imperfeições e equívocos de encarnações passadas. Nesta vida, cabe-nos aparar essas arestas, o que frequentemente ocorre no próprio núcleo familiar em que renascemos.

A linguagem fundamenta-se na expressão, na maneira de falar e na própria voz. No meio espírita, onde as pessoas nos procuram sobrecarregadas por problemas e necessidades diversas, precisamos empregar uma linguagem sã e irrepreensível, como nos orienta o apóstolo Paulo. Assim, após ter percorrido diferentes cultos religiosos sem conseguir aclarar suas dores, o frequentador pode encontrar na palavra acolhedora uma verdadeira injeção de ânimo e fortaleza interior.

E quanto à voz? Para ser compreensível, a palavra sã não pode vir acompanhada de um tom violento ou rude. Há vozes que encantam e arrebatam as pessoas, mas que, no fundo, não transmitem uma verdade fundamental ao ouvinte — buscam apenas iludi-lo e instrumentalizá-lo, como frequentemente ocorre na política. Por isso, o importante é educarmos sempre a nossa voz para que ela se coloque, cada vez mais, a serviço dos Bons Espíritos.

Em suma, que a nossa linguagem não seja nem branda ou doce em excesso, nem tampouco rude demais. Saber dosar o tom, o timbre e manter o equilíbrio — elementos que conduzem à verdadeira moderação — é o que realmente importa no final.