Na questão 920 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec indaga sobre a possibilidade de haver uma felicidade completa na Terra. Em resposta, os Espíritos esclarecem que, no atual estado do planeta, isso é impossível, por se tratar de um mundo de provas e expiações. Contudo, ressaltam que cabe a cada indivíduo abrandar os próprios males e ser tão feliz quanto seja possível no meio terrestre.
Embora existam múltiplos conceitos de felicidade — com destaque para as
reflexões dos filósofos clássicos —, sob a ótica espírita, a felicidade ideal e
duradoura é compreendida como um estado de profunda paz de consciência,
alinhamento com as Leis Divinas e uma conquista íntima e progressiva do
Espírito.
Dentre a pluralidade dos mundos, a Terra encontra-se em processo de
transição planetária, deixando de ser um planeta de provas e expiações para se
tornar um mundo de regeneração. Nessa nova fase, o mal ainda existirá, mas
deixará de predominar; as dores física e moral serão atenuadas e a humanidade
experimentará um estado de paz, fraternidade e felicidade muito superior ao que
conhecemos hoje.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo,
Allan Kardec caracteriza a Terra não como um lugar de repouso, mas sim como uma
espécie de escola e hospital — um ambiente pedagógico e correcional cuja
finalidade é aparar as nossas arestas. O autor nos esclarece que as provas são
testes para exercitar e comprovar o desenvolvimento moral, enquanto as
expiações representam oportunidades de reajuste, perante a Lei de Causa e
Efeito, por conta de males praticados em encarnações anteriores.
O Espiritismo nos ensina que a felicidade perfeita não é um lugar físico
onde se chega, mas o grau de evolução e harmonia que a alma alcança. Por isso,
a Doutrina enfatiza a busca pela felicidade relativa — compatível com o estágio
evolutivo do nosso planeta —, que se traduz na paz íntima de saber que se está
caminhando na direção do bem, confiando na justiça e no amor do Criador,
independentemente das tempestades do mundo exterior.
Se pretendermos buscar a felicidade perfeita e o repouso absoluto em um
mundo de aprendizado como o nosso — que funciona como escola e hospital —,
estaremos fadados à frustração. A verdadeira chave para a felicidade relativa
que nos é acessível na Terra reside no empenho sincero na prática do bem, no
cultivo da caridade e no esforço contínuo de autoaperfeiçoamento.