08 julho 2011

Ceticismo e Espiritismo

Ceticismo. Do grego skeptikos, aquele que investiga. Concepção segundo a qual algum ou todo conhecimento é duvidoso ou mesmo falso. O ceticismo pode ser sistemático ou moderado. O ceticismo sistemático, total ou radical, é duvidar de tudo; o ceticismo moderado utiliza a dúvida como modo de propor novas ideias. O ceticismo sistemático é impossível porque toda ideia é avaliada contra outras ideias. O ceticismo moderado deveria ser a norma de todo o aprendiz. Ele é sinônimo de mente aberta, que é a disposição para aprender novos itens e revisar crenças.

Em se tratando do ceticismo, há o paradoxo cético e os argumentos da ilusão. No paradoxo cético, o cético radical duvida de tudo igualmente. Ele coloca todas as hipóteses científicas ou não científicas no mesmo nível. É possível que ele peça tolerância ou até apoios para especulações não cientificas, o que, na prática, pode encorajar a credulidade(1). Para os que defendem os argumentos da ilusão, os sentidos às vezes nos enganam e podem fazê-lo em todas as ocasiões. Pode-se, assim, argumentar que talvez os sentidos nos enganem sempre. Este argumento não deixa de ser um erro, pois não é porque às vezes nos enganem que podem nos enganar sempre. Uma moeda pode estar viciada, mas não podemos inferir que todas estejam viciadas(2).

O ceticismo pode ser comparado ao dogmatismo. O ceticismo radical nega que podemos chegar à verdade absoluta. O dogmatismo é o seu oposto, ou seja, é a atitude que consiste em admitir a possibilidade, para a razão humana, de chegar a verdades absolutamente certas e seguras.

Em se tratando da Doutrina Espírita, poder-se-ia dizer que Allan Kardec foi um cético moderado. Em todas as suas obras, o codificador tinha por base uma premissa muito importante: “É preferível rejeitar nove verdades a aceitar uma única como erro”. Além do mais, o Espiritismo foi codificado segundo uma metodologia científica. Ele não se fiou em um único médium, nem em uma única mensagem. Pegava várias respostas, de diferentes médiuns, para, depois, publicá-las de acordo com os princípios da razão.

Embora Allan Kardec tenha fundamentado os princípios espíritas sobre as leis da natureza, deixava sempre uma porta aberta à dúvida, pois se uma nova lei fosse descoberta, o Espiritismo teria de se pôr de acordo com essa lei. Acrescenta: “Não lhe cabe fechar a porta a nenhum progresso, sob pena de se suicidar. Assimilando todas as ideias reconhecidamente justas, de qualquer ordem que sejam, físicas ou metafísicas, ela jamais será ultrapassada, constituindo isso uma das principais garantias da sua perpetuidade”.(3)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo: Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)
(2) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho... et al. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
(3) KARDEC, A. Obras Póstumas. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1975, p. 349.

Texto em Forma de Palestra (PDF)
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O Poder da Dúvida (Varanasi II) (*)

Há dois tipos de perguntas: as que são fruto da reação e as que são fruto da não reação. As primeiras provocam respostas superficiais, e nada contribuem para a mudança radical do ser humano. As segundas geralmente não têm respostas, e são mais significativas.
Geralmente, as perguntas que fazemos sofrem a influência de algum tipo de autoridade: família, governo, tradição, técnica, religião, etc. É possível construir pensamentos, livres dessa influência?
Perguntas superficiais deformam os pensamentos, porque a mente só funciona mecanicamente, dentro dos limites do conhecimento. Ela se torna incapaz de transcender a si própria.
É possível ficar livre do passado? O passado está sempre moldando a nossa mente. Pode o passado (memória) ser apagado? Se não o apagarmos, nunca experimentaremos algo novo, o imprevisto, o desconhecido. A memória nos impele a obedecer, a seguir.
Para uma mudança completa, cumpre duvidar a fundo da autoridade. Duvidar é mais importante do que investigar. Duvidar é desvendar a natureza da autoridade. Como ver algo novo, partindo de um dogma, de uma ideia já aceita?
(*) KRISHNAMURTI, J. A Mutação Interior. Tradução de Hugo Veloso. São Paulo: Cultrix, 1976.

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