29 fevereiro 2012

Judas Iscariotes e a Paixão de Cristo

Na semana em que se comemora a Paixão de Cristo, costuma-se "malhar o Judas". Geralmente, as pessoas o fazem inconscientemente, movidas mais pelos costumes do que pelo fato em si. O Irmão X, no capítulo 5 ("Judas Iscariotes"), do livro Crônicas de Além-Túmulo, pela psicografia de Chico Xavier, mostra-nos o erro que cometemos, pois não levamos em conta a atuação do tempo na evolução do Espírito.

Judas, explicando o ocorrido, diz: "Jesus estava entre essas forças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória. Com as suas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder já que, no seu manto de pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade. Planejei então uma revolta surda como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica como a que fez mais tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que aliás apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre, a Caifás, não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos".


28 fevereiro 2012

Silêncio

De acordo com o dicionário, podemos dizer que o silêncio é a ausência de qualquer ruído, um estado de sossego, de repouso.  Para a filosofia, porém, o silêncio não se confunde com ausência de qualquer ruído; ele representa apenas a abolição da palavra ou da linguagem. Em termos metafísicos, a experiência do silêncio gera uma angústia existencial: "O silêncio eterno dos espaços infinitos me apavora", diz Pascal. Há, também, a experiência mística, que liga o silêncio à oração, à meditação, ao ascetismo e à solidão.

O silêncio segundo alguns pensadores. Para Confúcio, “O silêncio é um amigo que nunca atraiçoa”; para Thomas Browne, “Não penses que o silêncio é a sabedoria dos tolos. Pelo contrário, no devido tempo e no devido lugar, é a honra dos sábios, que não possuem a fraqueza, senão a vontade de calar”; para Alejandro Casona, “Não falar nunca de uma coisa não quer dizer que não se sinta”; para Marcel Arnac, “Saber falar é bom; saber calar é melhor. Quantos cretinos passaram por pessoas inteligentes, simplesmente porque, tendo sabido calar, pensaram as mesmas cretinices que os outros pensaram, mas não as disseram”.

O silêncio é uma atitude fundamental do ser humano, que apresenta aspecto negativo e positivo. Em termos negativos, alude-se à passividade, ao isolamento e à incomunicabilidade. Positivamente, é o momento de reflexão da palavra, da meditação, da assimilação daquilo que foi dito. Sem o silêncio o indivíduo ficaria muito restrito às comunicações verbais sem os fundamentos da profundidade. Ouviria e passaria sem que pudesse ter um peso na evolução do ser humano.

Na Bíblia, há várias passagens acerca do silêncio, tanto no sentido negativo quanto no sentido positivo. A loquacidade, por exemplo, é condenada pela sua leviandade. O domínio da língua, por outro lado, é sinal de autodomínio. Em certo trecho dos Provérbios, “A língua assemelha-se ao timão de um navio, que é preciso dirigir e controlar”. “A sabedoria está em saber calar e saber falar em seu devido tempo”. (Ecl 3, 1-7)

Em se tratando de nossa relação com Deus, silêncio absoluto, estejamos atentos às palavras de Cristo, que veio ao mundo para nos ensinar a obediência ao Pai, no sentido de fazer transcender a nossa alma enfermiça. Por isso, o cuidado de não nos apegarmos demasiadamente à superficialidade do cotidiano, às sugestões da mídia, às sugestões de outras tantas inutilidades para a evolução real do nosso Espírito.

O silêncio é o lenitivo para todas as nossas dores. Exercitemo-nos em ouvir os outros, pois todos podem ser nossos professores em algum detalhe da vida.

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“Quando a ascética cristã fez a apologia do silêncio, não o fez como negação da comunicação, que é a expressão suprema dos valores interpessoais, mas sim como um serviço a essa comunicação com Deus e com os irmãos”.

Essa apologia foi feita para arrancar a comunicação de seus caminhos rotineiros e superficiais e canalizá-la para as profundezas de um autêntica experiência.

Silêncio representa traição à causa quando a situação exige que se proclame corajosamente o Evangelho.

A maravilha de Deus também provoca no homem o silêncio da surpresa, da estupefação.

Neste mundo de tantas palavras tão falsas e superficiais é preciso aprender a fazer silêncio e ponderar bem aquilo que vai dizer, para não repetir slogans maquinalmente, mas falar como expressão de vivência interior. 

IDÍGORAS, J. L. Vocabulário Teológico para a América Latina. São Paulo: Paulinas, 1983.

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"A infelicidade de um homem começa com a incapacidade de estar a sós, consigo mesmo, num quarto." (Pascal)

Isso diz respeito ao silêncio. Pesquisas da Universidade de Virginia e da Harvard mostram que este problema é bem atual. No teste que aplicaram aos pretendentes (permanecer 6 a 15 minutos em silêncio total), poucos lograram êxito. 



25 fevereiro 2012

Hipócritas e Hipocrisia, em o Evangelho Segundo o Espiritismo

Introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo

Em “Notícias Históricas”, no item Fariseus, temos: “Acreditavam, ou, pelo menos, fingiam acreditar na Providência, na imortalidade da alma, na eternidade das penas e na ressurreição dos mortos”. Jesus, que prezava a simplicidade e as qualidades da alma, procurou, em toda a oportunidade, desmascarar-lhes a hipocrisia.

Em “Sócrates e Platão, Precursores da Ideia Cristã e do Espiritismo”, extraímos: Sócrates, como o Cristo, foi vítima do fanatismo, por haver atacado as crenças que encontrara e colocado a virtude real acima da hipocrisia e do simulacro das formas; o combate aos preconceitos religiosos tem esse preço. 

Capítulo VIII  Bem-Aventurados Aqueles que Têm Puro o Coração.

Em “A Verdadeira Pureza. Mãos não lavadas”, temos: “Hipócritas, bem profetizou de vós Isaías, quando disse: Este povo me honra de lábios, mas conserva longe de mim o coração; é em vão que me honram ensinando máximas e ordenações humanas." (Mateus, 15, 1 a 20)

Comentário: Não é o que entra pela boca que macula o homem, mas o que sai, pois o que sai provém do coração.

Capitulo X    Bem-Aventurados Aqueles que São Misericordiosos

Em “O Argueiro e a Trave no Olho”, temos: “Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? - Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro ao teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? - Hipócritas, tirai primeiro a trave ao vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão”(Mateus, 7, 3 a 5.)

Comentário: vemos o mal que há no outro, mas somos incapazes de ver o mal que há dentro de nós. Este é o grande problema da Humanidade. Para resolvê-lo, deveríamos nos colocar no lugar do outro.

Capítulo XI — Amar ao Próximo como a Si Mesmo

Em “Dai a César o que é de César”, os discípulos dos fariseus fazem a seguinte pergunta a Jesus: É-nos permitido pagar ou deixar de pagar a César o tributo? “Jesus, porém, que lhes conhecia a malícia, respondeu: Hipócritas, por que me tentais? Apresentai-me uma das moedas que se dão em pagamento do tributo. E, tendo-lhe eles apresentado um denário, perguntou Jesus: De quem são esta imagem e esta inscrição? - De César, responderam eles. Então, observou-lhes Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. (Mateus, 22, 15 a 22; Marcos, 12, 13 a 17.)

Comentário: a questão proposta tinha o cunho de transformar um problema político em religioso. Mas, “Jesus conhecendo sua malícia”, evita a dificuldade, dando-lhes uma lição de justiça, dizendo-lhes para restituírem a cada um o que lhe era devido.

Capítulo XII — Amai os Vossos Inimigos

Em “A Vingança”, os Espíritos nos instruem que a vingança, as mais das vezes assume aparências hipócritas, ocultando nas profundezas do coração os maus sentimentos que o animam. “Toma caminhos escusos, segue na sombra o inimigo, que de nada desconfia, e espera o momento azado para sem perigo feri-lo...”

Capítulo XIII  Que a Vossa Mão Esquerda não Saiba o que Dá a Vossa Mão Direita

Em “Fazer o Bem Sem Ostentação”, anotamos: “Tende cuidado em não praticar as boas obras diante dos homens, para serem vistas, pois, do contrário, não recebereis recompensa de vosso Pai que está nos céus. - Assim, quando derdes esmola, não trombeteeis, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Digo-vos, em verdade, que eles já receberam sua recompensa. - Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita; - a fim de que a esmola fique em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará”. (Mateus, 6 , 1 a 4.)

Comentário: esta passagem evangélica caracteriza a beneficência modesta; é sinal de grande superioridade moral, pois quem o faz deixa de lado a vida presente e concentra-se na vida futura; deixa de lado o reconhecimento dos homens para, se possível, ter o reconhecimento de Deus.

Capítulo XXI — Haverá Falsos Cristos e Falsos Profetas

Em “Não Acrediteis em Todos os Espíritos”, temos: “O Espiritismo revela outra categoria bem mais perigosa de falsos Cristos e de falsos profetas, que se encontram, não entre os homens, mas entre os desencarnados: a dos Espíritos enganadores, hipócritas, orgulhosos e pseudo-sábios, que passaram da Terra para a erraticidade e tomam nomes venerados para, sob a máscara de que se cobrem, facilitarem a aceitação das mais singulares e absurdas ideias”.

Comentário: se não analisarmos cuidadosamente a mensagem dos Espíritos, poderemos facilmente cair em suas ciladas.

Capítulo XXVII  Pedi e Obtereis

Em “Qualidades da Prece”, temos: “Quando orardes, não vos assemelheis aos hipócritas, que, afetadamente, oram de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas para serem vistos pelos homens. - Digo-vos, em verdade, que eles já receberam sua recompensa...” (Mateus, 6, 5 a 8.)

Comentário: procuremos orar sempre em silêncio, no âmago do nosso coração.

Capítulo XXVIII — Coletâneas de Preces Espíritas

Em “Para Afastar os Maus Espíritos”, anotamos “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que limpais por fora o copo e o prato e estais, por dentro, cheios de rapinas e impurezas. - Fariseus cegos, limpai primeiramente o interior do copo e do prato, a fim de que também o exterior fique limpo. - Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que vos assemelhais a sepulcros branqueados, que por fora parecem belos aos olhos dos homens, mas que, por dentro, estão cheios de toda espécie de podridões. - Assim, pelo exterior, pareceis justos aos olhos dos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidades”. (Mateus, 23, 25 a 28.)

Comentário: os Espíritos não se afastam pela ordenança ou pelo pedido. Precisamos despojar de nós o que os atrai. 

 

22 fevereiro 2012

Consciência Cristalizada

O que significa cristalizar? Como uma consciência pode se cristalizar? Figuradamente, podemos dizer que cristalizar é a ação de concentrar-se, de fixar-se em torno de um sentimento, de uma ideia, de um assunto etc.: a cristalização da atenção. Em se tratando da consciência, podemos dizer que é aquela que se fixou, se concentrou num conteúdo de ideias e sentimentos, sem querer dele abrir mão.

A consciência se cristaliza porque não nos empenhamos em pensar por nós mesmos, ficando à escuta sempre dos outros ou dos apelos do mundo que nos circunda, como toda a espécie de mídia. Além disso, quando não nos concentramos em nós mesmos, podemos ser presas fáceis do monoideísmo, das ideais fixas, muitas delas nos levando aos quadros de obsessão, com os seus desdobramentos em fascinação e subjugação.

Sócrates,na Antiguidade, já nos falava da necessidade de nos conhecermos a nós mesmos, de nos tornarmos seres humanos autoconscientes. Em 7 de janeiro de 1937, no capítulo 25, do livro Crônicas de Além-Túmulo, pelo Espírito Irmão X, através de Francisco Cândido Xavier, volta ao mesmo tema, ou seja, à “consciência de si mesmo”, como a única maneira de combater o pensamento cristalizado.

Desta mensagem, escolhemos duas passagens que nos auxiliam a compreensão deste tema: 
 1ª) desejaríeis enviar para o mundo as vossas mensagens benevolentes e sábias?  Seria inútil, pois os homens da Terra ainda não se reconheceram a si mesmos; são cidadãos da pátria, sem serem irmãos entre si; — 2) há a elite dos filósofos que se sentiriam orgulhosos de vos ouvir. — Mesmo entre eles as nossas verdades não seriam reconhecidas. Quase todos estão com o pensamento cristalizado no ataúde das escolas.

No Espiritismo, aprendemos que o estado mórbido da consciência (monoideísmo) caracteriza-se pela persistência de uma ideia, que nem o curso normal das ideias, nem a vontade conseguem dissipar. A fixação mental é uma questão de atitude assumida. Se mudarmos o foco, ou seja, se melhorarmos o teor energético de nosso pensamento,  ampliaremos o nosso campo mental para o bem e estaremos nos libertando dos pensamentos malsãos.

Quando toda a humanidade tornar-se consciente de si, não haverá mais cidadãos da pátria, mas somente irmãos entre si. 




09 fevereiro 2012

Caminho

“O caminhante não tem caminho, o caminho se faz ao caminhar”.

caminho é o símbolo expressivo da vida humana. Representa uma incessante caminhada da infância à juventude, desta para a maturidade e da maturidade para a velhice. Há o caminho rústico do homem do campo e o caminho apressado do homem citadino. Podemos caminhar por ruas, avenidas e praças. Nos campos, as estradas estão vazias; nas cidades, superlotadas.   

Tomar um caminho velho, aberto pelas gerações anteriores, é aproveitar as suas experiências, as quais podem nos desviar dos erros que já cometeram. A navegação mostra-se mais suave que na terra, mas tem também os seus percalços, ou seja, as tormentas do alto mar. Psicologicamente, podemos falar do caminho interior, em que cada um faz a sua própria caminhada.  

Do ponto de vista religioso, o que conta é o aproveitamento moral da existência. Nesse sentido, há o bom e o mau caminho. O bom caminho exige esforço, dedicação, persistência para entrar pela porta estreita; o mal, que se fundamenta no comodismo, pode nos levar aos vícios de toda espécie. O caminho é meio, a meta é a salvação. O caminho por excelência do cristão é caminhar com Cristo, que nos leva ao Pai. Jesus não só nos ensina o caminho, como nos faz encontrar com o Pai.

05 fevereiro 2012

Joaquim Mota e a Divulgação do Espiritismo

O Espírito Humberto de Campos (Irmão X), no capítulo 12 (“Espiritismo e Divulgação”), do livro Cartas e Crônicaspsicografado por Francisco Cândido Xavier, relata o caso de Joaquim Mota, espírita de convicção desde a primeira mocidade.

Era espírita, sem a preocupação de militância. Como perdera um amigo, Licínio Fonseca, sentiu-se muito triste e desolado, pedindo, em prece, a possibilidade de ter com o amigo no plano espiritual. O pedido foi concedido. 

Os dois conversaram por longo tempo a respeito da imortalidade da alma, da lei de ação e reação, da necessidade de ajudar ao próximo...

Num dado momento da conversa.

Mota! Mota! Ouça!... Você está certo de que a vida aqui é a continuação do que deixamos e fazemos? já se convenceu de que todos os recursos do plano físico são empréstimos do Senhor, para que venhamos a fazer todo o bem possível e que ninguém, depois da morte, consegue fugir de si mesmo?...

— Sim, sim...

Nesse instante, porém, Licínio desvairou-se. Passeou pelo recinto o olhar repentinamente esgazeado, fêz instintivo movimento de recuo e bradou:

— Fora daqui, embusteiro, fora daqui!...

O visitante, dolorosamente surpreendido, tentou apaziguá-lo:

— Licínio, meu amigo, que vem a ser isso? acalme-se, acalme-se...  Sou eu, Joaquim Mota, seu companheiro do dia-a-dia...

— Nunca! Embusteiro, mistificador!... Se ele conhecesse as realidades que você confirma, jamais me teria deixado no suplício da ignorância... Meu amigo Joaquim Mota é como eu, enganado nas sombras do mundo... Ele foi sempre o meu melhor irmão!... Nunca, nunca permitiria que eu chegasse aqui, mergulhado em trevas!...