10 maio 2016

Estigma

"A orientação inicial que alguém recebe da educação também marca a sua conduta ulterior." (Platão)

Estigma é uma cicatriz provocada no corpo por uma ferida ou machucado. No âmbito religioso, é o nome dado às feridas feitas por alguns religiosos em seus corpos, na tentativa de representar as chagas de Cristo. Pejorativamente, indigno, desonroso.

Os gregos da Antiguidade criaram o termo estigma para caracterizar algo extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava. Os sinais, feitos com corte ou fogo, avisavam que o portador poderia ser um escravo, um criminoso ou traidor. Ao longo do tempo, foram acrescentadas algumas metáforas, principalmente as referentes às chagas de Cristo. Presentemente, o termo é aplicado tanto ao seu sentido original quanto à desgraça do indivíduo, mais do que ao próprio corpo. 

Erving Goffman foi o pioneiro a pensar o conceito de estigma numa perspectiva social: relação entre atributo e estereótipo. A sociedade institui um padrão natural e normal de comportamento. Quem atua de modo estranho à naturalidade, ganha os atributos que o tornam diferente. Eis o círculo vicioso: o estigma está relacionado a conhecimentos insuficientes ou inadequados (estereótipos), que leva a preconceitos (pressupostos negativos), à discriminação e ao distanciamento da pessoa estigmatizada. 

O estigma tem relação com o preconceito. As nossas concepções ingênuas, geralmente provenientes da tradição e dos costumes, forjaram “ideologias” e estigmatizaram “povos”. Não paramos para pensar se as atitudes de alguns indivíduos referem-se ou não à totalidade das pessoas. Com uma ideia pré-definida vamos marcando as pessoas, tais como, o judeu é ganancioso, o negro é indolente, os americanos são superficiais, e assim por diante.

Quem estigmatiza quem? Observe o discurso político da vitimização. Muitas vezes aquele que se passa por vítima nada mais é do que o vitimizador. 

No meio espírita, o estigma não deveria existir, pois para o Espiritismo, todos os Espíritos foram criados simples e ignorantes, sujeitos ao progresso. Todos somos irmãos em Cristo Jesus. Cada um de nós está num determinado nível de progresso. Por isso, a missão do homem inteligente na Terra é ajudar os mais ignorantes, nunca os desprezar ou marcá-los com um sinal negativo.

Fonte de Consulta

GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Tradução de Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. 4.ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988. 

UMA PESSOA QUE FUGIU DA NORMALIDADE

“Querida Senhorita Lonelyhearts,

Tenho 16 anos e não sei como agir. Gostaria muito que a senhora me aconselhasse. Quando eu era criança, não era muito ruim porque me acostumei com os meninos do quarteirão que caçoavam de mim, mas agora eu gostaria de ter namorados como as outras meninas e sair nas noites de sábado, mas nenhum rapaz sairá comigo porque nasci sem nariz — embora eu dance bem, tenha um tipo bonito e meu pai me compre lindas roupas.

Passo o dia inteiro sentada, me olhando e chorando. Tenho um grande buraco no meio do meu rosto que: amedronta as pessoas e a mim mesma, e não posso, portanto, culpar os rapazes por não quererem sair comigo. Minha mãe me ama muito, mas chora muito quando olha para mim.

Que fiz eu para merecer um destino tão terrível? Mesmo que eu tivesse feito algumas coisas ruins, não as fiz antes de ter um ano de idade, e eu nasci assim. Perguntei a papai e ele disse que não sabe, mas que pode ser que eu tenha feito algo no outro mundo, antes de nascer, ou que eu esteja sendo punida pelos pecados dele. Não acredito nisto porque ele é um homem muito bom. Devo me suicidar?

Sinceramente,

Desesperada.”

Extraído de Miss Lonelyhearts, de Nathanael West, pp. 14-15. Copyright 1962 por New Directions. Reimpressa por permissão de New Directions, Publishers


N. do T. — Corações Solitários.




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