16 novembro 2025

Júlio de Abreu Filho (1893-1972)

Júlio de Abreu Filho (1893-1972). Cearense, nascido em Quixadá em 10 de dezembro de 1893, Júlio Abreu Filho concluiu o ensino fundamental no Colégio São José, na Serra do Estevão. Em Salvador, Bahia, estudou na Escola Politécnica, mas não terminou o curso. Em Ilhéus, trabalhou na Delegacia de Terras, órgão vinculado à Secretaria da Agricultura. Foi funcionário daquela prefeitura e da Estrada de Ferro Inglesa, onde teve importante participação na construção do trecho ferroviário entre Ilhéus e Vitória da Conquista. 

Em 1921, no Rio de Janeiro, foi empregado da empresa de energia Light. Nesta mesma empresa, em 1929, transferiu-se para São Paulo, onde trabalhou na construção da usina hidrelétrica do parque industrial de Cubatão. 

Entre os anos de 1934 e 1935 foi professor do magistério secundário em vários colégios de São Paulo, capital. Em 1936, tornou-se funcionário da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, no departamento de engenharia rural, organismo responsável por diversos e importantes projetos no interior do Estado. 

15 novembro 2025

Proclamação da República e Espiritismo

Em 15 de novembro de 1889, o Brasil deixou de ser monarquia — governado por um imperador, D. Pedro II — e passou a ser uma república, um sistema de governo em que o chefe de Estado é escolhido pelos cidadãos (direta ou indiretamente). Fato: Marechal Deodoro da Fonseca, apoiado por setores do exército, políticos e parte da elite, liderou um movimento militar que decretou o fim da monarquia, expulsou a família real imperial do Brasil e instalou um governo provisório republicano.

O capítulo 27 — “A República” do livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, pelo Espírito Humberto de Campos, mostra-nos o aspecto espiritual desse acontecimento, enfatizando que esta mudança política fazia parte de um processo necessário ao crescimento moral do povo brasileiro. A obra não é historiografia acadêmica — é uma narrativa espiritualista, que busca mostrar o papel espiritual do Brasil no mundo e a atuação de Espíritos na condução dos acontecimentos.

De acordo com Humberto de Campos, a proclamação da República Brasileira representa mais um passo para a consolidação da maioridade coletiva da nação do Evangelho. Isso quer dizer que doravante, o Brasil político será entregue à sua responsabilidade própria. Os amigos do espaço estarão inspirando toda a nação para que essa mudança se faça sem derramamento de sangue.

A Proclamação deve ser vista como “depuração” das estruturas imperiais. De acordo com o livro, o Império possuía méritos, mas também limites: 1) o governo monárquico não conseguia mais atender às exigências do progresso; 2) era necessário criar bases mais flexíveis para uma sociedade em expansão; 3) a República viabilizaria novas ideias, maior participação e transformações sociais

Para Humberto de Campos, os acontecimentos políticos têm finalidade espiritual. A República abre portas para: 1) liberdades civis maiores; 2) pluralidade religiosa e de pensamento; 3) redefinição da educação e do trabalho; 4) crescimento moral do povo. Mesmo com suas falhas históricas, o novo regime possibilitou transformações que conduzem, segundo o livro, ao papel futuro do Brasil como difusor do Evangelho redivivo.

 

 

14 novembro 2025

Roustainguismo e Espiritismo

Jean-Baptiste Roustaing (1805–1879) foi contemporâneo de Kardec. Apresentou-se como um intérprete dos evangelhos — Mateus Marcos, Lucas e João — sob a inspiração espiritual. Na sua obra Os Quatro Evangelhos: Revelação da Revelação defende o corpo fluídico de jesus, ou seja, um corpo aparente, ideia esta criada pelo docetismo (do grego dokein, “parecer”)

O Espiritismo, codificado por Allan Kardec, tem como base o pentateuco espírita — O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritíssimo, A Gênese e o Céu e o Inferno —, além das diversas obras complementares, em especial a Revista Espírita. Seus princípios fundamentais podem ser resumidos: existência e imortalidade da alma; comunicabilidade dos espíritos; lei de causa e efeito, reencarnação, evolução moral e intelectual.

Allan Kardec não aprovava a ideia de Roustaing sobre o corpo fluídico de Jesus. Defendia que Jesus tinha um corpo de carne como qualquer outro ser humano. Enquanto Roustaing dizia que Jesus não sofreu na cruz, Kardec afirmava o contrário. A única ressalva em relação a Jesus é que ele foi o ser humano mais perfeito que reencarnou na Terra. Dada a sua condição de espírito perfeito, o seu perispírito seria formado dos elementos mais sutis do globo. Nesse caso, a dor poderia ser amenizada, mas não suprimida de todo.  

Allan Kardec, no capítulo XV — "Os Milagres do Evangelho", do livro A Gênese, afirma que o corpo de Jesus era, pois, um corpo semelhante ao nosso. Negar a materialidade seria negar a encarnação, o que contradiz o princípio universal da reencarnação. 

No item 67 deste capítulo, diz: "Esta concepção sobre a natureza do corpo de Jesus não é nova. No quarto século, Apolinário de Laodiceia, chefe da seita dos Apolinaristas, pretendia que Jesus não tivesse possuído um corpo como o nosso, mas um corpo ‘impassível’, que descera do céu no seio da Santa Virgem, e não nascera dela; que, por essa forma Jesus não havia nascido nem sofrido, e que só morrera em aparência. Os Apolinaristas foram anatematizados no Concílio de Alexandria, em 360; no de Roma, em 374; e no de Constantinopla, em 381”.


 

12 novembro 2025

O Sentido Oculto do Roustainguismo

"O Sentido Oculto do Roustainguismo" é o título do capítulo VII da Segunda Parte do livro O Verbo e a Carne: Duas Análises do Roustainguismo, de autoria de José Herculano Pires e Júlio Abreu Filho, cuja publicação original é de 1972, pela editora Paideia.   

É o fechamento da série de artigos de análise do livro do Sr. Ismael Gomes Braga, feito por Júlio de Abreu Filho. 

Eis a transcrição deste capítulo: 

Nesta análise por vezes fomos ásperos, dessa aspereza chocante mas necessária nos ambientes espíritas. Mercê de Deus, entretanto, jamais nos afastamos daquela recomendação de Kardec: discutir sem disputar. Nunca deixamos de citar fielmente as fontes; nunca faltamos com o respeito à lógica, aos fatos, à verdade. Se, de passagem, fizemos referências a pessoas, vivas ou desencarnadas, jamais ferimos condições personalíssimas. É que essas criaturas estavam ligadas à projeção social de acontecimentos que interessam à gente espírita de modo muito particular.

Tomaram os espíritas como slogan número um o título de uma obra ditada pelo Espírito de Humberto de Campos: Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. Meditem os leitores sobre o conceito aí contido. É possível que o Espírito tenha lá as suas razões. Mas como? Quando?

30 outubro 2025

Pedagogia: Jesus e Kardec

Pedagogia. Do grego paidogogia, formada por pais / paidós “criança”, agogós, “aquele que conduz, guia", ago, “conduzir, guiar”. Na Grécia Antiga, paidagogós não era professor, mas sim o escravo encarregado de acompanhar a criança até a escola, cuidar de sua conduta e garantir que estudasse. Literalmente, paidagogos era “aquele que conduz a criança”, ou seja, o guia da criança.

Com o tempo, o termo passou a designar não apenas o acompanhante físico da criança, mas aquele que a orienta na aprendizagem e na formação moral e intelectual. Assim, “pedagogia” evoluiu para significar: “A arte ou ciência de educar e instruir as crianças.” Hoje, o termo abrange a teoria e prática da educação, em sentido amplo, incluindo métodos, princípios e filosofia do ensino.

Pedagogia de Jesus. Jesus não era um pedagogo no sentido atual, pois não foi formado em nenhuma faculdade. A sua abordagem educacional pode ser extraída dos ensinamentos práticos, principalmente aqueles registrados nos evangelhos. Seus princípios fundamentais são: 1) ensino pelo exemplo (fala e ação); 2) respeito pela individualidade; 3) amor incondicional ao próximo; 4) ensinamento por parábolas (histórias simples para uma reflexão profunda).

Pedagogia espírita. Pode-se entender como o modo de conduzir o ser humano em seu processo de aprendizado e progresso moral, segundo os princípios do Espiritismo, codificados por Allan Kardec. Eis alguns pontos: 1) educação moral e espiritual; 2) reencarnação e evolução espiritual; 3) responsabilidade individual e coletiva; 4) desenvolvimento da consciência.

Para mais informações, consultar o livro Pedagogia Espírita do prof. J. Herculano Pires, editado pela Edicel em 1985. Nele encontraremos ensinamentos sobre o mistério do ser, educação integral, a pedagogia de Jesus, a didática de Kardec, o Espiritismo nas escolas, a pedagogia espírita, entre outros.

Podemos dizer que tanto a pedagogia de Jesus quanto a espírita tem um único objetivo: desenvolvimento integral do ser humano.

29 outubro 2025

Honra a teu Pai e a tua Mãe

Honra. Valor moral ligado à dignidade, à boa reputação e ao comportamento ético e virtuoso do indivíduo. Honrar significa agir com integridade e respeito, tanto diante da sociedade quanto no convívio familiar. Esse princípio se manifesta especialmente no cumprimento dos deveres morais, sendo uma virtude essencial para a construção de relações justas e harmoniosas.

No texto evangélico, a honra é destacada nos mandamentos bíblicos: “Honra teu pai e tua mãe”, presente tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Essa ordem divina é associada à piedade filial, ou seja, ao respeito e à gratidão dos filhos para com os pais. O Evangelho Segundo o Espiritismo amplia essa ideia, mostrando que a verdadeira honra inclui o reconhecimento espiritual dos laços familiares, que ultrapassam a convivência física e se estendem à dimensão espiritual.

No âmbito da família, devemos reconhecer que os laços entre pais e filhos são resultado de um planejamento espiritual anterior à reencarnação. Assim, as relações familiares não acontecem por acaso, mas têm o propósito de promover aprendizado e reconciliação entre espíritos. A harmonia familiar exige esforço mútuo, especialmente quando há dificuldades decorrentes de desentendimentos passados. 

Bíblia e Espiritismo. Moisés trouxe a Primeira Revelação com os Dez Mandamentos; Jesus, com o Novo Testamento, apresentou a Segunda, baseada no amor a Deus e ao próximo; e o Espiritismo, codificado por Allan Kardec, constitui a Terceira Revelação, aprofundando e ampliando esses ensinamentos. O Espírito André Luiz, em Evolução em Dois Mundos, reforça que a dívida para com os pais é sagrada e impagável, devendo sempre ser retribuída com respeito, gratidão e cuidado.

Nas responsabilidades mútuas, destaca-se que os pais têm o dever de educar moralmente os filhos e introduzi-los em valores espirituais e éticos. Já os filhos devem retribuir com carinho, assistência e respeito, especialmente na velhice dos pais.

Reafirmamos que honrar pai e mãe é mais do que obedecer: é reconhecer o amor, o sacrifício e a importância desses laços, perpetuando a harmonia e o aprendizado espiritual entre as gerações.

27 outubro 2025

Os Sãos não Precisam de Médico

“Os sãos não precisam de médico” é um dos subitens do capítulo XXIV — “Não por a Candeia Debaixo do Alqueire” de O Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec. Os demais subtítulos são: A Candeia Debaixo do Alqueire. Porque Fala Jesus por Parábolas — Não ir aos Gentios — A Coragem da Fé — Carregar a Cruz. Quem Quiser Salvar a Vida.

O endereço bíblico: E aconteceu que, estando Jesus assentado à mesa numa casa, eis que, vindo muitos publicanos e pecadores, se assentaram a comer com ele e com os seus discípulos. E vendo isto os Fariseus, diziam aos seus discípulos: Por que come o vosso mestre com os publicanos e pecadores? Mas, ouvindo-os, Jesus disse: Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os enfermos. (Mateus, IX: 10-12). 

A doença é uma condição que causa desvio ou interrupção do funcionamento normal de um organismo, manifestando-se por um conjunto de sinais e sintomas que limitam a capacidade funcional de um indivíduo. Ela pode ser física, mental e espiritual. Sua causa pode ser encontrada nesta ou em outras existências. Em se tratando da cura: para um problema físico, buscamos a orientação de um médico; se o problema é mental, um psicólogo; se for obsessão, um Centro Espírita.  

Mediunidade é uma faculdade humana, natural em que se estabelecem as relações entre o médium o espirito comunicante. É a relação entre encarnados e desencarnados. É uma condição humana, que não depende da moral do médium. Por isso, não devemos nos revoltar quando virmos médiuns cometendo os mais graves absurdos.

No item em questão, há uma extensa dissertação sobre a mediunidade, orientando-nos a não criticarmos a conduta dos médiuns, pois são eles que precisam do médico. Lembremo-nos de que na época da codificação do Espiritismo, Kardec preferia o médium letrado ao moralizado, com a seguinte explicação: ao divulgar os ensinamentos da nova doutrina, primeiro prega para si mesmo. É a história do dedo indicador apontando para o público, enquanto os outros três voltam-se para si mesmo.  

Se o poder de comunicar-se com os Espíritos só fosse dado aos mais dignos, qual aquele que ousaria pretendê-lo? E onde estaria o limite da dignidade e da indignidade? A mediunidade é dada sem distinção, a fim de que os Espíritos possam levar a luz a todas as camadas, a todas as classes da sociedade, ao pobre como ao rico: aos virtuosos, para os fortalecer no bem; e aos viciosos, para os corrigir. Estes últimos não são os doentes que precisam de médico?

No livro Educandário de Luz, o Espírito Irmão X relata-nos o diálogo entre D. Clara que, por meio de diversas perguntas, feitas ao Espírito Júlio, protetor daquele grupo espírita, tinha o seguinte objetivo: organizar um círculo de criaturas elevadas e sinceras, que apenas cogitem da virtude praticada. No final, pergunta se o Espírito Júlio poderia fazer parte desse grupo, ao que ele responde que não, por causa da sua imperfeição. Concluindo a conversa, o Espírito diz: — Sim, minha filha, um grupo assim tão perfeito deve existir... Com toda certeza deve ser o grupo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A humildade é o fundamento de todas as virtudes. Por mais influência que estivermos recebendo dos mentores espirituais, conscientizemo-nos de que somos simples intermediários dos bons Espíritos. 

Compilação: https://sites.google.com/view/temas-diversos-compilacao/s%C3%A3os-n%C3%A3o-precisam-de-m%C3%A9dico-os


08 outubro 2025

Notícia e Espiritualidade

A facilidade da notícia cria a mentalidade da notícia. Se não prestarmos atenção, raras vezes estaremos visitando a nós mesmos.

Notícia é o relato factual, objetivo e atual de um acontecimento de interesse público, divulgado por um veículo de comunicação que, via de regra, deveria ser de forma clara, concisa e imparcial. Seus elementos essenciais são: fato (algo que realmente aconteceu), atualidade (deve tratar de algo recente), interesse público (ser relevante para a sociedade), objetividade (relatar sem opinar) e veracidade (basear-se em informações verdadeiras e verificadas).

Léon Denis, no capítulo 24 — “A disciplina do pensamento e a reforma do caráter”, da terceira parte — “As potências da alma”, do livro O Problema do Ser, do Destino e da Dor, orienta-nos a evitar as discussões barulhentas, as palavras vãs, as leituras frívolas. Acrescenta: “Sejamos comedidos com os jornais. A leitura dos jornais, fazendo-nos passar continuamente de um assunto a outro, torna o espírito ainda mais instável. Vivemos em uma época de anemia intelectual, que é causada pela raridade dos estudos sérios, pela opção abusiva da palavra pela palavra, de forma bela e vazia e, sobretudo, pela insuficiência dos educadores da juventude”.

Por que a insistência com o jornal? Há uma ilusão da notícia. Diz-se que a notícia é, para o cérebro, o que o açúcar é para o corpo: apetitosa, fácil de digerir e altamente destrutiva no longo prazo. Renunciando à notícia, podemos ter pensamentos mais claros, percepções mais valiosas, melhores decisões e muito mais tempo. 

Razões para ficarmos distantes da notícia: 1) nossos cérebros reagem desproporcionalmente a diferentes tipos de informação; 2) notícias são irrelevantes (qual delas contribuiu para nossa melhoria interior?); 3) notícias são perda de tempo (um ser humano médio desperdiça meio dia a cada semana lendo sobre assuntos atuais).

Em geral, lê-se muito, lê-se rapidamente e não se medita. Léon Denis complementa: 

O estudo silencioso e recolhido é sempre fecundo para o desenvolvimento do pensamento. É no silêncio que se elaboram as obras fortes. A palavra é brilhante, mas degenera, com muita frequência, em conversações estéreis, às vezes, malfazejas; desta forma, o pensamento se enfraquece e a alma se esvazia. Ao passo que, com a meditação, o espírito se concentra; dirige-se para o lado grave e solene das coisas; a luz do mundo espiritual banha-o em suas ondas. Há, em torno do pensador, grandes seres invisíveis que só querem inspirá-lo; é na penumbra das horas tranquilas, ou à luz discreta de sua luminária de trabalho, que melhor eles podem estabelecer comunicação com ele. Em toda parte e sempre, uma vida oculta mistura-se à nossa.


Cinquenta Perguntas sobre o Livro "Nosso Lar"

01 – Que tipo de sensação descreveu o Espírito André Luís, logo após o seu desencarne?

R. – Uma sensação de perda da noção de tempo e espaço. Sentia-se amargurado, coração aos saltos e um medo terrível do desconhecido.

02 – Por que pecha de suicida?

R. – André Luiz não conseguia compreender porque o chamavam de suicida. Em sua concepção,tinha cumprido condignamente os deveres de médico, marido e pai. Contudo, ficou sabendo depois, que perdera muita vitalidade com bebidas e alimentação inadequada.

03 – Qual a finalidade da oração coletiva?

R. – Manter o equilíbrio espiritual da colônia. "Para tanto, todas as residências e instituições do "Nosso Lar" estão orando com o Governador, através da audição e visão à distância".

04 – Quais as causas do suicídio, segundo Henrique Luna, do Serviço de Assistência Médica da colônia espiritual?

R. – Modo exasperado e sombrio, cólera, ausência de autodomínio, inadvertência no trato com os semelhantes...

18 setembro 2025

Atenção e Concentração

A atenção e a concentração são duas atitudes relevantes para a aprendizagem e o desempenho nas diversas atividades do dia a dia. São dois processos mentais relacionados, mas não idênticos.

Atenção. Em sua acepção mais geral é a "direção especial do espírito a um objeto". É por ela que exercitamos a capacidade de selecionar, entre vários estímulos, aqueles que merecem foco no momento. Concentração. É a manutenção da atenção em um único objeto, tarefa ou pensamento por um período prolongado de tempo.

Há muitos fatores — de ordem interna e externa — que influenciam a atenção e a concentração. Internamente, temos: motivação, falta de interesse pela atividade, estado emocional... Externamente, citamos: ambiente silencioso ou barulhento, organização do espaço, estímulos visuais...

Para que possamos melhorar a atenção e concentração, devemos adotar algumas estratégias, tais como, criar um ambiente adequado (silencioso, organizado), praticar técnicas de respiração profunda, dormir bem e manter alimentação equilibrada, definir metas claras e objetivas para cada tarefa.

Em termos espirituais e mediúnicos, José Herculano Pires, no capítulo 7, de seu livro Mediunidade, diz-nos que a concentração dos pensamentos numa reunião mediúnica não corresponde ao tipo de concentração individual de uma pessoa num determinado problema a rever ou num estudo a fazer. Trata-se de uma concentração coletiva de pensamentos voltados para um mesmo alvo, por exemplo, Jesus. Nesse sentido, a concentração não deve ser forçada, mas tão logo o pensamento se desvia para outros rumos, faz-se que ele retorne suavemente à ideia centralizadora.

A capacidade de se alhear do mundo externo, isto é, de se concentrar, é o primeiro passo no processo de desenvolvimento mediúnico. Para tanto, deve o médium aguçar o interesse e o entusiasmo, fortalecendo a vontade. O estudo da Doutrina Espírita, a utilização da prece e a disposição de nunca estar ocioso aumentam sobremaneira esse poder de concentração, possibilitando o direcionamento dos pensamentos às esferas superiores do mundo espiritual.

06 setembro 2025

Dai a César o que é de César

Dai a César o que é de César” é um subtema do capítulo XI — “Amar o Próximo como a Si Mesmo”, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. Eis os demais itens: O Maior Mandamento — Instruções dos Espíritos: — A Lei de Amor — O Egoísmo — A Fé e a Caridade — Caridade com os Criminosos. Este assunto pode ser relacionado ao dinheiro, à riqueza, à autoridade, ao poder e à política.

O texto evangélico. Então, retirando-se os fariseus, projetaram entre si comprometê-lo no que falasse. E enviaram-lhe seus discípulos, juntamente com os herodianos, que lhe disseram: Mestre, sabemos que és verdadeiro, e não se te dá de ninguém, porque não levas em conta a pessoa dos homens; dize-nos, pois, qual é o teu parecer: é lícito dar tributo a César ou não? Porém Jesus, conhecendo a sua malícia, disse-lhes: Por que me tentais, hipócritas? Mostrai-me cá a moeda do censo. E eles lhes apresentaram um dinheiro. E Jesus lhes disse: De quem é esta imagem e inscrição? Responderam-lhe eles: De César. Então lhes disse Jesus: Pois dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E quando ouviram isto, admiraram-se, e deixando-o se retiraram. (Mateus, XXII: 15-22). (Marcos, XII: 13-17).

Um esclarecimento inicial. A frase “Dai a César o que é de César” não se refere a Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.), mas sim ao imperador romano que governava no tempo de Jesus. Na época, o imperador era Tibério César (14 d.C. - 37 d.C.), sucessor de Augusto. A palavra “César” tinha se tornado um título usado pelos imperadores romanos (como mais tarde “Czar” ou “Kaiser”).

Para bem entendermos a frase proferida, devemos recuar no tempo e verificar o contexto histórico-político da época, em que o povo da Palestina estava sob o jugo romano. Jesus era um judeu, como os outros, mas tinha grupos que eram contrários ao seu pensamento: os fariseus e o herodianos. Ao ser indagado se devia pagar os impostos aos romanos, ficou numa encruzilhada: se negasse, era chamado de rebelde pelos romanos; se aceitasse, de traidor pelos judeus. O que fez? Pediu que lhe mostrasse uma moeda, na qual estava a efígie de César. Daí, disse: “Dai a César o que é de César”, e acrescentou “e a Deus o que é de Deus”.

acréscimo “e a Deus o que é de Deus” é uma frase lapidar, pois os governadores impunham o seu poder de forma arbitrária. A pregação de Jesus baseava-se na libertação do povo judeu. Por isso, respeitava o poder do momento — “dar a César o que é de César”, mas que os judeus não se esquecessem do reino dos céus, da vida espiritual, da verdadeira vida.

Em se tratando do aspecto religioso, Jesus Cristo compara o dinheiro ao deus Mamon, que compete com do Deus verdadeiro, enaltece o óbolo da viúva e profere a frase: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Seguindo os seus exemplos, os primeiros cristãos vendiam os seus bens e com o dinheiro arrecadado socorriam aos mais pobres em suas necessidades.

“A questão proposta a Jesus era motivada pela circunstância de haverem os judeus transformado em motivo de horror o pagamento do tributo exigido pelos romanos, elevando-o a problema religioso. Numeroso partido se havia formado para rejeitar o imposto. O pagamento do tributo, portanto, era para eles uma questão de irritante atualidade, sem o que, a pergunta feita a Jesus: "É lícito dar tributo a César ou não?", não teria nenhum sentido. Essa questão era uma cilada, pois, segundo a resposta, esperavam excitar contra ele as autoridades romanas ou os judeus dissidentes. Mas "Jesus, conhecendo a sua malícia", escapa à dificuldade, dando-lhes uma lição de justiça, ao dizer que dessem cada um o que lhes era devido”.

Esta máxima: "Dai a César o que é de César" não deve ser entendida de maneira restritiva e absoluta. Como todos os ensinamentos de Jesus, é um princípio geral, resumido numa forma prática e usual, e deduzido de uma circunstância particular. Esse princípio é uma consequência daquele que manda agir com os outros como quereríamos que os outros agissem conosco. Condena todo prejuízo moral e material causado aos outros, toda violação dos seus interesses, e prescreve o respeito aos direitos de cada um, como cada um deseja ver os seus respeitados. Estende-se ao cumprimento dos deveres contraídos para com a família, a sociedade, a autoridade, bem como para os indivíduos.

Se vivemos em sociedade devemos respeitar a lei dos homens, porém, sem jamais nos esquecermos de que Deus está no leme de tudo e de todos.

 

17 julho 2025

As Três Peneiras

Conta-se que certa vez um amigo procurou Sócrates, o célebre filósofo grego, desejando contar-lhe algo sobre a vida de outro amigo comum.

— Quero contar-te algo sobre o nosso amigo Andréas que vai deixar-te boquiaberto.

— Espera — interrompeu o filósofo — passaste o que vais dizer pelas três peneiras.

— Três peneiras? Espantou-se o interlocutor.

— Primeira peneira: a coisa que me contarás é verdade?

— Eu assim creio, pois me foi contada por alguém de confiança — diz o amigo...

— Bem! Alguém te disse... Vejamos a segunda peneira: a coisa que pretendes me contar é boa?

O outro hesitou, resfolegou e respondeu:

— Não exatamente...

Sócrates continuou sua inquirição:

— Isso começa a me esclarecer. Verifiquemos a terceira peneira, que é a prova final: o que tinhas a intenção de me contar é de utilidade tanto para mim como para o nosso amigo Andréas e para ti mesmo?

— Não, não e não.

— Então, caro amigo, disse Sócrates, a coisa que pretendias me contar não é certamente verdadeira, nem boa, nem útil; assim sendo, não tenho a intenção de conhecê-la e aconselho-te a não mais procurar veiculá-la.

A cada dia somos alvo de pessoas com grande desejo de nos contar coisas a respeito dos outros.

Devemos procurar fazer o teste das três peneiras gregas:

— É verdade? É bom? É útil?

Caso negativo, devemos simplesmente evitar que sejamos parte integrante nas bisbilhotices e nos mexericos de pessoas ávidas de “novidades” sobre a vida alheia.

 

12 julho 2025

Evangelho e Pregação

Evangelho vem do grego euangelion (eu, bom, angelion, mensagem). Toma a forma latina "evangelho" e significa, na sua origem, "boa notícia". Entende-se, também, como a Doutrina de Cristo ou cada um dos quatro livros principais do Novo Testamento.

A iluminação súbita de uma alma traz como consequência o desejo de convencer os outros a pensar de forma semelhante. Paulo de Tarso é um exemplo clássico. Certa feita, o perseguidor dos cristãos, estando a caminho de Damasco, vislumbra a presença de Jesus e fica cego. Dias depois, recupera a sua visão, entra em contato com os textos evangélicos e quer transmitir a "boa nova" aos demais. Teve uma grande decepção

A pregação evangélica exige esforços de compreensão do "eu espiritual". Os homens de vida pura e reta estão sempre prontos a plantar o bem e a justiça, enquanto os culpados têm que testemunhar no sofrimento próprio para ensinar com êxito. Além disso, tudo o que é de Deus reclama paz e reflexão profunda. Jesus ficara 30 anos na escuridão, para conviver apenas três anos conosco; João Batista meditou longo tempo no deserto, para desbravar as estradas do Salvador.

A precipitação é o grande entrave no processo de pregação dos ensinos de Cristo. A divulgação dos preceitos evangélicos assemelha-se aos mesmos cuidados que devemos ter para com uma planta pequenina. Se lhe dermos água em demasia, morre; se, insuficiente, também. Faltando-nos a preparação adequada, poderemos estar criando, na mente daqueles que nos ouvem, uma imagem deturpada das verdades cristãs. Cedo ou tarde teremos que responder por isso.

A perseverança, a paciência e a calma são as virtudes que devemos exercitar, caso não tenhamos ainda a oportunidade de difundir as verdades espirituais. É possível que não estejamos "aptos" para a missão apostólica a nós reservada. Lembremo-nos de que na casa do Pai há muitas moradas e que quando o servidor estiver pronto o trabalho aparecerá.

Esperemos, confiantemente, as determinações do Alto a nosso respeito, mantendo-nos em estudo, a fim de adquirirmos as condições necessárias para o cumprimento de nossos deveres junto à sociedade em que vivemos.

21 abril 2025

Em Homenagem a Tiradentes

Mensagem: por trás do ícone Tiradentes, há uma mensagem — libertária — que invoca a secessão, a guerra contra os impostos, e a luta contra um governo centralizador.

Crime: defender a independência da colônia de Minas Gerais em relação à Coroa Portuguesa, movimento esse inspirado pela recente independência das colônias americanas. A motivação desta "revolta" é a decretação da derrama pelo governo local, uma medida que permitia a cobrança forçada de impostos atrasados, autorizando o confisco de todo o dinheiro e bens do devedor. 

Rebelião: depois da traição, os delatores, a cuja frente se encontrava a personalidade de Silvério dos Reis, português de Leiria, levaram todo o plano ao Visconde de Barbacena, então Governador de Minas Gerais. O governador age com prudência, a fim de sufocar a rebelião nas suas origens, e, expedindo informes para que o Vice-Rei Luís de Vasconcelos efetuasse a prisão do Tiradentes no Rio de Janeiro, prende todos os elementos da conspiração em Vila Rica, depois de avisar secretamente aos seus amigos do peito, simpatizantes da conjuração, quanto à adoção de tais providências, para que não fossem igualmente implicados.

Sentença: 11 homens presos.

Sentença final: D. Maria I havia comutado anteriormente as penas de morte em perpétuo degredo nas desoladas regiões africanas, com exceção do Tiradentes, que teria de morrer na forca, conservando-se o cadáver insepulto e esquartejado, para escarmento de quantos urdissem novas traições à coroa portuguesa.

Eis as explicações do Espírito Irmão X:

O mártir da inconfidência, depois de haver apreciado, angustiadamente, a defecção dos companheiros, reveste-se de supremo heroísmo. Seu coração sente uma alegria sincera pela expiação cruel que somente a ele fora reservada, já que seus irmãos de ideal continuariam na posse do sagrado tesouro da vida. As falanges de Ismael lhe cercam a alma leal e forte, inundando-a de santas consolações.

Tiradentes entrega o espírito a Deus, nos suplícios da forca, a 21 de abril de 1792. Um arrepio de aflitiva ansiedade percorre a multidão, no instante em que o seu corpo balança, pendente das traves do cadafalso, no Campo da Lampadosa.

Mas, nesse momento, Ismael recebia em seus braços carinhosos e fraternais a alma edificada do mártir.

— Irmão querido — exclama ele —, resgatas hoje os delitos cruéis que cometeste quando te ocupavas do nefando mister de inquisidor, nos tempos passados. Redimiste o pretérito obscuro e criminoso, com as lágrimas do teu sacrifício em favor da Pátria do Evangelho de Jesus. Passarás a ser um símbolo para a posteridade, com o teu heroísmo resignado nos sofrimentos purificadores. Qual novo gênio surges, para espargir bênçãos sobre a terra do Cruzeiro, em todos os séculos do seu futuro. Regozija-te no Senhor pelo desfecho dos teus sonhos de liberdade, porque cada um será justiçado de acordo com as suas obras. Se o Brasil se aproxima da sua maioridade como nação, ao influxo do amor divino, será o próprio Portugal quem virá trazer, até ele, todos os elementos da sua emancipação política, sem o êxito incerto das revoluções feitas à custa do sangue fraterno, para multiplicar os órfãos e as viúvas na face sombria da Terra...

Um sulco luminoso desenhou-se nos espaços, à passagem das gloriosas entidades que vieram acompanhar o espírito iluminado do mártir, que não chegou a contemplar o hediondo espetáculo do esquartejamento.

Daí a alguns dias, a piedosa rainha portuguesa enlouquecia, ferida de morte na sua consciência pelos remorsos pungentes que a dilaceravam e, consoante as profecias de Ismael, daí a alguns anos era o próprio Portugal que vinha trazer, com D. João VI, a independência do Brasil, sem o êxito incerto das revoluções fratricidas, cujos resultados invariáveis são sempre a multiplicação dos sofrimentos das criaturas, dilaceradas pelas provações e pelas dores, entre as pesadas sombras da vida terrestre.

 Fonte de Consulta

XAVIER, F. C. Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho,  pelo Espírito Humberto de Campos. Rio de Janeiro: FEB, Copyright 1938.

Sócrates e o Irmão X

O Espírito Humberto de Campos, mais conhecido como Irmão X, disse ter encontrado Sócrates no Instituto Celeste de Pitágoras — nome convencional para figurar os centros de grandes reuniões espirituais no plano Invisível. Nesse dia, a reunião era dedicada a todos os estudiosos vindos da Terra longínqua. Depois de ouvir os sábios ensinamentos do Mestre, atreveu-se a abordá-lo.

"— Mestre — disse eu —, venho recentemente da Terra distante, para onde encontro possibilidade de mandar o vosso pensamento. Desejaríeis enviar para o mundo as vossas mensagens benevolentes e sábias?

22 março 2025

Se Alguém te Ferir na Face Direita

O texto evangélico: Vós tendes ouvido o que se disse: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, digo-vos que não resistais ao mal; mas se alguém te ferir tua face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quer demandar-te em juízo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e se alguém te obrigar a ir carregado mil passos, vai com ele ainda mais outros dois mil. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes. (Mateus, V: 38-42). (1)

Moisés, por volta de 1600 a.C., revelou aos homens a existência de um Deus único. Recebeu o Decálogo, ou dez mandamentos. Paralelamente, como disciplinador, coloca em prática a lei do olho por olho e dente por dente, de sua própria autoria. Dá a entender que o seu Deus é um Deus de temor, que cobra e castiga sem piedade.

A expressão "olho por olho, dente por dente" vem do Código de Hamurabi, uma das primeiras leis escritas da humanidade, e representa o princípio da retaliação proporcional ou Lei de Talião. A ideia é que a punição deve ser equivalente ao dano causado, evitando excessos e garantindo justiça.

Moisés trouxe a primeira revelação; Jesus, a segunda. A primeira revelação dá relevância ao olho por olho e dente por dente; a segunda fala do amor incondicional, estendendo-o até ao amor ao inimigo. E aqui, como comparação, podemos acrescentar que quando baterem em uma face, devemos mostrar a outra.

De acordo com Allan Kardec, em (1): "são os preconceitos do mundo que levam à suscetibilidade sombria, nascida do orgulho e do exagerado personalismo muito semelhante ao olho por olho da época de Moisés. Mas veio o Cristo e disse: "Não resistais ao que vos fizer mal; mas se alguém te ferir na tua face direita, oferece-lhe também a outra"".

A explicação evangélica de oferecer a outra face resume-se: “que o homem deve aceitar com humildade tudo o que tende a reduzir-lhe o orgulho; que é mais glorioso para ele ser ferido que ferir; suportar pacientemente uma injustiça que cometê-la; que mais vale ser enganado que enganar, ser arruinado que arruinar os outros”. (1)

O Espírito Emmanuel, no capítulo 63 — “Atritos Físicos” de Vinha de Luz, comenta o assunto, mostrando-nos que oferecer a outra face é uma peça de bom senso e lógica rigorosa, pois quando alguém dá um murro, ele está mostrando que há ausência de razão. Em síntese: é um apelo à superioridade que pessoas vulgares desconhecem. (2)

Em todas as circunstâncias adversas, procuremos manter a calma, pois um deslize grave pode trazer consequências desastrosas, consoante a frase: “infelizmente o que está feito, feito está, o que há de vir virá forçosamente".

Fonte de Consulta 

(1) KARDEC, Allan. Capítulo 12 de O Evangelho Segundo o Espiritismo .

(2) XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de Luz, pelo Espírito Emmanuel.