24 setembro 2006

Mito e Ritualismo Moderno


O mito pode ser visto no seu sentido próprio e no seu sentido figurado. Em seu sentido próprio, representa o esforço do homem para compreender o mundo e a si mesmo. São as descrições religiosas antigas, que expressam os modelos, os arquétipos da ação humana através dos atos originários dos "deuses" nos diversos campos. Em seu sentido figurado, evoca a narração fabulosa e fictícia, contrária à verdade. Nesse sentido, "mito" equivale a engano, falsidade. Essa interpretação corresponde a uma mentalidade racionalista, para qual somente a razão é capaz de expressar a verdade.

Consideramo-nos racionais e, muitas vezes, não percebemos o quanto de religioso, de mitológico e de ritualístico há em nossas ações mais triviais. Observe a nomenclatura dos dias da semana: todos os nomes foram retirados da mitologia. O domingo vem de Sol; segunda-feira, da Lua; terça-feira, de Marte; quarta-feira, de Mercúrio; quinta-feira, de Júpiter; sexta-feira, de Vênus; sábado, de Saturno. Além do mais, para cada um dos dias há uma simbologia ligada ao sistema planetário em questão.

A explicação científica dos mitos começa com o antropólogo inglês Friedrich Max Müller (1823-1900) que considera os mitos como descrição poética de fatos da natureza (tempestades, terremotos etc.). A Antropologia moderna prefere a teoria da Claude Lévi-Strauss, que reconhece nos mitos o reflexo de determinadas estruturas sociais dos povos primitivos. Na Renascença, Voltaire escreveu o seu Édipo (1718) para denunciar, por alusão, o poder do clero na França. No século XX, registra-se surpreendente ressurreição dos enredos e personagens mitológicas gregas. O complexo de electra, por exemplo, é retratado nas obras de Hugo von Hofmannsthal (1903) e Robinson Jeffers.

O fundamentalismo expressa não só o ritualismo como também o fanatismo. Mas o que é o fundamentalismo? Toda e qualquer doutrina ou prática social que busca seguir determinados "fundamentos" tradicionais geralmente baseados em algum livro sagrado ou práticas costumeiras. Todo o fundamentalismo tende a uma absolutização do "eu" em detrimento do "outro". Observe a globalização americana: se os povos não a aceitarem "tecnicamente", os americanos apelam para o combate armado. Lembremo-nos da caça ao Osama Bin Laden e Saddan Hussein.

A religião do individualismo é outro ponto a ser levantado. Esta religião está bem conectada com o capitalismo. A pessoa busca a satisfação do seu "eu", mesmo que para isso seja necessário pisar o seu próximo. Temos que ter riqueza e desfrutar do progresso econômico. A enorme discrepância na distribuição de renda pouco nos importa. Há também a agravante do ritualismo da descrença, ou seja, além de não respeitarmos a crença dos outros, acabamos não tendo crença alguma, caindo no materialismo exacerbado, tão prejudicial ao relacionamento entre as pessoas.

Procuremos usar a razão, mas sem sufocar os ímpetos da emoção e da intuição. É nas raízes da inspiração divina que obtemos a força moral para continuarmos a nossa tarefa neste mundo de provas e expiações.

São Paulo, 23/04/2004

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