29 junho 2008

Conhecimento de Si Mesmo

Os primeiros filósofos antes de Sócrates buscavam, nos elementos externos do ser, as explicações racionais do mundo. Para Tales de Mileto, a substância primordial era a água; para Anaxímenes, o ar; para Pitágoras, o número; para Demócrito, o átomo. Sócrates, porém, não via a filosofia como uma simples especulação filosófica; para ele, a filosofia não pode estar desligada da própria vida, que é pessoal e social. Essa atitude está condensada na máxima: "Conhece-te a ti mesmo", que é autoconsciência ou uma volta reflexiva sobre si mesmo. 

Sócrates não é o autor da frase "conhece-te a ti mesmo". Na tradição mítica, essa sentença foi proferida pelo deus Apolo, e estava gravada no frontispício do templo de Delfos. Foi somente depois da sua visita a Cherofonte, o oráculo de Delfos, que passou a refletir sobre o "conhece-te a ti mesmo". Este dístico inspira-lhe dois diálogos, narrados em Platão (Alcibíades, l28d-l29) e em Xenofontes (Memoráveis IV, II, 26), onde retrata a importância do autoconhecimento.

O oráculo de Delfos não ensinava filosofia. Sócrates interpretou essa ordem com um programa e um método, ou seja, propunha a seus sucessores trabalhar para se conhecer, a fim de se tornarem melhores. Ele, porém, não se iludia sobre as dificuldades dessa tarefa. Ele as experimentou e morreu por isso. Nada tinha de misterioso. Mas iria volta a ser no momento em que os pensadores cristãos o adotassem e o interpretassem por sua vez.

A filosofia é o diálogo em busca da verdade. Como cada homem possui uma parte da verdade, ele precisa da ajuda de outros seres humanos para ampliá-la. Sócrates enfatizava que cada indivíduo deveria pensar por si mesmo, independentemente das ideias preconcebidas ou da opinião da maioria. Trata-se de buscar a verdade, não um simples acordo entre os interlocutores, pois se pode chegar a um acordo injusto. E mesmo que não se encontre a verdade, o diálogo tinha um mérito: desviar-se das opiniões sem fundamento.

Para Sócrates, a ignorância constitui condição prévia para o saber autêntico. Só quem reconhece a sua ignorância está capacitado ao aprendizado. Por isso, dizia: "sei que nada sei". Para chegar a esse estado prévio do não-saber, Sócrates lança mão de seu método, que é o de perguntar. As perguntas objetivavam descobrir o conceito que se ocultava na superficialidade do conhecimento. Primeiramente, aplicava a ironia, que é a forma negativa do diálogo, em que procurava confundir o interlocutor sobre um conhecimento que acreditava possuir; depois, aplicava a maiêutica, a forma positiva do diálogo que, baseado no ofício de parteira de sua mãe, procurava dar à luz um novo saber. Ele não ensinava, mas criava condições para que o conhecimento brotasse do ouvinte.

Allan Kardec, nas questões 9l9 e 9l9a de O Livro dos Espíritos, trata deste tema. As elucidações são do Espírito Santo Agostinho, que nos diz: "Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: no fim de cada dia interrogava a minha consciência, passava em revista o que havia feito e me perguntava a mim mesmo se não tinha faltado ao cumprimento de algum dever, se ninguém teria tido motivo para se queixar de mim. Foi assim que cheguei a me conhecer e ver o que em mim necessita de reforma".

Continuando a sua explanação, diz-nos que o conhecimento de si mesmo é chave do melhoramento individual. Caso tenhamos dificuldade de fazer essa avaliação, ou seja, estejamos indecisos quanto ao valor das nossas ações, perguntemos como qualificaríamos se a ação tivesse sido praticada por outra pessoa. "Se a censurardes em outros, ela não poderia ser mais legítima para vós, porque Deus não usa de duas medidas para a justiça".

Muitas faltas que cometemos passam despercebidas. Adquiramos o hábito de fazer perguntas claras e precisas sobre a nossa conduta. Quem sabe essa persistência não nos livra de muitos erros que cometemos diariamente?


Apresentação em PowerPoint



Palestra em PDF

Complemento

O gnothi seauton envolve em primeiro lugar uma tragédia. A tragédia começa com o enigma da esfinge apresentada ao rei Édipo, que pergunta: "Quem pela manhã anda sobre quatro pernas, à tarde sobre duas e à noite sobre três?". (A resposta: o bebê engatinha de quatro, o adulto fica de pé, e o velho anda com a bengala)

Complemento (junho de 2019)

Heráclito, o pensador de Éfeso, afirmava já no início do século V antes de nossa era: "É preciso estudar a si mesmo." Buda dizia: "Quando a verdadeira natureza das coisas se torna clara para aquele que medita, todas as suas dúvidas desaparecem, pois ele se dá conta de qual é essa natureza e qual a sua causa." Temos também a máxima de Sócrates: "Conhece-te a ti mesmo." No entanto, a máxima completa inscrita no templo de Apolo é: "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses." (LENOIR, Frédéric. Pequeno Tratado de Vida Interior. Tradução Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, capítulo 7.)



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