10 junho 2009

Bem-Aventurados os Misericordiosos

1. Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia. (Mat., 5, 7)
2. Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai celestial vos perdoará os pecados; - mas, se não perdoardes aos homens quando vos tenham ofendido, vosso Pai celestial também não vos perdoará os pecados. (Mat., 6, 14 e 15)
3. Se contra vós pecou vosso irmão, ide fazer-lhe sentir a falta em particular, a sós com ele; se vos atender, tereis ganho o vosso irmão. - Então, aproximando-se dele, disse-lhe Pedro: "Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes?" - Respondeu-lhe Jesus: "Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes." (Mat., 18, 5, 21 e 22.

Bem-Aventurança é um pedido de bênção, de felicidade para com o seu próximo. Com Jesus toma a forma de um paradoxo, ou seja, a bem-aventurança é feita em cima de uma má-sorte. Por isso, bem-aventurados os pobres, os injustiçados etc. Misericórdia – Do latim miseria e cor-cordis (coração) significa compaixão afetiva a uma miséria de bens, sobretudo o respeito à virtude, que recai sobre um miserável. Dó, compaixão. Compaixão pelos que sofrem.

No Evangelho é anunciado como "bem-aventurados os misericordiosos, porque obterão misericórdia". Cristo anuncia uma certeza: a obtenção de misericórdia. Mas como? Há um condicionamento: antes de obtermos misericórdia, temos que ser misericordiosos. E por que é desta forma e não de outra? É que nada nos vem de mão beijada. Tudo depende de um esforço anterior. "Para que o náufrago se salve, ele tem que se despojar de sua bagagem", diz o anexim. Em se tratando da misericórdia, temos que nos despojar do nosso eu, do nosso amor próprio, da nossa personalidade. Somente assim conseguiremos adentrar no Reino de Deus.

Como interpretar a hipérbole: "Não se deve perdoar sete, mas setenta vezes sete vezes"? Como sabemos, esta foi a resposta dada por Cristo à indagação de Pedro: "quantas vezes devo perdoar o meu semelhante? Sete vezes?" A resposta de Jesus: "Não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes". Quer dizer, indefinidamente. Isso significa que Jesus não tolera limites além dos quais o amor próprio e a dureza reclamam os seus direitos. Quando não perdoamos, o nosso coração fica jungido ao ódio, o que dificulta a libertação do Espírito.

É falso pensamento de que os misericordiosos enfraquecem a justiça. O perdão é um ato de força. E força não quer dizer dureza. Além do mais, o perdão do ofensor não nega a sua culpabilidade. Devemos perdoar não porque a pessoa o mereça, mas porque faz bem à nossa alma. Por isso, o fato de se perdoar é uma espécie de libertação, porque ficamos desagravados e os nossos pensamentos menos felizes a respeito de tal pessoa são substituídos por pensamentos criativos e altruístas, mais apropriados para a construção de um mundo mais feliz e harmonioso.

A nossa maneira habitual de agir e de interpretar os fatos parece corroborar para certa oposição entre justiça e misericórdia. Exemplo: se alguém nos deve, a justiça pode exigir o pagamento integral da dívida. Nós, porém, vendo o estado do devedor, podemos perdoar parte da dívida. De um lado a justiça; de outro, o nosso coração generoso. No âmbito do espírito do Evangelho, seria vão distinguir uma coisa da outra, porque as duas estão interligadas. Relembremos: devemos amar o nosso próximo, não porque o mereça, mas porque é nosso próximo.

A maneira de triunfar da ofensa é recusarmos a considerar-nos ofendidos. Foi esta a razão pela qual Gandhi, quando questionado se já tinha perdoado alguém, ele simplesmente disse que nunca tinha perdoado ninguém, porque nunca se sentira ofendido. Se ele não se sentiu ofendido, não tinha o que perdoar. Mas para atingir esse estado de alma, há muita luta, muita mudança interior a ser realizada.

Tenhamos sempre em mente o perdão, visto sermos também passiveis de culpa. Esta é a melhor forma de nos tornarmos misericordiosos.

Bibliografia Consultada



CHEVROT, Georges. O Sermão da Montanha. Tradução de Alípio Maia de Castro. São Paulo: Quadrante, 1971.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed. São Paulo: IDE, 1984.


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