03 julho 2008

Uma Vida Estranha

Vida normal é levantar-se pela manhã, tomar o desjejum, despedir-se dos familiares e dirigir-se ao local do trabalho. O que pensar daqueles que não têm ocupação? Como fazem para passar o dia? Uns optam pelo roubo; outros pela indolência; poucos pelo bom aproveitamento do tempo. Contudo, é a vivência plena do tempo que estrutura indelevelmente o nosso caráter e a nossa personalidade. Convém não o desperdiçar, pois tempo perdido não se recupera mais.

O dia-noite, a semana de cinco dias, o mês e o ano marcam a passagem de nossa vida. Estamos tão acostumados com essa medida do tempo que não conseguimos imaginar-nos numa outra dimensão, como por exemplo, o dia sem a noite. Observe a estada no Polo Norte. Lá não existe a oposição dia-noite, as indústrias e o corre-corre das grandes cidades. Quer dizer, nossos juízos de valores têm que ser reformulados para poderem adaptar-se à nova situação.

Os compromissos são a tônica da sociedade moderna. Há muitas crianças que têm uma agenda mais cheia do que a de muitos executivos. Pergunta-se: quantos desses compromissos, dito inadiáveis, deveriam ser realmente atendidos? Muitos de nós até nos deleitamos por estarmos atarefados. Porém, a disposição de atender aos verdadeiros deveres da consciência não é tarefa fácil: exige redobrados esforços vigilância.

O cosmopolitismo empresta ao dinheiro o sinônimo de riqueza. Somos avaliados mais pelo que temos do que pelo que somos. Por isso, vemos os parcos de recursos materiais sofrerem toda a sorte de constrangimento. É preciso ponderar: onde se encontra os verdadeiros valores do ser humano? Nos anais da riqueza ou na realização plena de um ideal? O homem vale pelo que é e não por aquilo que pensam que ele é. É preciso, pois, na falta da consolação humana e divina, sabermos bastar-nos a nós mesmos.

Os interesses próprios condicionam as opiniões. A avidez pelo sucesso, a busca de um status social elevado e a aquisição do poder político são tão intensas que raramente nos damos conta das atrocidades que cometemos para concretizá-las. Isso é melhor visualizado pelo meio anti-natural que o homem está sendo obrigado a viver: poluição, desmatamento, vida insalubre, excesso de alimentação etc. Diante dessa realidade, é preciso ponderar para que não sejamos tragados pela corrente materialista que envolve o nosso planeta.

Nossa vida parece estranha e enigmática? Não nos importemos com isso. Lembremo-nos de que cada ser é uma individualidade, e ajamos através do sentimento do nosso próprio coração.

São Paulo, 08/11/1996.

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