03 julho 2008

Recompensa e Castigo

Recompensa e castigo estão implícitos em cada uma de nossas ações. Toda ação boa, por ser coerente consigo mesma, traz em si a sua própria recompensa. Quer dizer, ela não se expressa em conflito. Toda ação má, por não ser coerente consigo mesma, entra em conflito e tem o seu castigo. O conflito que a ação má provoca nem sempre é resolvido imediatamente: pode levar dias, meses, anos. Observe o ato de fumar: às vezes, somente depois de 10, 20 ou mais anos, vamos notar os prejuízos desse vício em nossa saúde.

Os Antigos filósofos e os primeiros cristãos falavam de um bem e de um mal coletivos. O indivíduo, segundo eles, não respondia somente por si mesmo, mas por uma coletividade. Hoje, com o solipsismo de Descartes e a monadologia de Leibniz enfatizamos o eu, esquecendo-nos de que fazemos parte de um todo. Tudo isso dificulta a aceitação de dificuldades, de doenças e de problemas que não entendemos o desfecho. O stress em nossa vida diária, muitas vezes, é consequência desse modo de pensar.

Como a coerência nem sempre é imediata e o Castigo ou Recompensa vêm muito tempo depois, é preciso instituir o Estado e a Lei do Estado. Se um indivíduo não sabe que sua ação algum tempo depois vai entrar em conflito, é necessário que alguém o lembre agora. Esse alguém é o Estado. Assim, o Estado é um Universal Concreto no qual o Dever-Ser da Ética dos muitos homens individuais é elevado ao Estatuto de um Dever-Ser Coletivo, externo e superior aos homens individuais, no qual a vontade de cada um se funde com a vontade de todos os outros numa Vontade Geral.

O bem existe sob muitas formas ou, como os gregos diziam, sob a forma de muitas virtudes. Virtudes são para os gregos, por exemplo, a Sabedoria, a Coragem, a Temperança, a Justiça etc. Dentre essas virtudes, uma assume papel impar, isto é, a justiça. Mas o que é a justiça? Platão falava de uma virtude que estava no fundo de todas as outras virtudes, mas não deu uma definição precisa. Os romanos falavam de um Suum cuique, ou seja, a justiça é dar a cada um o que a ele compete. De qualquer maneira a justiça é muito rica e muito ampla, pois todos os homens são iguais perante a Lei.

A interpretação de que todos os homens são iguais perante a Lei, leva-nos à Grande Tentação de regular a justiça por baixo, ou seja, pela pobreza. É daí que surgem as comunidades dos primeiros cristãos, os monges que habitavam no deserto, o voto de pobreza das grandes ordens religiosas da Idade Média, o socialismo de Proudhon, o comunismo de Marx etc. Esquecem-se de que o pobre quer ficar rico. Lembremo-nos de que a pobreza é um mal social — resultado de ações eticamente perversas — e não uma virtude.

Procuremos sempre fazer o bem pelo bem, tendo em mente que qualquer desvio da Lei Natural, sofreremos inevitavelmente as suas conseqüências, quer nesta ou em outras existências.

Fonte de Consulta

CIRNE-LIMA, C. Dialética para Principiantes. 2. ed., Porto Alegre, EDIPUCRS, 1997.

São Paulo, 16/10/1998

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