02 julho 2008

Justiça, Amor e Caridade

Justiça — do lat. justitia — significa, de modo restrito, a constante e perpétua vontade de conceder o direito a si próprio e aos outros, segundo a igualdade. Amor — do lat. amore —, sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa. Caridade — do lat. caritate —, no vocabulário cristão, o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem e procura identificar-se com o amor de Deus.

Kant, na Doutrina do Direito, define a ação justa como qualquer ação que permite a livre vontade de cada um coexistir com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal. Santo Agostinho, por seu lado, diz que a justiça é a virtude que dá a cada um aquilo que lhe é devido. Em realidade, a justiça visa estabelecer certa igualdade entre o forte e o fraco, o que tem poder e o que está despossuído dele.

A justiça pertence às virtudes cardeais e a caridade às virtudes teologais. As virtudes cardeais, princípio de todas as virtudes, dizem respeito à temperança, à fortaleza, à prudência e à própria justiça. Entre essas, a justiça ocupa lugar de destaque, pois dá equilíbrio às demais. As virtudes teologais, consideradas como dons infusos por Deus, dizem respeito à , à esperança e à própria caridade. Dentre elas, a caridade é a mais perfeita. Se à justiça e à caridade acrescentarmos o amor, teremos os fundamentos básicos da conduta humana em sociedade.

Os gregos usavam diferentes vocábulos para designar o amorPhilia referia-se à amizade, ao amor ternura; eros, ao amor carnal, sexual; agapé, ao amor divino, sem contrapartida, incondicional. Aristóteles, em Ética a Nicômaco, comparando o amor amizade à justiça, não hesita em afirmar que a amizade é mais necessária e importante, pois os inimigos podem ser justos entre si, mas a concórdia e a comunhão só podem coexistir com a amizade e o amor. Dizia que ser justo é bom, mas amar é ainda melhor. "Se somos amigos, não precisamos de justiça; justos, precisamos ainda da amizade".

A justiça, sendo fria e calculista, necessita do amor e da caridade que lhe complementam, porque amar o próximo é fazer-lhe todo o bem possível, que desejaríamos nos fosse feito. A caridade é, primariamente, o amor a Deus e, sem mudar a direção, secundariamente, é o amor ao próximo e a si mesmo. Ela não se restringe à filantropia, mas abrange todas as nossas relações com os nossos semelhantes, quer sejam inferiores, iguais ou superiores.

Allan Kardec, na pergunta 648 de O Livro dos Espíritos, esclarece-nos que a divisão da lei de Deus em dez partes é a mesma da de Moisés e pode abranger todas as circunstâncias da vida. Dentre tais leis, a Lei de Justiça, Amor e Caridade é a mais importante; é por ela que o homem pode avançar mais na vida espiritual, porque ela resume todas as outras.

O justo dá a cada coisa o lugar que lhe compete. Ordena na medida certa. Situando-se além das oposições e dos contrários, realiza em si a unidade, que é una e total. O verdadeiro justo simboliza o homem perfeito, que põe ordem, primeiro em si, depois em torno de si. Seu papel é o de uma verdadeira potência cósmica.

A justiça dá base ao amor, para que este se transforme na caridade, que é o amor em ação.

 


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