02 julho 2008

Lei e Natureza

Os estoicos, na Grécia arcaica, tinham plena convicção da unidade nómos-physis, ou seja, na perfeita correspondência entre a lei e a natureza. As suas teses giravam em torno dos termos Moirai e Thémis. Segundo eles, a Divina Moira é quem distribui o quinhão de cada um. Thémis é a deusa zeladora das distribuições efetivadas pelas Moirai. Elas são respeitadas e temidas sem a necessidade de leis escritas. Assim sendo, ser virtuoso é cumprir a determinação da Moira e da Thémis, tanto na ordem pessoal quanto na ordem social.

Na Grécia clássica, o espaço e o tempo vão sendo laicizados. Os filósofos dessa época ocupam-se com o lógos, cuja consequência imediata é a crítica contumaz ao conhecimento mítico-sagrado. Com o desenvolvimento da polis, a reflexão filosófica fica mais restrita aos apelos sociais, principalmente na manutenção da conduta administrativa do Estado. A natureza acaba ligando-se ao lógos em detrimento do nómos. Nessa nova lógica, o par nómos-physis terá outra acomodação. O questionamento da relação homem-cidade-cosmo ganha força já no século VI a.C.

No século V a.C., para enfatizar ainda mais o questionamento da unidade nómos-physis, surgem os sofistas. Os sofistas, como sabemos, são pessoas especializadas na arte da discussão. Valiam-se mais do lógos do que da lei. O lógos é uma palavra de difícil tradução. O significado mais próximo é "discurso argumentativo". Lógos é um dizer que explica, usando encadeamento de argumentos. Assim sendo, o poder da palavra toma corpo, abrindo espaço para a persuasão.O lógos persuavivo, por sua vez, pode transformar os homens, portanto a cidade.

lógos persuasivo dos primeiros filósofos não está totalmente desvencilhado do mito. Com os pré-socráticos, há a tentativa de buscar uma realidade por detrás das aparências. O único paradigma possível é o cosmo teorizado como harmonia de forças contrárias. Com a vinda de Sócrates, Platão e Aristóteles, o logos toma nova dinâmica, isto é, tenta dar uma nova dimensão à religião, ao mito e ao sobrenatural. É a explicação baseada na razão. Quer-se, com isso, buscar o conhecimento, partindo do próprio raciocínio, do próprio esforço, da própria vontade.

Para os estoicos, a Physis sustenta a noção de igualdade. Entre eles, há concordância entre o mito, a filosofia e a religião. Os filósofos posteriores, porém, tomam outra direção e começam a se distanciar da lei divina. O lógos dessa época dá mais importância à junção entre a natureza e a cidade. Em suas ações, podem cometer mais erros, aumentando, inclusive, a distância entre a ordem divina e a ordem humana. Contudo, quando se aproximarem novamente da lei divina, fa-lo-ão com conhecimento de causa.

De acordo com o Espiritismo, a lei divina ou natural está escrita na consciência do ser. Por isso, não é nenhuma novidade que os estoicos, no século V a.C., tivessem sobre ela tamanha convicção.

Fonte de Consulta

GAZOLLA, Rachel. O oficio do filosofo estoico: o duplo registro do discurso da Stoa. São Paulo: Loyola, 1999.

 


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