02 julho 2008

Meditação

Atenção, concentração, reflexão e meditação são alguns dos estados da mente que caracterizam a boa relação entre o "observador" e a "coisa observada". Na atenção devemos estar passivos; na concentração e reflexão, ativos. A meditação, por sua vez, é um estado de alma de completo percebimento de nós mesmos. Ultrapassa a reflexão, pois enquanto aquela é uma volta sobre si mesmo, esta vai em busca dos aspectos mais gerais do ser.

Na vida, estamos sempre à procura de alguém que nos ensine como fazer. A meditação é um estado de percebimento interior que não comporta técnica. À medida que usamos este ou aquele método, mecanizamos nossa mente e nos tornamos incapazes de descobrir a verdade. Nesse sentido, devemos ter cuidado de não transformarmos nossas confusões, num método. Pois, uma vez estabelecida a teoria, o conhecimento que se exercita, tem o caráter "verdadeiro", porém, em realidade, "falso".

A meditação é um esvaziamento de nossa mente. Estamos constantemente remoendo o passado, ou, temendo o futuro. Presos às superstições, dogmas e rituais, temos dificuldade de conceber o novo, ou seja, somos facilmente sugestionados pelo que ouvimos, lemos ou experimentamos. Libertar a mente de todos esses condicionamentos é ponto central da meditação autêntica. Para tanto, não devemos impor um método específico, porque entravaríamos a livre busca da verdade. O ideal é estarmos "cônscios".

Ideias movem o mundo. Nossos atos, por mais simples que sejam, são reflexos do estoque de conhecimento adquirido. Nossa tarefa consiste na elevação dos sentimentos, a fim de melhor captar as boas idéias disseminadas no espaço. A colocação correta do problema traz implícito a solução correta. O empenho, tornando-se hábito, gera um fluxo energético positivo, que nos encaminha adequadamente para o cumprimento de nossos deveres.

A base concreta da meditação está na plenitude do ser, isto é, na totalidade de nossa existência. Para tanto, há que se operar uma revolução radical em nós mesmos. De nada adianta querermos transformar a sociedade, se intimamente estamos desequilibrados. Se o "nós" é uma soma dos "eus", convém melhorarmos os "eus" para termos o "nós" mais perfeito. Por isso, a conscientização de nossa limitação e potencialidade ajuda-nos a tomar decisões mais racionais no seio da sociedade.

Meditação é, essencialmente, aprofundamento. Tenhamos a disposição de investigar com interesse e entusiasmo, a fim de penetrarmos no âmago do conhecimento verdadeiro. De superficialidade, estamos repletos.

Fonte de Consulta

KRISHNAMURTI, J. Fora da Violência. São Paulo, Cultrix, 1976.
São Paulo, 24 de novembro de 1998

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