21 julho 2008

Pobre de Espírito

Pobreza – do lat. paupertas - significa falta do necessário à vida. Confunde-se, em geral, com miséria, em que há falta até do essencial. Na pobreza, há carência do relativamente supérfluo. Diz-se relativamente porque a pobreza em um estado pode ser miséria em outro, e o que é supérfluo a uns pode ser já o necessário para outro.

No vocabulário cristão, a palavra pobreza tem uma ambigüidade que é preciso esclarecer. Em primeiro lugar, ela pode representar a simples carência de bens. Em segundo lugar, está relacionada com a passagem evangélica, em que Jesus diz: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus". (Mateus, cap. V, v. 3). O sentido de "pobres de espírito" ou "pobres em espírito" é muito discutido. Não significa desapego, mas refere-se às classes humildes, cujo espírito é oprimido pela necessidade e pelo abatimento.

O caráter revolucionário dessa afirmação não deve ser menosprezado: é uma resposta implícita à arrogância dos fariseus. A maldição da pobreza é substituída pela bem-aventurança, que excede toda a riqueza. O termo não significa que apenas os pobres entram no reino do céu, mas também os pobres. É, assim, uma avaliação positiva da pobreza e não uma crítica negativa da riqueza.

A pobreza pregada por Jesus é uma atitude de livre escolha com relação aos bens espirituais. Difere fundamentalmente da carência de bens materiais. No seu sentido mais profundo, é a aderência do crente à vontade do Criador, a resignação ante os revezes da fortuna, a simplicidade de coração, a pureza dos sentimentos, ou seja, a ingenuidade da alma, que se assemelha à criança.

Simplicidade de coração e humildade de espírito são as molas propulsoras de nosso progresso espiritual. Nesse sentido, o ignorante que possui essas qualidades será preferido ao sábio que as desdenha. É que para alcançarmos o reino do céu devemos crer mais na Providência Divina do que em nós mesmos. Dessa forma, Jesus aproveitava todas as suas oportunidades para exaltar a humildade, que nos aproxima de Deus, e combater o orgulho, que nos distancia Dele.

Não nos abatamos quando formos menosprezados e taxados de "pobres em espírito". O importante é crescermos em humildade e simplicidade de coração.

São Paulo, 08/12/1996

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