02 julho 2008

O Apego à Matéria

Em nosso estudo sobre Materialismo Dialético e Espiritismo procuramos fazer uma comparação entre o materialismo dialético (Feuerbach) e o materialismo histórico (Marx-Engels) com os princípios elaborados pelo Espiritismo.

Para uma melhor compreensão do problema, não devemos confundir o materialismo, tratado filosoficamente, com o materialista, pessoa apegada à matéria. O materialismo, filosoficamente considerado, concebe a matéria como essência e o Espírito como epifenômeno, ou seja, o Espírito depende da matéria. Não necessariamente ele é materialista (apegado à matéria). Para o Idealismo (Hegel), o Espírito é a essência e a matéria um epifenômeno. Marx, por exemplo, dizia que os aspectos econômicos sobreporiam os aspectos filosóficos e religiosos. Por isso, a sua repulsa pela religião, considerando-a o ópio do povo.

O grande perigo da tese materialista é que, dando importância à matéria em detrimento do Espírito, ela pode nos motivar a ser materialistas, ou seja, apegados à matéria. Daí, a nossa corrida para os gozos do corpo, para as diversões, para os prazeres, para o consumo desenfreado de bens materiais. Se a vida termina com a morte, por que nos preocuparmos com a vida futura? É melhor gozar no dia de hoje. A sociedade, tendo que atender primeiramente as necessidades materiais, direciona suas atividades para o que é útil, o que dá produtividade, o que dá lucro. As atividades voltadas para o amor ao próximo, ensinada por Jesus, ficam para um segundo plano.

Observe a revolução científico-tecnológica da atualidade, bem contrária de quando a ciência foi criada no século XVI e XVII. Naquela época, optava-se pela ênfase cognitiva, onde um único cientista ficava vários anos para conseguir uma grande descoberta. Hoje, fala-se em "ciência tecnológica", em que várias equipes de cientistas trabalham num único projeto, financiado tanto pela iniciativa privada quanto pelo Estado. O cientista que quer fazer ciência pelo amor à ciência, acaba sendo marginalizado, pois não dá lucro.

Vejamos, contudo, do ponto de vista espiritual. O ser humano produz por produzir. Mas saberá ele para que fim? Os meios (produção) ficam acima do fim (evolução do ser). Em se tratando de uma vida além desta, o que levaremos para lá? Levaremos as nossas riquezas materiais, os nossos títulos acadêmicos, as nossas posses? Allan Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, ao tratar do problema da riqueza, diz-nos que a verdadeira propriedade não é nada daquilo que é para o uso corpo, mas tudo o que para o uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Esclarece-nos que somos apenas usufrutuários dos bens materiais dispostos por Deus. Acrescenta que é na caridade que está a salvação da alma. Um agravante: a morte não muda o nosso estado interior, apenas nos muda de plano. Quer dizer, sendo apegados à matéria, continuaremos do lado de lá. Nesse mister, há muitas passagens espíritas que relatam a situação de sofrimento desses Espíritos nessas condições.

Importante: o desprendimento dos bens terrenos não significa esbanjamento, pois teremos de prestar contas dos bens colocados à nossa disposição para o auxílio do próximo.

São Paulo, 19/03/2004

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