02 julho 2008

O Mal Tem Consistência Própria?

O mal tem consistência própria? Não. O mal é desprovido de substancialidade. Ele é a ausência do bem. Quando o concebemos, reconhecemos que ele é pensado e combatido em função de um ideal, que denominamos de bem.

O problema do mal no mundo é um dos que mais intriga a mente humana. Como compreender a existência de homens perversos que violam a inocência, oprimem os pobres, matam a sangue frio? Por que uns nascem na opulência e outros na pobreza? Por que uns são aleijados e outros repletos de saúde?

Na tentativa de explicar a presença do mal no mundo, muitos pensadores estabeleceram a existência de dois princípios, o do bem e do mal. Este sistema de ideia chamou-se maniqueísmo. Com o tempo viram que não tinha fundamento, pois o princípio do mal se destituía por si mesmo. Hoje, são poucos os que aderem a essa teoria.

A origem do mal é também motivo de especulação filosófica e religiosa. De antemão, podemos afirmar que a sua origem não pode estar em Deus, pois se admitirmos que Deus tenha criado o mal, cai por terra um de seus atributos, ou seja, ser infinitamente bom. Além do mais, teríamos que conceber a existência de dois deuses, um voltado para o bem e outro para o mal, de modo que os dois estariam se digladiando eternamente. Se sua origem não está em Deus, onde estaria? O ponto de partida é o livre-arbítrio. No começo dos tempos vigorava o determinismo divino, que orientava a evolução dos Espíritos. Conforme o Espírito foi tomando conhecimento de si mesmo, adquiriu concomitantemente a liberdade e a responsabilidade pelos atos praticados. O mal surge quando este Espírito se desvia do ideal de bem, colocado por Deus em sua consciência. O desvio – por orgulho, vaidade ou egoísmo – tem como contrapartida a dor. Esta. Por sua vez, faz o Espírito retornar novamente à senda do progresso.

Por mais que divulguemos o mal, é o bem que está sendo exaltado, porque o estamos comparando com um ideal, uma perfeição, visto que estamos partindo do que é para aquilo que deve ser. Assim sendo, a importância do mal se fundamenta na espécie de bem que ele obsta. Observe a transformação de grandes homens: eles perseguiam uma ideia e acabaram sendo seguidores daquilo que combatiam. Exemplo: Paulo perseguia o cristianismo; depois, foi o seu maior propagador. Muitos cientistas quiseram desmascarar as fraudes mediúnicas; inteirados de sua lógica, mudaram completamente os seus conceitos. Exemplo: Crookes e as materializações de Katie King.

O mal deve sempre ser combatido pelo bem. Quando o bem está escondido, o mal se alastra. Do mesmo modo que as sombras fogem da luz, o mal foge do bem. Ainda não temos plena consciência de nossa importância na divulgação das verdades eternas. Muitas vezes, sofrendo o mal, podemos ser os propagadores da luz. As pessoas que nos fazem o mal, que zombam de nossa credulidade, acabam por nos propiciar a oportunidade de provar nossa fé e de propalar as idéias do bem. O verdadeiro adepto da verdade não pode se prender ao mal passageiro. Ele deve enfrentá-lo como os antigos cristãos, que iam morrer no circo. A única diferença é que os novos mártires devem sofrer o mal e continuar vivos para veicularem mais verdades.

O mal aí está para nos desafiar. Exercitemos a caridade para com os ingratos, os infames, os criminosos e os carrascos domésticos. Lembremo-nos de que a função da luz é clarear caminhos, varrer sombras sem, contudo, contaminar-se.

São Paulo, 18/5/2005

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