02 julho 2008

Liberdade

No seu sentido geral, liberdade é estado do ser que não sofre constrangimento, que age conforme a sua vontade, a sua natureza. Como é uma palavra polissêmica, há mais de 200 sentidos registrados pelos historiadores de idéias. A língua inglesa, por exemplo, distingue dois conteúdos, usando as palavras freedon e liberty. Freedon refere-se ao princípio interno de escolha e de ação. É o seu aspecto positivo. Liberty refere-se à ausência de coação externa. É o seu aspecto negativo.

A liberdade pode ser vista pelo lado do sujeito, do objeto e das diversas designações que lhe correspondem. No âmbito do sujeito, há que se considerar a possibilidade de autodeterminação, a indeterminação, a ausência de interferência etc. No âmbito do objeto, temos a liberdade privada ou pessoal, a liberdade pública, política, moral, social etc. A liberdade prende-se, também, com os conceitos de livre-arbítrio, razão, ato, autonomia, vontade, "boa vontade" etc.

Foi o homem sempre livre? Foi sempre racional? Quando ele passou de uma situação de irracionalidade para uma de racionalidade? De acordo com as instruções dos Espíritos, podemos dizer que o Espírito, criado simples e ignorante, é auxiliado, na fase inicial de sua evolução, pelos protetores espirituais. Com o passar do tempo, vai deixando ao sabor de suas próprias forças, especificamente quando adquire o pensamento continuo, o livre-arbítrio a razão e a responsabilidade. É aí que consegue responder pelos seus atos.

O que é uma ação livre? A ação é livre quando tem alguém que responde por ela. A resposta implica responsabilidade. Nesse sentido, somente no homem e do homem pode-se falar de liberdade. Deus e o animal não entram no processo, pois o animal, pelo que até conseguimos saber, não tem o poder de escolher pelo raciocínio, pelo senso moral. De Deus nada sabemos, porque está acima de nossa limitação pessoal. Somente no homem foi possível tratar da ação livre e da sua conseqüência.

Livre-arbítrio e fatalidade relacionam-se com a liberdade. A pergunta número 851, de O Livro dos Espíritos, diz: Há fatalidade nos acontecimentos da vida? Nesse caso, em que se torna o livre-arbítrio? Resposta: a fatalidade existe quando o Espírito escolhe as suas provas. Uma vez escolhidas, deverá passar por elas. O livre-arbítrio consiste em resistir ou ceder à tentação da prova. Um exemplo: suponha que tenhamos pedido para nascer no ambiente de vício. Estando no meio dos viciados, cabe-nos fazer esforços de resistir aos seus estímulos.

"Conhecereis a verdade e verdade vos libertará" é o dístico extraído dos ensinamentos de Jesus. Serve para muitas situações, inclusive para a libertação do ser humano das amarras do mal. É preciso, pois, refletir sobre as ações que nos tornam livres e não aquelas que nos aprisionam. Por isso, Jean Jacques Rousseau disse, e com muita sabedoria, que muitos se julgam livres, mas não vêm os laços que os prendem. É o caso do vício. Ele, a princípio, causa prazer, mas, depois, deixa-nos dele dependentes, impedindo que possamos praticar outros atos livres.

Busquemos, assim, a todo custo a verdade que nos liberta, ainda que para isso sejamos constrangidos a sofrimentos atrozes. Somente quando tivermos capacidade de transcender o mundo que habitamos, seremos capazes de transcender a nos mesmos.

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