02 julho 2008

Esperança

Genericamente, a esperança é toda a tendência para um bem futuro e possível, mas incerto. Psicologicamente, tensão própria de quem se sente privado de um bem ardentemente desejado (imperfeições), mas que julga poder alcançar por si mesmo ou por outrem. A esperança diz respeito aos bens árduos e difíceis, porque não dependem apenas da vontade de quem os espera, mas também de circunstâncias ou vontades alheias, e que, por isso, a tornam de algum modo, incerta e falível. Justaposta às esperanças do dia-a-dia, há a grande esperança, ou seja, um vínculo permanente entre a espécie e o seu criador.

No pensamento grego, a palavra elpis designava tanto o momento feliz ou infeliz de quem espera. Com Platão, o gênio filosófico e religioso da antiguidade, essa palavra elpis designa "a grande e bela esperança" num além depois da morte. O sentido eminentemente positivo em questão de tanta importância como a da sobrevivência da alma deve ter contribuído para que o termo elpis, abandonada a ambiguidade original, passasse a designar exclusivamente tudo quanto de bom e agradável é licito esperar.

Tanto a elpis grega como a spes romana, mesmo nas suas mais elevadas expressões, jamais atingiram a certeza de um futuro feliz. Foi a revelação judaico-cristã que, ao dar como termo das tensões a posse gratuita e inadmissível do próprio Deus, elevou-a à categoria de uma virtude fundamental da vida cristã. São de assinalar, entre outros os contributos de Santo Agostinho, de Pedro Abelardo, de Duns Escoto e, sobretudo, de S. Tomás de Aquino, que nos deixou um tratado completo dessa virtude.

No âmbito da filosofia moderna, toda centrada na exploração da subjetividade, o tema foi relegado ao campo das paixões e das emoções. É que diante do domínio racionalista, a fé cristã vê-se amputada dos grandes objetivos de sua dimensão escatológica, de modo que a spes quae acaba por ficar reduzida aos aspectos formais do ato de esperar (spes qua) . As filosofias existencialistas, marxistas e materialistas roubam as expectativas da fé com relação à vida após a morte.

Contudo, alguns autores como R. Le Senne, T. de Chardin, J. Pieper e especialmente G. Marcel procuram ressaltar a idéia de que a dimensão escatológica da esperança cristã não só não anula as esperanças humanas, mas, pelo contrário, as assume e potencializa, dando-as como lugar inadiável de exercício e preparação das realidades futuras. Isso mostra que a fé não deve ser apenas racionalizada, mas sentida no íntimo de cada um de nós.

Esperemos, porém evitemos a presunção e o desespero, que são os excessos, tanto para cima como para baixo, da esperança.



Fonte de Consulta


Logos - Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. Rio de Janeiro, Verbo, 1990.
São Paulo, 12/08/1998


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